ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER
CAPÍTULO I - DAS SAGRADAS ESCRITURAS.
Prof. Rev. João Ricardo Ferreira de França.
IV – A AUTORIDADE DAS ESCRITURAS SAGRADAS I .
Seção IV A
autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida,
não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de
Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida,
porque é a palavra de Deus.
Ref. II Tim. 3:16; I João 5:9, I Tess. 2:13.
O que
significa a doutrina da Autoridade das Escrituras? O que este vocábulo quer nos
dizer? Packer vai nos dizer que a autoridade das Escrituras “repousa na
inspiração”[1]
mas, o que significa essa autoridade? Esta é a questão que precisamos
responder.
A
declaração da Confissão de Fé de Westminster é clara em nos oferecer uma
definição precisa do que seja a Autoridade das Escrituras. Notemos que se
figura aqui a ideia de que esta autoridade não derivada de homem algum ou de qualquer
igreja; mas, de Deus ser a própria verdade.
Significa
que toda a Palavra de Deus conforme está registrada é inerrante, e, não possuem
erros em nada do que se propõe dizer e ensinar, por isso, deve ser aceita como
autoridade suprema na vida e no culto do povo de Deus.
4.1 – É UMA DOUTRINA ATESTADA POR CRISTO:
No
Novo Testamento temos Cristo falando a favor desta doutrina da autoridade das
Escrituras. Cristo sempre apelou para as Escrituras como a um tribunal supremo.
Em
qualquer controvérsia ele usava a expressão “está escrito” indicando que a
palavra final deve ser dada a Palavra inspirada por Deus. Vejamos isso
detalhadamente em Mateus 4.4,6,710:
Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão
viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus e lhe disse: Se
és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará
a teu respeito que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não
tropeçares nalguma pedra. Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito: Não
tentarás o Senhor, teu Deus. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás,
porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.
Cristo
ao usar a expressão “está escrito” usa um verbo grego “ge,graptai” – gégraptai –é um verbo no perfeito que indica uma ação contínua,
significando “permanece escrito”, então, o Senhor Jesus está apelando para a
autoridade da Bíblia como fonte autorizada da verdade; Satanás utiliza a mesma
expressão reconhecendo tal autoridade, todavia, vale-se de uma interpretação
distorcida para tentar enganar o Cristo, mas o Jesus novamente diz “permanece
escrito” que não se deve tentar a Deus.
Outro
texto onde contemplamos Cristo fazendo defesa desta autoridade das Escrituras é
quando ele busca corrigir os erros dos escribas e fariseus de seu tempo em
Mateus 22.29: “Errais, não
conhecendo as Escrituras”; todavia, o texto que podemos ver claramente a defesa
da autoridade bíblica provinda dos lábios de Cristo é aquele de João 10.35: “E a Escritura não pode
falhar”.
No
texto de João 10. 35 nos chama a atenção o verbo “falhar” no grego temos “luqh/nai”- lythênai – é um verbo usado para descrever a quebra do sábado
(Lucas 13.16), a ideia é de quebrar, ser quebrada, ou mesmo de ser diminuída a
sua importância e valor. Cristo diz que toda a Escritura é a autoridade na vida
da Igreja.[2]
4.2 –
É UMA DOUTRINA ATESTADA PELOS APÓSTOLOS DE CRISTO:
O Apóstolo Paulo atesta sobre a autoridade da Palavra
de Deus ao declarar que os crentes de Tessalonicenses acataram a verdade por
ele pregada, “não como palavras de homens, mas como palavra de Deus”( 1
Tessalonicenses 2.13).
E,
ainda o Apóstolo Pedro reconhece os escritos de Paulo como escritos cheios da
autoridade do próprio Deus, ao colocar as cartas de Paulo no mesmo patamar das
“demais Escrituras” (2 Pedro 3.15-16) Pedro reconhece a autoridade do Antigo e
do Novo Testamento.
4.3 –
A NEGAÇÃO DA AUTORIDADE DAS ESCRITURAS:
A autoridade das Escrituras tem sido
solapada de diversas formas. E, sendo assim precisamos identificar essas formas
para que possamos fazer uma apologética segura da Bíblia como nossa autoridade
suprema. Nós só podemos identificar tais perigos se oferecermos a resposta
correta à velha pergunta: O que é a Palavra de Deus?
E a resposta deve ser: “As
Escrituras Sagradas – o Velho e o Novo Testamento – são a Palavra de Deus, a
única regra de fé e prática”[3]
Diante
desta definição podemos podemos ver a presença de quatro inimigos da Autoridade
Bíblica na igreja em nosso presente século.
A) O
DISPENSACIONALISMO:
A
primeira negação da autoridade bíblica, é o “Dispensacionalismo” ou como foi
conhecido nos anos anteriores, e ainda em tempos atuais, o “Antinomianismo” que
sustenata a ideia de que o Antigo Testamento passou e que agora só temos o Novo
Testamento para basear a nossa fé.
O
catecismo, na citação que fizemos acima, nos mostra que tal idéia não tem fundamentação teológica, pois o
catecismo nos informa que “o Antigo e o Novo Testamento” , ou seja, ambos são a
Palavra de Deus; o Novo não é mais Palavra de Deus que o Antigo, e nem o Antigo
é menos Palavra de Deus que o Novo, mas que ambos, formando uma unidade na
mensagem cristã, são a Palavra de Deus.
Quando
se nega a unidade das Escituras se lhe diminui autoridade , e mais se coloca em
contraposição o Antigo e o Novo Testamento levando toda a Escritura se
contradizer.
