domingo, 1 de março de 2015

OS OFICIANTES DO CULTO.

OS OFICIANTES DO CULTO.

Pr. João Ricardo Ferreira de França.

            Jacque J. Von Allmen  traz uma abordagem muito interessante sobre este tópico, ele coloca-nos frente a uma discussão sobre os oficiantes litúrgicos, apresentando 4 personagens desta ação litúrgica: Deus, os fiéis, os anjos e o mundo.[1] Por questões de brevidade, cumprindo a finalidade deste trabalho, abordaremos apenas a relação de dois oficiantes litúrgicos.

1 – Deus.

            Muitas vezes negligenciamos o conceito revelacional de que Deus é quem ordena a adoração; isto é assegurando na Confissão de Fé de Westminster quando declara: “[...]Da parte dos anjos e dos homens e de qualquer outra criatura lhe são devidos todo o culto, todo o serviço e obediência, que ele há por bem requerer deles.”(CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, CAPÍTULO 2, SEÇÃO 2).
            O culto é teocêntrico porque ele centraliza em Deus e é para Deus. Devemos nos lembrar que é a “ordem de Deus que transforma o ato de culto em algo mais do que mero desejo ou anseio. É a sua presença que faz dele algo mais do que simples ilusão. É a sua presença que o redime do perigo da vaidade.”[2]
            O culto é aquilo que Deus requer, que Deus exige em sua Palavra para que ele nutra os seus filhos no seio da igreja. Então, toda adoração, todo louvor devem ser teocêntricos voltados para o ser de Deus. Devemos nos lembrar que o Deus Trino está presente na liturgia da igreja, e é a ele que estamos adorando sempre. Textos bíblicos 1ª Coríntios 12.4-7 apresenta-nos o Deus trino agindo liturgicamente na igreja concedendo os dons necessários à igreja para realização de sua vida litúrgica. O culto cristão é o que é por causa de Deus e não dos homens, é a celebração pactual que Deus reclama de seu povo.

2 – Os Fiéis.


            Para os membros que foram batizados o culto constitui um privilégio e um dever singular. Isto porque eles vivem na nova  realidade, pois, no batismo foram declarados ausentes do mundo e dedicados para Deus. Então, todos aqueles que receberam a insígnia do batismo cristão devem participar do culto. Devem ser oficiantes da ação litúrgica. A Palavra de Deus é muito clara sobre isso ao nos ensinar:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.” (Atos 2.42-44 ARA).
            Todavia, dentro do principio litúrgico deve-se considerar que existem representantes pactuais. Aqueles que presidem as liturgias devem conduzir o povo a louvar a Deus, Paulo mensura no Novo Testamento esta vocação: “ou o que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria.” (Romanos 12.8 ARA). Em termos de oficiante de culto deve haver o presidente (προϊστάμενος) – proistamenos – que conduz o povo à adoração a Deus.
            Os presbíteros [docentes e regentes] são oficiantes litúrgicos Paulo exorta a igreja de Tessalonicenses a terem e alta conta estes oficiantes de culto: “Agora, vos rogamos, irmãos, que acateis com apreço os que trabalham entre vós e os que vos presidem no Senhor e vos admoestam;” (1ª Tessalonicenses 5.12 ARA).
            Os membros da comunidade também participam da liturgia.
O ministério litúrgico dos fiéis compõe-se normalmente dos seguintes elementos (que podem ser ampliados em maior ou menor grau): o ouvir respeitoso da Palavra de Deus, a comunhão eucarística, o associar-se às orações por intermédio do amém, a recitação da confissão de fé, a apresentação das oferendas, o canto dos hinos e a participação no que chamamos de manifestações litúrgicas da vida comunitária (Antífonas, sursum corda, saudação, confiteor (o clero, aliás, participa também dessa ‘liturgia’ em que o povo de Deus como um todo se manifesta como povo sacerdotal)[3]

            Os oficiantes litúrgicos  se encontram no dia do Senhor de forma singular. Deus e os fiéis estão presentes no culto; os últimos vão à ação litúrgica para ouvir, cantar e prestar louvores a Deus; o senhor nosso Deus se faz presente como galardoador dos que o buscam na adoração.



[1] ALLMEN, J.J. Von. O Culto Cristão Teologia e Prática. Tradução: Dírson Glênio Vergara dos Santos. São Paulo: ASTE, 2006, p. 183-211
[2] Idem, p.183.
[3] Idem, p.192-193.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A TEOLOGIA DO PROFETA ISAÍAS.

A TEOLOGIA DO PROFETA ISAÍAS.


Prof. Rev João Ricardo Ferreira de França*

Introdução:

