quarta-feira, 28 de maio de 2014

AULA 04 - O CÂNON DAS SAGRADAS ESCRITURAS.


O CÂNON DAS SAGRADAS ESCRITURAS.

Prof. Rev. João Ricardo Ferreira de França.

SEÇÃO III – Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos.
Ref. Luc. 24:27,44; Rom. 3:2; II Pedro 1:21.
            Esta é mais uma daquelas estupendas declarações da Confissão de Fé de Westminster. Aqui nesta seção vamos trabalhar vários conceitos do tipo: o que é um livro apócrifo? O que se refere a doutrina da canonicidade? Quais os critérios usados pela igreja para se chegar ao cânon que possuímos?
            Estas e outras questões nós abordaremos aqui neste estudo. Pois, é de suma importância para a Igreja entender adequadamente a doutrina aqui enunciada.

1. A DOUTRINA DA CANONICIDADE DAS ESCRITURAS.

            O que significa o termo “cânon”? Geralmente se entende que a Escritura é o “Cânon” de nossa fé. A formação e a estrutura da Bíblia para nós requer que procuremos uma definição simples, todavia, clara e profunda do que o conceito encerra.
            A palavra “cânon” é uma mera transliteração do termo grego “kanw,n” – kanôn – que significa vara reta, régua, regra. É uma palavra usada com referência para indicar a autoridade suprema da Bíblia sobre a vida dos cristãos. Ou seja, refere-se aos livros que compõem a Bíblia conforme conhecemos.[1]
         Uma definição mais lexical nos informa que a origem da palavra “cânon” é derivada
de uma de uma raiz semítica [assírio Qanû; ugarítico:Qn; hebraico: hn<q;)( (Qâneh) ocorre 61 vezes no Antigo Testamento e é sempre empregada no sentido literal (veja-se 1 Rs 14.15; Jó 40.21; Is 36.6; 42.3; Ez 40.3,5,7), significando ‘cana’ (planta que era usada para medir e pautar) “balança” (Is.46.6) e também ‘a cana para trançar os cestos, ou bastão reto[2]
Tomando por empréstimo podemos dizer que a palavra “Cânon” indica a nossa regra, o nosso limite e ainda mais, o nosso padrão; sendo todos estes sentidos aplicados à Palavra de Deus.

1 – A Estrutura Canônica do Antigo Testamento

            A Bíblia possui, dentro de sua disposição canônica, oito seções, sendo quatro no Antigo Testamento e quatro no Novo Testamento.[3] Vamos no deter neste momento sob o Antigo Testamento e a sua estrutura canônica, sua formação e sua disposição no que respeita aos livros e classificações:

Livros do Antigo Testamento
A lei (Pentateuco) – 5 livros
Poesia – 5 livros
1. Gênesis
2. Êxodo
3. Levítico
4. Números
5. Deuteronômio
1. Jó
2. Salmos
3. Provérbios
4. Eclesiastes
5. O Cântico dos Cânticos
Historia – 12 livros
Profetas – 17 livros
 1. Josué
 2. Juízes
 3. Rute
 4. 1Samuel
 5. 2Samuel
 6. 1Reis
 7. 2Reis
 8. 1Crônicas
 9. 2Crônicas
10. Esdras
11. Neemias
12. Ester
A. Maiores
1. Isaías
2. Jeremias
3. Lamentações
4. Ezequiel
5. Daniel
B. Menores
 1. Oséias
 2. Joel
 3. Amós
 4. Obadias
 5. Jonas
 6. Miquéias
 7. Naum
 8. Habacuque
 9. Sofonias
10. Ageu
11. Zacarias
12. Malaquias
        