B) A
NEO-ORTODOXIA E O LIBERALISMO TEOLÓGICO.
A
autoridade das Escrituras é solapada pela , “Neo-ortodoxia”, e pelo “Liberalismo teológico”. O primeiro sistema
ensina que a Bíblia não é a Palavra infalível de Deus, mas que apensa contém a
Palavra de Deus, ela se transforma em Palavra quando leio, ou quando escutamos
algum sermão a nós dirigido com base na Bíblia.
No
segundo sistema a Bíblia não é de modo algum a Palavra infalível de Deus, pois,
segundo pensam, está cheia de mitos e contos que não condiz com a razão do
homem, e por isso, não pode ser autoridade final e deve ser apenas usado como
um livro de ética e moral – nada mais do que isso. Todavia, o Catecismo
diz:”...o Velho e o Novo Testamentos são a Palavra de Deus...” não existe
espaço para a noção de que a Bíblia venha a se tornar a Palavra de Deus. (2
Timóteo 3.16-17).
Paulo
declara que “toda a Escritura É divinamente inspirada”, ela
não se torna e nem contém, ela é toda a revelação proposicional de Deus aos
homens.[4]
C) O
TRADICIONALISMO
O
terceiro ataque à autorida bíblica vem do “Tradicionalismo católico Romano” que
entende que a tradição eclesiástica é superior a Bíblia. Negando assim, a
autoridade final das Escrituras e a sua suficiência.
O
Senhor Jesus falou muito bem contra tal ataque, pois, quando a tradição está
acima da Palavra de Deus o que resta é a transgressão á Lei de Deus conforme
vemos em Marcos 7.7-13:
E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são
preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição
dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para
guardardes a vossa própria tradição. Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua
mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Vós, porém,
dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias
aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o Senhor, então, o dispensais de
fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou de sua mãe, invalidando a palavra
de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes; e fazeis
muitas outras coisas semelhantes.
A
tradição quando contrária a Lei de Deus ela nos leva pra longe dele. Precisamos
entender que
As tradições, antigas, que foram testadas pelo tempo e
que carregam consigo a sabedoria de uma raça, trazem profundidade e perspectiva
para os dias em que a vida, frequentemente, se mostra sem raízes, superficial e
banal[5]
É
disso que estamos tratando, a Bíblia e a tradição (vista como o testemunho da
Igreja) devem andar juntas, nós precisamos ouvir a ambas ou como coloca
sabiamente um autor reformado presbiteriano:
A Bíblia sozinha seria a religião dos protestantes. O
problema é que a Bíblia nunca está sozinha. O próprio Calvino, que falou da
autoridade da Bíblia nos termos mais elevados, sempre leu-a e ouviu-a segundo
as tradições. Sua revisão litúrgica foi feita de acordo com as práticas da
Igreja Antiga, o mesmo sucedendo com a organização eclesiástica por ele
desenvolvida[6] ().
Então,
podemos ler a Bíblia com as tradições, o problema encontra-se quando as
tradições estão se opondo à Bíblia. A Igreja é a coluna e baluarte da verdade
(1 Tm.3.15). E vivemos uma época em que a história da igreja (que funciona como
testemunho para nós) tem sido negligenciada, mais uma vez Leith nos adverte
para isso:
Os protestantes têm sido sempre tentado a crer que, de
alguma forma, podem ignorar todos os séculos da história cristã, estudando a
Bíblia sem ajuda e os embaraços dos que os antecederam. Na verdade, porém,
aqueles que se recusam a ler a Bíblia à luz das tradições da Igreja acabam
sendo dominados pelas suas próprias tradições históricas e culturais[7]
D) O PENTECOSTALISMO
O
quarto e último perigo à autoridade da Bíblia é, o conhecido sistema
“Pentecostal” que nega a autoridade da Bíblia e a sua suficiência, quando
sustenta a crença de existência de novas revelações supostamente produzidas
pelo Espírito Santo; a isso o catecismo responde da seguinte forma, resposta
esta que vale para os dois últimos sistemas acima mencionados: “As Escrituras
Sagradas...são a única regra de fé e prática”. Ou seja, a vida cristã não é
regida por tradicionalismo, nem pelo misticismo que aflora no pentecostalismo.
A
definição do Catecismo prioriza a questão da autoridade final quando afirma que
as Escritura é suprema em todas as coisas. Na vida, na igreja, na sociedade, na
ciência nela não existe erro ou contradição.
Então,
o que há de errado em nossa cultura pós-moderna? Há um grande afastamento dos
padrões de Deus em nossa sociedade atual, a Bíblia tem sido questionada em
nossos dias. Na história da igreja entendemos que “a igreja sempre aceitou os
66 livros como canônicos”[8].
[1]PACKER,
James I. Vocábulos de Deus. São
Paulo: FIEL, 2002, p.33.
[2]
SCHWERTLEY, Braian. O Modernismo e a
Inerrância Bíblica. Tradutora:
Denise Meister. Recife: Os Puritanos, 2000, p.30-31
[3]
Catecismo Maior de Westminster, resposta à pergunta 3.
[4]
SCHAEFFER, Francis A. O Deus que se
Revela. Tradutora: Gabrielle Greggersen. São Paulo: Cultura Cristã, 2008,
p.129-135.
[5] LEITH,
1999,p.7
[6] LEITH, Op. Cit,p. 20
[7]
Idem
[8] COSTA,
Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e
Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.65.