Antes de abordarmos qualquer questão sobre este livro precisamos fazer uma análise do seu contexto histórico e cultural. Esta abordagem nos ajudará a perceber a mensagem que está inserida neste  livro.
A vocação do profeta Isaías sempre é desafiadora para qualquer intérprete bíblico. Aquele que se dedica ao estudo da Bíblia poderá perceber como é rico o sexto capítulo para a aplicação teológica para nós; mas também, como é significativo para o contexto imediato no qual este texto foi produzido. Isto é importante termos em nossas mentes.
O livro que temos diante de nós possui uma característica curiosa: ele tem sido visto  como se fosse um resumo de toda a Bíblia. Pois o seu tema é “A salvação é de Yahweh”.
Isaías registra alguns fatos a respeito de si mesmo. Ele é filho de Amoz (1.1), que conforme a tradição histórica seria o irmão do rei Amazias (2 Reis 14.1,2); se tal tradição possui peso, então, explica o porque o profeta Isaías tinha livre acesso as cortes dos reis de Judá tais como Acaz (Is.7.3) e Ezequias (37.21;39.3). Este profeta era casado, sua esposa era uma profetisa (8.1); ele tinha dois filhos (7.3; 8.3); esses nomes dados aos seus filhos eram simbólicos e proféticos. No capítulo 8.3 – Rápido – Despojo-Presa-Segura – este nome do filho do profeta é uma promessa de que viria o julgamento sobre o povo que se recusava a abandonar os seus pecados; no capítulo 7.3 – Um – Resto-Volverá -  fala da esperança de que um remanescente regressará. Isaías profetizou por cerca de 740-680 a.C, ele proclamou a Palavra de Deus por aproximadamente sessenta anos . Ele profetizou durante o período do reino dividido; e foi direcionado especificamente para profetizar para o Judá urbano, sua vocação conforme é relatada no capítulo 6 nos indica exatamente essa perspectiva.
O propósito de sua profecia é ensinar que a salvação é manifestada pela Graça de Deus. Isto se incorpora no próprio nome deste profeta que significa que a “salvação é de Yahweh”. Pois, a situação política de Judá não era confortável onde nações inimigas estavam se levantando contra o povo pactual, e os reis de Judá buscavam alianças com outras nações para se salvarem dos mesmos, todavia, a profecia de Isaías vem com o propósito de mostrar aos seus ouvintes que apenas em Deus se poderá encontrar real livramento.
A profecia de Isaías pode ser esboçada da seguinte forma:
1-      Oráculo de Julgamento que compreende do capítulo 1 até o 39.
2-      Oráculo de Salvação que compreende do capítulo 40 até o 66.

I - TEONTOLOGIA EM ISAÍAS.
(ISAÍAS 6)

O nosso processo hermenêutico e exegético será o de extração direta do texto bíblico a teologia que o profeta desenvolve no seu livro. Teologia? Será que Isaías tem teologia para oferecer a Igreja do século XXI? A reposta deve ser a mais positiva possível. Vejamos.
            O profeta começa nos informando algo: “No ano da morte do rei Uzias” ele começa com uma nota informativa. As vezes lemos o texto e não pensamos nos grandes dilemas enfrentados por uma nação monárquica quando esta perde o seu rei. Devemos levar isso em consideração, a morte de um Rei era sinal de que estavam vulneráveis.
Sabemos por que Uzias morreu? O ministério de Isaías começou no ano da morte do rei Uzias (Is 6.1). Uzias foi um dos bons reis de Israel (ele também é chamado de Azarias). Ele reinou durante um longo período. Mas Uzias tornou-se orgulhoso. E, no seu orgulho, ele entrou no templo para oferecer incenso no altar. Isso só o sacerdote poderia fazer. Como resultado, Deus o feriu com lepra.
 Assim, ficou leproso o rei Uzias até ao dia da sua morte; e morou, por ser leproso, numa casa separada, porque foi excluído da Casa do SENHOR; e Jotão, seu filho, tinha a seu cargo a casa do rei, julgando o povo da terra. Quanto aos mais atos de Uzias, tanto os primeiros como os últimos, o profeta Isaías, filho de Amoz, os escreveu.(2 Cro 26.21-22).
Observe que o historiador oficial do reinado de Uzias era ninguém menos que Isaías, o filho de Amoz. A morte de um rei gera muita insegurança no reinado. O profeta Isaías coloca isto muito bem para nós ao escrever sua profecia. Ele começa com uma nota fúnebre – Na morte do Ungido do Senhor – isto é algo muito triste para o povo do pacto. O povo estava se sentido desamparado, pois, estava sem o grande protetor  - que os salmos usam a figura do rei como o pastor do povo pactual – levando o povo a desesperança.
Provavelmente o profeta estava também se sentindo desta forma quando entrou no Templo para orar a Deus. Mas o que acontece a este profeta? O que ele vê? Ele nos diz “eu vi o Senhor” no texto hebraico ele diz: “yn"±doa]-ta, ha,ór>a,w"” – va’er’éth eth Adonay – o termo “yn"±doa]” - Adonay - tem haver com a realidade daquele, que nos tempos antigos, tinha toda autoridade de definir a vida e a morte de seus escravos. Ele é o senhor tanto da vida quando da morte, a supremacia de Deus é apresentada de forma singular pelo uso do substantivo “Adonay”.
Deus, na visão do profeta, está “assentando-se sobre o trono” no hebraico comunica a ideia de que Deus continua como o Rei da nação, apesar da nação ter perdido o seu rei, o verdadeiro, e único Rei de Israel é o SENHOR.
Isaías nos apresenta Deus como aquele que é “Santo”. O que este termo significa na literatura veterotestamentária? O significado desta palavra é muito debatido entre os eruditos em Antigo Testamento. O Dr. Sinclair B. Ferguson diz que este termo traz consigo mesmo “idéias tais como ‘cortar’ ou ‘separar de’, ‘ser colocado à distância’, daí o sentido de ‘se posto à parte’, a fim de pertencer a Deus”.[1]É notório que o termo hebraico vdq;) (qadosh) tem uma significação de “manifestar-se como santo, consagrar para, separar de, conferir santidade, evidenciar-se como santo”.[2] O que isto evidencia na discussão sobre este tema? É o fato de que este adjetivo tem a função de comunicar “distância moral” entre o Deus santíssimo  e o homem pecador. “A santidade de Deus é uma visão da pureza do seu eterno e infinito ser”.[3] Isto é bastante ilustrativo  no texto de Isaías 6 onde Deus é contemplado como estando em um alto e sublime trono e o profeta como um miserável pecador que perecerá diante daquele que é três vezes santo.
A comunicação desta distância moral entre o homem e Deus são ressaltadas em primeiro plano pelo adjetivo “santo” exaltando  a singularidade da separação do substantivo ao qual o termo adjetiva. Indicando  separação imperativa entre o impuro e o santíssimo; ensejando a Plena Santidade de Deus que não tolera o pecado.
Esta é a visão da teontologia de Isaías, um Deus santo no qual homem não pode tocar. Esta distância é ainda acentuada no versículo 5: o profeta disse: “habito no meio de um povo pecador”( ameäj.-~[; ‘%Atb.W ykinOëa') –’anoki uvthok ‘am teme’ao usar o pronome pessoal (ykinOëa); -’anoki) o profeta quer nos oferecer uma ênfase singular, ele não busca se desculpar, ele não se esquiva, mas se inclui na lista dos pecadores; ele não apenas convivia, mas ele habitava no meio de (‘%Atb.W - uvethok) um povo (-~[; - ‘am) cheio de impureza (ameäj. - teme’) ele declarou que era alguém que estava perdido (ytiymeªd>nI-yki( yliä-yAa) - ’oy-li ki-nidemeythi) o verbo hebraico usado aqui para “estar perdido” é o verborm*:D*:”- damar- que está sendo usado no nifal aqui, indicando a passividade sofrida pelo profeta, todavia, o significado do verbo é cortar – ou seja, o profeta diz “estou sendo cortado” também ele disse que era um profundo pecador; por quê? A resposta é porque ele era um homem de “impuros lábios”.
Isso porque a concepção de Deus apresentada pelo profeta é de um ser que não pode ser contaminado pelo pecado, a figura das vestes do ser divino envolvendo o templo nos indica isso de forma muito clara; ele emudece, pois, enquanto os Serafins cantavam a santidade de Deus e não ousavam a olhar para Deus; o profeta, encontrava-se calado diante de tal majestade, lhe faltava os chãos aos pés ao contemplar tamanha santidade divina.