A tabela apresentada acima mostra a disposição dos livros conforme aparecem em nossa Bíblia, esta é a atual estrutura canônica das Escrituras conforme temos na Escritura Protestante (evangélica. Esta divisão foi ocasionada devido a influência da versão grega do Antigo Testamento conhecida como Septuaginta (LXX), conforme nos diz dois estudiosos:
A divisão do Antigo Testamento em quatro seções baseia-se na disposição dos livros por tópicos, com origem na tradução das Escrituras Sagradas para o grego. Essa tradução, conhecida como a Versão dos septuaginta (lxx), iniciara-se no século III a.C. A Bíblia hebraica não segue essa divisão tópica dos livros, em quatro partes. Antes, emprega-se uma divisão de três partes, talvez baseada na posição oficial de seu autor. Os cinco livros de Moisés, que outorgou a lei, aparecem em primeiro lugar. Seguem-se os livros dos homens que desempenharam a função de profetas Por fim, a terceira parte contém livros escritos por homens que, segundo se cria, tinham o dom da profecia, sem serem profetas oficiais..[4]
         Paulo Anglada chama a nossa atenção exatamente para isso quando diz: “Embora o conteúdo canônico protestante seja o mesmo do cânon hebraico, a divisão e a ordem dos livros são diferentes”[5] conforme vemos no quadro abaixo:
Disposição dos livros do Antigo Testamento hebraico
A lei
(Tora)
Os profetas
(Nebhiim)
Os escritos
(Kethubhim)
1. Gênesis
2. Êxodo
3. Levítico
4. Números
5. Deuteronômio
A. Profetas anteriores
1. Josué
2. Juízes
3. Samuel
4. Reis

B. Profetas posteriores
1. Isaías
2. Jeremias
3. Ezequiel
4. Os Doze
A. Livros poéticos
1. Salmos
2. Provérbios
3. Jó
B. Cinco rolos (Megilloth)
1. O Cântico dos Cânticos
2. Rute
3. Lamentações
4. Ester
5. Eclesiastes
C. Livros históricos
1. Daniel
2. Esdras-Neemias
3. Crônicas
        
Essa disposição é confirmada no Novo Testamento pelo próprio Senhor Jesus em Lucas 24.44

2 – A Estrutura Canônica do Novo Testamento

            Podemos dizer que a estrutura e organização do Novo Testamento são simples. Conforme podemos ver no quadro abaixo:
Livros do Novo Testamento
Evangelhos
História
1. Mateus
2. Marcos
3. Lucas
4. João
1. Atos dos Apóstolos
Epístolas
 1. Romanos
 2. 1Coríntios
 3. 2Coríntios
 4. Gálatas
 5. Efésios
 6. Filipenses
 7. Colossenses
 8. 1Tessalonicenses
 9. 2Tessalonicenses
10. 1Timóteo
11. 2Timóteo
12. Tito
13. Filemom
14. Hebreus
15. Tiago
16. 1Pedro
17. 2Pedro
18. 1João
19. 2João
20. 3João
21. Judas
Profecia
1. Apocalipse

2. CRITÉRIOS PARA A CANONICIDADE.

            A questão de se ter um cânon é: como saber se os livros do Novo Testamento que temos são os verdadeiros?  Eis ai a nossa questão.
            Quando no inicio do primeiro século começou a surgir uma variedade de livros arrogando-se serem os livros verdadeiros do cristianismo. A igreja se viu na obrigação de dizer quais livros eram divinos ou não; e por isso, se estabeleceu critérios pertinentes para se avaliar tais livros.

2.1 – Apostolicidade.

            Este é o primeiro critério estabelecido. Um livro para ser reconhecido como regra na vida da Igreja deveria ter sido escrito por um apóstolo ou por alguma pessoa ligada ao mesmo. Por exemplo, João Marcos (autor do evangelho de Marcos) não fora apóstolo, mas a tradição informa que Marcos fora “o intérprete de Pedro”[6]; esse critério era pertinente para evitar grotescos abusos que estavam sendo feito pelos inimigos da verdade.

2.2 – Leitura Eclesiástica.

            O segundo critério aponta para o fato de que os livros canônicos seriam reconhecidos também, por meio da leitura litúrgica de tais livros. Se a igreja sempre usou aquele referido o mesmo este deveria ser coloca na lista canônica. Este critério pode ser encontrado na própria escritura em Colossenses 4.16 e em 1 Timóteo 4.13.
            Um exemplo deste fato pode ser visto na apologia de Justino ao descrever o que ocorria em culto eucarístico:
E no dia chamado Domingo, todos quantos moram nas cidades ou no interior reúnem-se juntos num só lugar, são lidas as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, por tanto tempo quanto possível; depois, tendo terminado o leitor, o presidente instrui verbalmente, e exorta à imitação dessas coisas virtuosas. Em seguida, todos nos colocamos de pé e oramos e, conforme dissemos antes, ao terminarem as nossas orações são trazidos pão, vinho e água, e o presidente, de modo semelhante, oferece orações e ações de graças, segundo a sua capacidade, e o povo concorda dizendo amém.[7]

2.3 – A Harmonia Doutrinária

            Um livro para se canônico deveria ensinar fundamentado no que já havia sido estabelecido; ou seja, se um livro ensinasse algo contrário aquilo que os apóstolo e a sabedoria da Igreja sempre ensinou deveria se rejeitado como sendo um livro não-canônico.
            Estes são os três fundamentais critérios para a questão do Cânon do Novo Testamento, e sem eles nada podemos ensinar pregar, ou mesmo defender o evangelho.

2.4 – A Inspiração

            O que significa Inspiração? O termo é impróprio para aquilo que visa designar. Isto porque o termo não seria inspiração (soprar para dentro), mas expiração (soprar para fora); pois, foi isso que Deus fez conosco.
            O que entendemos por inspiração “como sendo a influência sobrenatural do Espírito de Deus sobre os homens separados por ele mesmo, a fim de registrarem de forma inerrante e suficiente toda vontade de Deus, constituindo esse registro na única fonte e norma de todo o conhecimento cristão” [8]
            De acordo com o Novo Testamento a doutrina da inspiração diz respeito a Deus soprar a sua revelação nas páginas das Escrituras (2 Timóteo 3.16). O leitror deve também saber que existem várias teorias a respeito da inspiração.

2.4.1 - Concepção de Inspiração Dinâmica:

            Algumas pessoas acham que a doutrina da Inspiração consiste em um ditado. Onde Deus dinamicamente falou ao escritor sagrado palavra por palavra, ponto por ponto de toda a Bíblia.
            Essa concepção ignora a existência de estilos variados nas Escrituras que negam a possibilidade de um ditado. E a Escritura é clara quanto a existência de estilos literários de cada escritor da mesmo, e, nós vemos isso na em 2 Pedro 3.13-16. Pedro reconhece que Paulo tem um estilo próprio ao escrever suas cartas.

2.4.2 - Concepção de uma Iluminação:

            Outra ideia equivocada que geralmente ouvimos é que inspiração é a mesma coisa que iluminação. Sendo apresentado a ideia de que os autores humanos das Escrituras fossem apenas homens iluminados e nada mais do que isto.

2.4.3 – A Concepção de Inspiração Plenária:

            Devemos acreditar que a inspiração das Escrituras está em toda a Bíblia, não são algumas partes que são inspiradas e outra não. O conceito de Inspiração Plenária. Desde o Gênesis até o apocalipse, tudo o que foi registrado, foi por vontade de Deus (2 Timóteo 3.16; 2 Pedro 1.20-21).[9]

2.4.4 – A Concepção da Inspiração Verbal:

            Esta concepção deve ser aceita como verdadeira, pois, entendemos que Deus falou sua palavra por meio dos autógrafos originais a sua mensagem. (2 Samuel 23.2; Jeremias 1.9; Mateus 5.18; 1 Coríntios 2.13).


3. A DOUTRINA DA CANONICIDADE E OS APÓCRIFOS

            A doutrina do Cânon inevitavelmente nos levará para a questão dos livros chamados de “Apocrifos”. O que é um livro apócrifo? Na concepção popular é um livro duvidoso. O termo vem do grego e significa “sem assinatura”, ou seja, não possui  assinatura de Deus. Também o termo pode ser entendido como “oculto”. Indicando a não identificação de sua autoria.[10]
            Por que eles são classificados nesta categoria de livros sem assinatura? A resposta pode ser apresentada em duas nagativas consistentes conforme aprendemos aqui nesta seção da Confissão de Fé “Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura”.

3.1 - Por não serem Inspirados não possuem Autoridade sobre A Igreja.

            Aqui nós aprendemos que somente os livros canônicos podem ter autoridade de governo e doutrina sobre a vida da Igreja, toda doutrina fundamentada em um livro não autorizado canonicamente é uma heresia. Eles não devem ser usados como livros autoritativos na vida do povo pactual de Deus.