II - A ANTROPOLOGIA DO PROFETA ISAÍAS.
(ISAÍAS 1)
Isaías chega a contemplar a santidade de Deus o profeta, e não fica apenas nesta contemplação, pois, em sua profecia também nos mostra a visão que ele possui do homem. Nós só podemos conhecer quem é o homem quando somos impulsionados a contemplarmos a Deus. Calvino já afirmava exatamente esta verdade sobre os seguintes termos:
Quase toda a suma de nossa sabedoria, que deveras se deve ter por verdadeira e sólida sabedoria, consiste em dois pontos: a saber, no conhecimento que homem deve ter de Deus, e no conhecimento que deve ter de si mesmo. Mas como estes dois conhecimentos estão mui unidos e entrelaçados, não é coisa fácil de distinguir qual precede e origina o outro, pois, em primeiro lugar, ninguém pode se contemplar sem que por algum momento se sinta impulsionado a levar em consideração a Deus, no qual vive e se move; porque não existe quem duvide que os dons, nos quais toda a nossa dignidade consiste, não sejam de maneira alguma nosso.[4]

É exatamente esta compreensão que temos ao ler o capítulo um do livro do profeta Isaías. Neste capítulo temos a visão do que é o homem, temos a antropologia do profeta. Ao contemplarmos este capítulo corremos o risco de interpretarmos a antropologia do profeta em termos puramente negativos, embora seja algo predominante nos textos do Antigo Testamento, esta não é a real concepção aprendida pelo profeta. É  verdade que esta distância moral existe entre a criatura e o criador, mas ela existe primeiro para mostrar que somos seres dependentes e para apontar para a soberania de Deus.
O profeta começa o seu capítulo dizendo  que toda a profecia é fruto de uma “Visão” (!Azx] - hazon) apontando para a realidade de que a profecia não nasce dele, mas é divina. O profeta como grande escritor vale-se de um oráculo de julgamento em todo este primeiro capítulo, toda a estrutura do texto nos leva para esta abordagem.
Como é classificada esta palavra de julgamento? É classificada como uma “ameaça que anuncia uma desgraça, imediatamente acompanhada de justificativa ou sem ela, por causa do pecado dos homens”[5].
            Deus chama os céus e a terra como testemunhas “ Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra;”(vs.2). A figura de um tribunal é bem vívida na mente do profeta. Os céus e a terra devem prestar atenção “W[Üm.vi”(shim‘u) mas, não sem compromisso, porém, deve estar atentos como testemunhas do Senhor; e a razão disso é “porque o SENHOR tem falado:” o contraste é gritante, enquanto a Criação ouve a voz de seu Criador, Israel que é retratado como filho “‘~ynIB'”(banim), aqui no plural, não  o obedece e conseqüentemente não escuta a voz do seu Pai,  antes de tudo manifesta sua rebeldia “W[v.P'î”(pashe‘u); ora aqueles filhos foram engrandecidos “yTil.D:äGI”(giddalethi) , mas eles decidiram ir contra o Criador de todas as coisas.
            O contraste se acentua quando no versículo 3 Deus informa que os animais sem razão reconhece quem cuida deles, mas “Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende.” O profeta usa de um parelelismo sinônimico com tônica negativa.
            `!n")ABt.hi al{ïb’ yMiÞ[;a’ [d:êy" al{åb ‘laer"f.yIa
este paralelismo é percebido da seguinte forma :



‘laer"f.yI - isera’el ( Israel)
yMiÞ[; -‘ammi (meu povo)
[d:êy" al{å - lo’ yada‘ ( sem conhecer)
!n")ABt.hi al{ï - lo hithebonan (sem entender)

            O substantivo “Israel” tinha sua ideia repetida como “meu povo” apontando para uma relação paralela e sinônima, e de igual modo está a tônica negativa “sem conhecimento” faz paralelo com “não entende”
            No versículo seguinte segue-se um paralelismo tipo sintético onde há desenvolvimento dos pensamentos anunciados. O povo é retratado nos termos mais pecaminosos possíveis: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniqüidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás.” (vs.4).  O paralelismo é sintético sendo percebido pelo uso que profeta usa de fórmulas que completam o sentido da primeira imagem. O dito de julgamento “Ai” anuncia o juízo que vem caraceterizando o povo que está para ser sentenciado; “nação pecadora” o termo diz alguma verdade, mas o profeta quer completar o sentido; ele o faz de forma singular: “povo carregado de iniqüidade” é claro que o sentido é sinônimo, porém, sintético;  o povo não só peca, mas carrega sobre os seus ombros profundas maldades.
                Outro fato que nos chama atenção é que antes este povo fora chamado de “filhos de Deus” – Criei filhosyTil.D:äGI ‘~ynIB'banim giddalethi mas agora eles são retratados como “descendentes de malfeitores” - ~yti_yxiv.m; ~ynIßB' banium mashhithim – no original “filhos pútridos”. O profeta passa a descrever o homem sem esperança; um homem insensível às ameaças e às punições de Deus; está ferido, mas não se arrepende. Comete o que é mal diante de Deus no ato da adoração; eles consagraram as costas para Deus “deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás.” (vs.4). Eles consagraram ao Santo de Israel as suas costas “`rAx*a' WrzOðn"nazuru ’ahor – eles de fato rejeitaram o autor da vida.
            O homem é mal e se levanta contra o próprio Deus! Esta é a visão do profeta Isaías sobre a realidade do que seja o homem. E ainda assim, Deus tenciona chamar o povo ao arrependimento mostrando a real situação da cidade:
 7 A vossa terra está assolada, as vossas cidades estão abrasadas pelo fogo; a vossa terra os estranhos a devoram em vossa presença; e está como devastada, numa subversão de estranhos.  8 E a filha de Sião é deixada como a cabana na vinha, como a choupana no pepinal, como uma cidade sitiada.

Mas, o povo continua insensível. A visão que sobra é um homem desesperadamente corrupto sem alguma bondade nele.  O povo é contemplado na profecia como um povo prostituto ( vs.10-20) o povo é exortado a mudar de atitudes pecaminosas. O homem é totalmente depravado, e nos parece que não existe esperança para este. Será mesmo? A grande questão é: Qual a importância de Isaías acentuar esta distância entre o homem e Deus? A resposta está no aspecto redentivo de um mediador que é retratado com propriedade neste livro. O mediador é a figura pactual e central neste livro. O povo quebrou as relações pactuais e Deus quer manter as estipulações com este povo, mas mediante um mediador do pacto.