3.2 – Devem ser empregados como Meros Livros Humanos.

            O segundo aspecto que devemos levar em consideração é o fato de que tais livros podem ser úteis pelo conhecimento que transmitem. A Confissão de Fé de Westminster diz que tais livros  “não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos. ”.
            Nós devemos ler estes livros apócrifos, estudá-los buscar compreendê-los, mas meramente como livros humanos. Paulo Anglada nos traz uma palavra positiva sobre este tema:
Alguns dos apócrifos são realmente úteis como fontes de informação a respeito de uma época importante da história do povo de Deus: o período inter-testamentário. Os protestantes reconhecem o valor histórico dele. Seguindo a prática dos primeiros cristãos, as edições modernas protestantes da Septuaginta normalmente incluem os apócrifos , e até algumas bíblias protestantes antigas os incluíam, no final, apenas como livros históricos.[11]

Conclusão:

             O cânon das Escrituras nos foi dado para ser a nossa única regra de obediência e prática; isto implica no fato de que as Escrituras conforme temos não é fruto da tradição dos homens, mas da vontade de Deus que deseja orientar-nos por meio de suas palavras registradas de forma clara e compreensível aos homens.



[1] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.33-34.
[2] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.18-19
[3] GEISLER, Norman L.  &  NIX,  William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia  chegou até nós. Tradutor: Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida, 1997, p.7 [as cores destaques foram acrescentadas por mim]

[4] GEISLER, Norman L.  &  NIX,  William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia  chegou até nós. Tradutor: Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida, 1997, p. 8
[5] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.35.
[6] Eusébio de Cesárea, Apud, COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.39.
[7] MÁRTIR, Justino. Primeira Apologia, Cap. 67, In: Ante-nicene Fathers, p.69. [ênfase nossa]
[8] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.98.
[9] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.99.
[10] O surgimento dos livros apócrifos deve-se ao período intertestamentário, onde houve um silencio profético de 400 anos a.C, o homem na ansiedade de ouvir uma voz profética decidiu escrever obras nas quais tencionava dizer que Deus estava se revelando ao seu povo. O silêncio profético compreende de Malaquias até Mateus.
[11] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.41.

sábado, 24 de maio de 2014

A ORIGEM DA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Prof. Rev. João Ricardo Ferreira França*

Introdução:
Falar sobre a confessionalidade em nossos dias tornou-se algo ultrapassado, algo de um tempo tão distante que parece ser totalmente irrelevante. Muitos presbiterianos desconhecem sua identidade bíblico-teológica. Boa parte desta ignorância se dá pelo simples fator de não conhecer a história da igreja. Isso abarca todos os crentes e de modo particular os presbiterianos. Como alguém acertadamente disse:
Todavia, ocorre que muitos presbiterianos ignoram a sua identidade, não sabem exatamente o que são, como indivíduos e como igreja. Não conhecendo suas origens – históricas, teológicas, denominacionais [...] muitas vezes quando questionados por outras pessoas quanto as suas convicções e práticas, sentem-se frustrados com sua incapacidade de expor de modo coerente e convincente as suas posições[1] 
            Isso é percebido na falta de conhecimento que muitas de nossas igrejas tem da Confissão de Fé de Westminster e dos catecismos maior e breve. Este breve estudo visa apresentar de modo geral, também lacônico, a história da nossa Confissão de Fé.
1 – ANTECEDENTES HISTÓRICOS DA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER.

1.   – A Inglaterra Católica:


A Inglaterra havia sido católica Romana até o ano 1534. Mas, o rei Henrique VIII rompeu com essa tradição, e assim criou a Igreja Nacional da Inglaterra conhecida como Igreja Anglicana. Desta feita o rei passou a ser o líder supremo da Igreja, embora houvesse esse rompimento esta igreja nacional ficou com a teologia católica romana como expressão de sua fé.
No ano de 1547 morre HenriqueVIII, e sobe ao trono o seu filho Eduardo VI que só “tinha nove anos”[2]. Ele sob a influência de seu tio o duque de Somerset que era simpatizante do protestantismo. Fez com que Eduardo implantasse reformas significativas na Igreja da Inglaterra, entre muitas citamos algumas: “começou-se a administrar a Ceia de ambas as espécies [ o vinho dado aos leigos, ao povo], permitiu-se o matrimônio do clero, e foram retiradas as imagens das igrejas”.[3]No avanço da teologia da reforma protestante na Inglaterra foi a elaboração, sob a liderança de Thomas Cranmer, dois importantes documentos, ambos influenciados “pela teologia calvinista: Os Trinta e Nove Artigos e o Livro de Oração Comum. Várias outras reformas foram realizadas, tendo-se a impressão de que a fé protestante iria triunfar.Todavia, a morte prematura do jovem rei, em 1553, interrompeu bruscamente este processo”.[4]
Após a morte de Eduardo VI sobe ao poder a sua meia-irmã chamada Maria Tudor [ conhecida como Maria, a sanguinária] católica romana de devoção desejou levar a Igreja da Inglaterra de volta para Igreja Católica Romana. Muitos líderes religiosos foram mortos, incluindo o Cranmer, na fogueira por serem protestantes. E muitos outros foram exilados ou expulsos da Inglaterra, uma boa porte destes foram para  a cidade de Genebra na Suiça, onde o reformador João Calvino tinha grande influência e ensinava a Palavra de Deus. E muitos destes ingleses absorveram os ensinos da fé reformada, depois, de um longo tempo, após a morte de Maria Tudor, sobe ao trono inglês Elizabete para um longo reinado de 45 anos – ela tinha inclinações protestantes. Logo após ela concedeu permissão aos protestantes exilados de retornar para a Inglaterra.

2.   – Os Puritanos: Os Pais da Confissão de Fé de Westminster.


Neste processo todo surgiu um movimento que era apegado à teologia Calvinista. Eles queriam uma igreja pura, um estado puro e um culto puro. Daí eles foram pejorativamente chamados de puritanos. Um escritor lembra-nos que “o Puritano não podia mais ficar satisfeito com uma igreja [ a Igreja da Inglaterra] parcialmente reformada, mas desejava uma Igreja plenamente Reformada”[5]
O que é o puritanismo? “O puritanismo foi parte do movimento da Reforma Protestante na Inglaterra [...] começou especificamente como um movimento especificamente eclesiástico [...] ‘começou com uma reforma litúrgica, mas desenvolveu-se numa atitude distinta em relação à vida’”.[6] Lloyd-Jones nos diz “o puritanismo verdadeiro, eu sustento, se acha ultima e finalmente no presbiterianismo”[7].

2 – A ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER.

            Após a morte de Elisabete, Tiago VI da Escócia,  filho de Maria Stuart, educado como presbiteriano na Escócia, tornara-se Tiago I da Inglaterra – todavia, queria manter um sistema episcopal eclesiástico, e assim, decepcionando os puritanos. Tiago foi sucedido por seu filho Carlos I.
            Carlos I era um católico romano decidido. Ele desejava tornar a Igreja da Escócia e da Inglaterra a se tornar uma igreja governada pelos bispos [ e assim destruir a noção presbiteriana da Escócia]. Carlos I se tornou alvo dos escoceses que se uniram aos Ingleses e derrotaram o rei.
            O Parlamento Inglês decidiu convocar uma Assembleia para tratar das questões pertinentes ao culto, à teologia,  e ao governo da Igreja da Inglaterra. Foram convocados 121 teólogos. “As pessoas destinadas a constituir essa Assembleia eram citadas na convocação, e compreendiam a flor da Igreja naquela época”.[8]
            É bom lembrar que inicialmente “a assembleia recebeu a incumbência de revisar os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra a fim de remover quaisquer vestígios de arminianismo ou catolicismo romano”.[9]
            A Assembleia de Westminster iniciou seus trabalhos  na “majestosa abadia com esse nome, em Londres, no dia 1º de julho de 1643, e continuou em atividade durante cinco anos e meio”.[10]
            Os documentos produzidos nesta distinta Assembleia foram os seguintes: 1. A Confissão de Fé; 2. O Catecismo Maior & Breve  3. O Diretório de Culto; 4. Forma de Governo Eclesiástico e ordenação; 5. O Saltério. Esses documentos molduram para nós o pensamento, a teologia e a piedade presbiteriana.

3 – ORGANIZAÇÃO TEOLÓGICA DA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER.