III - A SOTERIOLOGIA DO PROFETA ISAÍAS
( Is. 52-53.12)
A figura do “servo sofredor” de Yahweh passa a ser a personagem dominante da profecia de Isaías neste momento. Assim, aflora o conceito redentivo deste profeta. A redenção não vem em termos das aliança políticas que os reis de Israel tencionava realizar com as nações vizinhas[6], mas se torna real no conceito divino do mediador.
Quem é este “Servo Sofredor”? Alguém disse que as “expressões de que se ser o profeta para descrever o Ebed são ao mesmo tempo precisas e misteriosas...E, no entanto, não sabemos quem é este “Servo do Senhor”, e ainda somos informados que o “profeta não nos diz nem quando nem em que circunstâncias ele aparece[7].
Estes versículos são tidos como cânticos do Servo Sofredor. E tais versículos têm sido divididos “em cinco estrofes de três versículos cada[8]. Nós devemos analisar estas estrofes para entendermos os conceitos soteriológicos do profeta.
O profeta começa a primeira estrofe deste texto mostrando que neste novo momento Israel precisa perceber que há uma promessa redentiva neste personagem. O profeta usa uma partícula de intejeição “hNEïhi” - hineh -  mostrando uma transição direta das experiências do povo pactual para as experiências do redentor. Ele será prudente ou seja a sabedoria se faz presente. O profeta apresenta-nos a “dimensão gloriosa” deste servo, pois, ele “será elevado, exaltado e colocado numa posição muito alta[9].
Os verbos usados aqui tem sido considerados como sendo uma referência a um paralelismo sintético ou progressivo “Hb;Þg"w> aF'²nIw> ~Wrôy"” (yarum,venisa’, vegavahu) mas, estes verbos não devem ser considerados nesta estrutura, e , sim como verbos que forma um paralelismo sinônímico. Embora alguns eruditos discordem desta abordagem sugerindo que aqui faz-se uma referência a “três estágios: emergir da humilhação, contínua exaltação e admissão numa elevada posição”[10]. Todavia, outros como Young aponta que esta não “é a intenção de Isaías”[11].
O profeta no uso destes verbos está apontando para o alto grau de exaltação do servo sofredor. É importante notar que o “Servo não se torna um exaltado”[12]. O nó exegético de alguns eruditos encontra-se nos versos 14-15 do capítulo 52.  Estes versículos não tem sido avaliados dentro do escopo gramatical que exigem ser compreendidos. Muitos tem sugerido que o versículo 14a é uma prótase[13], seguida de uma declaração “parentética, que por sua vez, são seguidas pela apódose”[14] neste caso a expressão “ os reis fecharão as suas bocas por causa dele” explica a primeira sentença.
As conjunções usadas pelo profeta indica exata a função deste mediador pactual na figura do Servo do SENHOR. O uso da conjunção “!KEÜ”-ken- associada ao verbo “‘hZ<y:”-yazeh -  esclarece adequadamente o uso das conjunções conforme empregadas pelo profeta. O verbo aqui pode significar “esguichar”, “espalhar”, “aspegir” o verbo encontra-se no hiphil indicando que o sangue do Servo causará a libertação ou perdão dos pecados. A ação dos que pasmam e dos reis que se calam devem ser tomadas, com certa cautela, como sinônimos e a expressão “rv,’a] yKiû”-ki ’asher -  deve ser tomadas como um acentuação do contraste promovido pelo profeta entre os que pasmam e ficam calados “por causa dele” ou da ação redentiva que o Servo traz ao povo.
A redenção manifesta humilhação para aqueles que se julgam poderosos ( os reis ), o homem desprezado é o autor da redenção. O profeta em sua profecia indica que as nações serão aspergidas pela ação de redenção sacrificial trazida pela Servo do SENHOR. Algo se destaca aqui neste trecho das Escrituras (Is. 53.1-12) não são todas as nações que recebem a morte do Servo com valor expiatório, não era destinado unicamente ao povo do pacto (Israel) mas inclui-se os eleitos de Deus em toda tribo raça e nação “5 Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”
A extensão da obra redentiva é cósmica. Os efeitos da expiação do Servo alcança todo o cosmo. A restauração não apenas do homem com Deus é manifestada aqui, mas a paz ( o castigo que veio sobre ele nos deu a paz) e a justiça devem ser manifestações de um reino eterno que alcança o mundo em proporções universais.
A terceira realidade é que o Servo assume seu direito régio; a humilhação e o sofrimento dele antecipa o seu governo sobre todas as nações. Neste Servo os três ofícios se encontram – Profeta, Sacerdote e Rei – isto indica que a redenção é de fato uma realidade que não pode ser negada.
O capítulo 53 começa com uma pergunta em tom de acusação contra o povo: “Quem deu crédito”? “!ymiÞa/h, ymiî” - mi he’emin - os gentios creem, mas o povo da aliança recusa-se a crer. Este é o contraste, e apenas, um remanescente irá exercer fé naquilo que fora anunciado.
O braço forte aqui indica a ação redentiva de Yahweh para com o povo da aliança. O povo tem “testemunhado o julgamento de Yahweh sobre os inimigos e a poderosa ação que traz salvação e liberdade[15]. O servo apesar de manifestar tal redenção será desprezado, assim como foram os profetas do Antigo Testamento, isto trará ao Servo um sofrimento visível. A desfiguração e as doenças cairão sobre ele em favor do seu povo. Ele experimenta as trágicas conseqüências do pecado, tudo para diminuir a distância entre o homem e Deus, e trazê-lo de novo à comunhão com o seu criador. O texto nos indica que o Servo terá sucesso em sua ação redentiva ,pois, “ele verá o fruto penoso”, uma referência ao seu sofrimento vicário, “e ficará satisfeito” indicando uma consumação total e final da obra da redenção. Ou seja, o Servo Sofredor de fato salvará os pecadores de forma total e final  garantindo assim a salvação eterna do seu povo.
O conceito messiânico apresentado aqui indica não apenas um mediador, mas que este mediador é Deus, pois, diz que este servo salvará o povo de seus pecados, e apenas, Deus pode salvar os homens dos pecados nos quais estão imersos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Quais as implicações disto tudo? São várias. A primeira diz respeito a questão da soberania de Deus no governo do mundo. Apenas Deus governa o mundo com profunda sabedoria e realizações poderosas; aqui aprendemos a verdade de que Deus não pode ser removido do trono do universo; esta é a primeira implicação que podemos ter do livro deste profeta.
A segunda, ainda que ligada a primeira, é que esta soberania é retratada não apenas em termos de poder, mas em termos de santidade também. Isto significa que Deus como se revela na profecia de Isaías é o padrão absoluto da moralidade neste mundo. Não existe nada e ninguém que possa determinar o que seja certo ou errado sem levar em consideração a santidade de Deus; pois, somente ele pode ditar regras e padrões de moralidade isto por causa de sua santidade absoluta.
A terceira implicação diz respeito ao que é o homem. O homem é um ser que fora criado conforme a Imagem de Deus, visto e contemplado como filho de Deus; mas ao cair em transgressão este só planeja roubar a glória de Deus, destronar o soberano do universo. “e como Deus sereis...”(Gn.3.5) foi a tônica da tentação. O homem não estava satisfeito em ser apenas criatura, ele queria ser divino! Essa realidade volta a ser apresentada aqui na profecia de Isaías o homem corrompido é chamado a se arrepender, mas ele não quer vir ao encontro de Deus; ele rejeita a Deus com seus pecados, desconhece o seu criador. Faz o que é mal perante os olhos de Deus, este é o homem totalmente depravado que Isaías apresenta.
E, por último é a realidade de que se o homem não vem ao encontro de Deus; então, Deus, na pessoa do Servo Sofredor, mediador pactual, vai até o homem para redimir e resgatá-lo dos seus pecados escrabosos, apenas um mediador entre Deus e os homens pode de fato realizar a obra da redenção de forma real e suficiente. Ele diminui a distância entre o homem e Deus.



















REFERÊNCIAS BÍBLIOGRÁFICAS:
1.      CALVINO, João. Institución de la religión Cristiana, Barcelona: FELiRE , 1999.
2.      CULLMANN, Oscar. Cristologia do Novo Testamento, São Paulo: Hagnos, 2008.
3.      FERGUSON, Sinclair B. O Espírito Santo, São Paulo: Os Puritanos, 2000.
4.      GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento – A origem e divina do conceito messiânico e seu desdobramento progressivo, São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
5.      KIRST, Nelson. Dicionário de Hebraico – Português & Aramaico-Português, Rio de Janeiro: Vozes & Sinodal, 1987.
6.      RIDDERBOS, Joe. Isaiah, Grand Rapids: Zondervan, 1985.
7.      YOUNG, Edward. The Book of Isaiah, 3 vols. Grand Rapids: Eerdmans,1965.
8.      SALLIN, E. & FOHRER, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo: Paulus, 2007.









* O autor é Ministro da Palavra pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (SPN) em Recife – PE. Também foi professor de línguas bíblicas (Grego e Hebraico)  no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil (SPFB) em Recife – PE. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana em Piripiri – PI. Também é casado com Géssica Araújo Soares Nascimento de França e pai do pequeno Lucas Luis Nascimento de França.
[1] FERGUSON, Sinclair B. O Espírito Santo, p.16
[2] KIRST, Nelson. Dicionário de Hebraico – Português & Aramaico-Português, p.211
[3] FERGUSON, Sinclair B., Op.Cit,p.16
[4] CALVINO,Juan. Institución de La Religión Cristiana. Tradutor: Casidoro de Valera. Barcelona:FELiRE, 1999, Livro I, Cap. 1, seção 1
[5] SALLIN, E. & FOHRER, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo: Paulus, 2007, p. 498
[6] Infelizmente por falta de espaço, e por fugir do escopo deste trabalho, não discutiremos esta tônica que é percebida no capítulo 7 da profecia de Isaías. Onde Acaz é exortado a  confiar em Deus em vez de suas alianças políticas, a figura do mediador apresenta-se no versículo 14 deste capítulo; e isto tem suscitando grandes divergências entre os mais hábeis intérpretes  de nosso tempo.
[7] CULLMANN, Oscar. Cristologia do Novo Testamento, São Paulo: Hagnos, 2008, p.78.
[8] GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento – A origem e divina do conceito messiânico e seu desdobramento progressivo, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 593.
[9] Ibid, p.594
[10] RIDDERBOS, Joe. Isaiah, Grand Rapids: Zondervan, 1985, p.471.
[11] YOUNG, Edward. The Book of Isaiah, 3 vols. Grand Rapids: Eerdmans,1965, p. 3.335
[12] GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento – A origem e divina do conceito messiânico e seu desdobramento progressivo, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 594.
[13] A palavra significa  que há uma exposição do assunto de um drama ou a primeira parte de um período gramatical.
[14] YOUNG, Edward. The Book of Isaiah, 3 vols. Grand Rapids: Eerdmans,1965, p. 3.336-337
[15] GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento – A origem e divina do conceito messiânico e seu desdobramento progressivo, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.598.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