            A forma como a Confissão de Fé de Westminster foi escrita e organizada, mostra a mente sistematizadora dos puritanos para com as doutrinas bíblicas da palavra de Deus. Seguindo um todo harmônico eles colocaram de forma ordeira e sistemática toda a doutrina bíblica na confissão. Esse sistema, sumarizado em capítulos, pode se colocado de modo prático como segue abaixo:[11]
Como posso saber com certeza qual é a verdade suprema?
“Das Sagradas Escrituras”
Existe uma Fonte suprema da verdade?
“De Deus e da Santíssima Trindade ”
Há Alguém no Controle do Mundo?
“Dos Decretos Eternos de Deus”
“Da Criação”
“Da Providência divina”
Se existe um Deus, então por que...?
“Da queda do homem, do pecado e do seu castigo”
Existe alguma esperança?
“Do pacto de Deus com o homem”
“De Cristo, o Mediador”
“Do livre-arbítrio”
“Da Vocação Eficaz”
“Da Justificação”
“Da Adoção”
“Da Santificação”
“Da fé salvadora”
“Do arrependimento para a vida”
“Das boas Obras”
“Da perseverança dos Santos”
“Da certeza da graça e da salvação”

Então como devo viver?
“Da lei de Deus”
“Da liberdade cristã e da liberdade de consciência”
“Do culto religioso e do domingo”
“Dos juramentos e votos legais”
Qual deve se a minha relação com os outros?
“Do magistrado civil”
“Do matrimônio e do divórcio”
“Da Igreja”
“Da comunhão dos santos”
Como Deus lidera seu povo hoje?
“Dos sacramentos”
“Do batismo”
“Da Ceia do Senhor”
“Das censuras eclesiásticas”
“Dos sínodos e concílios”
Para onde estou indo?
“Do estado do homem depois da morte e da ressurreição dos mortos”
“Do juízo final”.

Conclusão:

            Este breve histórico é uma introdução primária à identidade presbiteriana ligada a confessionalidade da nossa Igreja. Esta série de estudos tem como objetivo traze à lume estas verdades sistematizadas pela Confissão de Fé de Westminster, mostrando assim, os laços de unidade doutrinária que temos com o presbiterianismo mundial.





* O autor é ministro da Palavra pela Igreja presbiteriana do Brasil. Atualmente é pastor na Congregação Presbiteriana de Todos os Santos em Teresina – PI.
[1] NASCIMENTO, Adão Carlos.  & MATOS, Alderir de Sousa.  O que todo Presbiteriano Inteligente  deve Saber, São Paulo: Socep, 2007, p.9
[2] CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. Tradução: Israel Belo de Azevedo & Valdemar Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2008, p.299.
[3] GONZÁLEZ, Justo L. História Ilustrada do Cristianismo. Tradução: Itamir Neves de Souza. São Paulo: Vida Nova, 2011, volume 2, p. 75.
[4] NASCIMENTO, Adão Carlos.  & MATOS, Alderir de Sousa.  O que todo Presbiteriano Inteligente  deve Saber, São Paulo: Socep, 2007, p 67-68.
[5] LLOYD-JONES, David Martyn. O Puritanismo e suas origens. São Paulo: PES, p.30
[6] RYKEN, Leland. Santos no Mundo – Os Puritanos como Realmente Eram. São Paulo: FIEL, 1992, p.22.
[7] LLOYD-JONES, David Martyn. O Puritanismo e suas origens. São Paulo: PES, p.33
[8] HODGE, Alexander A. Confissão de Fé de Westminster Comentada. Tradução: Valter Graciano Martins. São Paulo: Os Puritanos, 2010, p.41.
[9] LUCAS, Sean Michael. O Cristão Presbiteriano – Convicções, Práticas e Histórias. Tradução: Elizabeth Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 126.
[10] NASCIMENTO, Adão Carlos.  & MATOS, Alderir de Sousa.  O que todo Presbiteriano Inteligente  deve Saber, São Paulo: Socep, 2007, p 67-68.
[11] KENNEDY, D. James. Como é Deus – Verdades Transformadoras sobre um Deus Imutável. Tradução: Josué Ribeiro. São Paulo: Cultura Cristã, 2000,23-24.