OS MANDATOS CRIACIONAIS



OS MANDATOS CRIACIONAIS:
Rev. João Ricardo Ferreira de França.*
Introdução:                                                                                               
            O registro da revelação apresenta-se com três mandatos específicos Cultural, Social e Espiritual. Estes mandatos são os condutores da aliança de Deus com seu povo. Estes fios condutores da aliança configura a vida humana em sua totalidade. Dentro desta concepção insere-se a ideia da tríplice estruturada bíblica de uma cosmovisão que envolve: a criação, queda e redenção.
A tríplice estrutura e os mandatos criacionais são discutidos e apresentados pela Teologia Bíblica.  A definição desta ciência é a seguinte: “Teologia bíblica é aquele ramo da teologia exegética que lida como o processo da auto revelação de Deus registrada na Bíblia”.[1] 
Podemos assegurar que a cosmovisão [baseada na tríplice estrutura: criação, queda e redenção] é permeada pelos mandatos da criação como fios condutores do pacto de Deus com o homem. Diante disso passaremos a estudar as três ordenanças criacionais:
I – MANDATO CULTURAL.
            O que significa este mandato? Este mandato “acentua especificamente a relação da humanidade com o cosmos” [2]. A criação é o teatro da glória de Deus e o palco de nossa atuação.
Onde se fundamenta este mandato? A resposta encontra-se no texto de Gênesis 1.28: “E Deus os abençoou e lhe disse: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”
            A primeira frase deste texto “sede fecundos, multiplicai-vos” – “significa desenvolver o mundo social: formar famílias, igrejas, escolas, cidades, governos, leis. A segunda frase - enchei a terra e sujeitai-a – significa subordinar o mundo natural: fazer colheitas, construir pontes, projetar computadores, compor músicas.” E se faz necessário insistir que a passagem em foco é “chamada de o mandato cultural, porque nos fala que nosso propósito original era criar culturas, construir civilizações – nada mais”[3]
            O mandato cultural implica na redenção de culturas inteiras. O vocábulo dominar, empregado aqui nesta passagem, indica a ideia de “capacidade real e supervisão”. A palavra hebraica empregada “ וְיִרְדּוּ ”(veiredu) que vem da raiz “hdr” (radar) que tem o sentido de “governar, dominar” e até “subjulgar”[4]. Sabemos que em “Gênesis 1.26, 28, o verbo ocorre com um sentido positivo quando se declara que a humanidade, criada à imagem de Deus, deve subjugar a terra e reinar sobre (rdh) todos os animais. À espécie humana é dada a responsabilidade sobre a criação de Deus, como fica evidente pelo fato de que esse comando é parte da bênção de Deus (1.28)”[5].
            Devemos ressaltar que o uso do verbo dominar aqui não consistia em uma “licença para a humanidade abusar das ordens da criação”, mas pelo contrário ele deveria “ser apenas um vice-regente de Deus, e a ele, tinha de prestar contas”.[6] O aspecto da “Imago Dei” é a força propulsora para o conceito do mandato cultural na esfera do domínio neste mundo.
            Ao estudarmos sobre este mandato aprendemos que o homem é chamado para santificar e colocar cada esfera de sua vida, sua educação, seus recursos nas mãos de Cristo; e, feito isso, saber administrar cada área já mencionada para a glória de Deus neste mundo. Nancy Pearcey nos alerta: “A lição do mandato cultural é que nosso senso de cumprimento depende de nos dedicarmos ao trabalho criativo e construtivo”.[7] A isso nós chamamos de redenção cósmica. Deus nos deu este mandato para exercermos o domínio nas mais diversas áreas do saber; e para o resgate das culturas para a glória dele somente.
II – O MANDATO SOCIAL
            O segundo mandato a ser considerado é chamado de Mandato Social. Van Groningen vai dizer que este mandato pactual “fala das relações sociais’[8]. Este mandato está fundamentado em Gênesis 2.21-24:
Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada. Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.
Temos a estrutura familiar estabelecida. A família é ordenada em termos de um desapegar-se  e unir-se a outrem. Embora, já tenhamos considerado que um dos aspectos do mandato cultural é a criação familiar. Isto se torna evidente por causa da ordem divina de haver uma “fecundação e multiplicação” em Gênesis 1.26-28; todavia, esta ordem da formulação familiar está pertinentemente estabelecida aqui neste trecho de Gênesis 2.21-24.
A criação da mulher tem como objetivo evitar a solidão de Adão. O princípio extraído aqui é que o homem não é uma ilha, isolada, sozinha sem relação com outros. O companheirismo é algo que Deus prima em sua criação – o casamento não deve ser uma prisão para os solteiros, mas a liberdade da amizade e cumplicidade matrimonial.
Longman III tem uma palavra muito significativa sobre esta realidade e declara que o “casamento envolve um homem e uma mulher deixarem os pais e constituírem uma nova unidade familiar”.[9] Van Groningen novamente nos diz que este “mandato pôde ser dado porque Deus criou a humanidade à sua imagem e semelhança e como macho e fêmea. O relacionamento tinha que ser visto como um de igualdade diante de Deus”.[10]Aqui aprendemos que a organização familiar exige uma relação heterossexual. Adão se une a sua mulher. E não a outro homem, nem mesmo uma mulher se une a outra. Mas o que está escrito é que “macho e fêmea” formam uma unidade neste mandato.
Em Gênesis 1.28 temos a extensão deste mandato de forma interessante. A finalidade na geração de filhos e filhas para cumprir este mandato pactual era de capital importância. “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra”. O verbo fecundar que aparece no texto no hebraico é “פְּר֥וּ” – peru – tem o sentido de “frutificar”. O mandato social estabelece uma necessidade que o homem tem constituir familias e sociedades para cumprir a ordem original de Deus dada à raça humana. O homem deveria continuar sua posição de dominio social com a perpetuação de sua prole.
III – O MANDATO ESPIRITUAL.
            O terceiro aspecto a ser considerado é o Mandato Espiritual. Envolvia comunhão e obediência a Deus. Esta comunhão estava marcada pelo dia de adoração ao soberano de todas as coisas. Conforme vemos em Gênesis 2.1-4:
Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército. E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera. Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o SENHOR Deus os criou.
            O conceito embrionário de um dia descanso esta alicerçado nesta passagem que evoca a comunhão primeva que o casal Adão e Eva desfrutavam com Deus. O shabbath de Deus entra em ação na narrativa bíblica “וַיִּשְׁבֹּת֙ ” ao trazer o sábado à existência Deus estava condescendo ao homem para que este pudesse desfrutar de uma comunhão intima e pessoal com Deus.
            Devemos lembrar que a guarda do sábado estava ligada aos dois mandatos pactuais anteriores:
A convicção que a guarda do sábado é uma obrigação perpétua se baseia em parte na instituição do sábado em Gênesis 2.1-3. Juntamente com o trabalho (Gn. 1.24; 2.15) e o casamento (Gn. 2.18-25), Deus instituiu o sábado para governar a vida de toda a humanidade. Assim como são permanentes as ordenanças do trabalho e do casamento, assim é a ordenança do sábado”.[11]
            No mandato espiritual ou de comunhão o homem é criado para que possa deleitar-se no dia que Deus separou para ele. Esta comunhão com Deus se dava no ambiente litúrgico.
            Ainda neste mandato estava envolvida a ideia de obediência perene a Deus conforme vemos em Gênesis 2.16-17:
E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.
            Aqui temos o homem sendo chamado a pactuar com Deus. Este pacto tem sido considerado como pacto das obras, e parece-nos, que alguns sugerem que Adão deveria obedecer este pacto para obter vida eterna. Todavia, alguns preferem chama-lo de pacto de vida; e por quê? A resposta é simples aqui Deus não lhe promete a vida, mas lhe assegura da morte certa caso o desobedeça.
            A vida marcada pela comunhão com Deus e por uma espiritualidade autêntica Adão deveria preservar essa comunhão que implicava em vida; todavia, este homem deliberadamente decide violar o pacto, violar a comunhão e em resposta a esta rebeldia ele recebe a morte.[12]
            Este mandato pactual implica numa vida de obediência e adoração a Deus de forma inegociável. O homem foi criado para glorificar a Deus e se deleitar nele, e isto é feito mediante a obediência irrestrita a Palavra de Deus bem como em celebração litúrgica a Deus.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
            Na Teologia Reformada este tema dos Mandatos Criacionais é amplamente desenvolvido, todavia, é pouco aplicado e lecionado à igreja de Cristo. Podemos, ver nesta breve introdução o quão são importantes para a vida e maturidade da igreja. Vimos neste estudo que a ordem para governar a terra tem sido negligenciada pela igreja de nossos dias; bem como a preservação de lações sociais hoje é ameaçado pela criação de leis contrárias a Palavra de Deus.
            No espectro espiritual podemos tirar como implicação o fato da fraqueza e letargia da igreja deve-se ao fato da negligência profunda de uma comunhão autêntica com Deus no dia do Senhor (domingo ou sábado cristão); pois, a igreja de hoje está caminhando para o secularismo, individualismo e pragmatismo – o divino não ocupa, mas a centralidade na vida das pessoas, a comunhão virou apenas temas de sermões para o final, pois, cada qual vive no seu mundo sem viver a comunhão dos santos e a igreja tem empregado esforços para que haja resultados imediatos – negligenciando o crescimento saudável da igreja por meio do culto corporativo no dia do Senhor.
            Devemos reconhecer que fomos e somos criados para a obediência irrestrita a Deus e nos deleitarmos nele; devemos cumprir os nossos papéis originais intencionados por Des para a nossa vida. Deus nos criou para que tivéssemos o domínio sobre este mundo como vice-regentes, reconhecendo que cada espaço na criação é reclamado por Cristo como sendo de sua exclusiva propriedade.
            Neste processo devemos trazer à mente e ao coração que as nossas famílias são também projetos de Deus para nós, constituir famílias está atrelado à intenção original de Deus para a humanidade. A sociedade necessita de famílias equilibras e tementes a Deus o casamento e a procriação de uma descendência santa são alicerces fundamentais para a construção de uma sociedade justa.
            Por fim, devemos trazer ao coração que aquilo que confere sentido à existência é eterno e imperecível, por isso, devemos reservar um tempo para a contemplação e adoração ao Deus eterno que tudo criou. O encontro com Yahweh no seu dia é de capital importância para nós, pois, é no culto onde a nossa alma é alimentada e alentada pela Palavra imperecível de Deus. O culto familiar, o culto individual e o público são oportunidades únicas de um deleitoso prazer em Deus.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1.      GRONINGEN, Gerard Van. Criação e Consumação – O Reino, a Aliança e o Mediador. Tradução: Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, volume 1.
2.      ____________________. Revelação Messiânica no Antigo Testamento. Tradução: Cláudio Wagner. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
3.      KAISER JR., Walter C. O Plano da Promessa de Deus – Teologia Bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Gordon Chown, A.G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2011.
4.      KILPP, Nelson. Dicionário Hebraico-Portugês e Aramaico-Português. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Editora Vozes, 1987.
5.      LONGMAN III, Tremper. Como Ler Gênesis. Márcio Lourenço. São Paulo: Vida Nova, 2009.
6.      PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta – Libertando o Cristianismo de seu Cativeiro Cultural. Tradução: Luis Aron. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.
7.      PIPA, Joseph. O Dia do Senhor. Tradução: Hope Gordon Silva. São Paulo: Os puritanos, 2000.
8.      VANGEMEREN,Willem A.(org.) Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento. Tradutor: Afonso Teixeira Filho e outros. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.1052.
9.      VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica – Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.



* O autor é Ministro da Palavra pela Igreja presbiteriana do Brasil. Atualmente é pastor na Primeira Igreja Presbiteriana de Piripiri – PI. Formou-se em Teologia Reformada no Seminário Presbiteriano do Norte (SPN) em Recife- PE. Foi professor de línguas bíblicas (Grego e Hebraico) no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil (SPFB) Recife – PE. É casado com Géssica Araújo Soares Nascimento de França e é pai de Lucas Luis Nascimento de França.
[1] VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica – Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p.16.
[2] GRONINGEN, Gerard van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento. Tradução: Cláudio Wagner. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.100.
[3] PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta – Libertando o Cristianismo de seu Cativeiro Cultural. Tradução: Luis Aron. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p.51.
[4] KILPP, Nelson. Dicionário Hebraico-Portugês e Aramaico-Português. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Editora Vozes, 1987, p.223.
[5] VANGEMEREN,Willem A.(org.) Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento. Tradutor: Afonso Teixeira Filho e outros. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.1052.
[6] KAISER JR., Walter C. O Plano da Promessa de Deus – Teologia Bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Gordon Chown, A.G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2011, p.39.
[7] PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta – Libertando o Cristianismo de seu Cativeiro Cultural. Tradução: Luis Aron. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p.53
[8] GRONINGEN, Gerard van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento. Tradução: Cláudio Wagner. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.100.
[9] LONGMAN III, Tremper. Como Ler Gênesis. Márcio Lourenço. São Paulo: Vida Nova, 2009, p.132.
[10] GRONINGEN, Gerard Van. Criação e Consumação – O Reino, a Aliança e o Mediador. Tradução: Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, volume 1, p.91.
[11] PIPA, Joseph. O Dia do Senhor. Tradução: Hope Gordon Silva. São Paulo: Os puritanos, 2000, p. 29.
[12] Cf. GRONINGEN, Gerard Van. Criação e Consumação – O Reino, a Aliança e o Mediador. Tradução: Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, volume 1, p.92.