terça-feira, 29 de dezembro de 2015

AMÓS - PARTE 1

AMÓS
Pr. João Ricardo Ferreira de França.

O nome de nosso personagem evoca muito bem a sua missão profética de forma singular. “עָמ֔וֹס  ”  [‘amos] o significado de seu nome é “carregador de fardos” os “fardos de julgamento que ele transmitiu contra Israel, o reino do Norte”.[1] Amós nasceu em Tecoa “uma pequena aldeia 8km ao sul de Belém”[2](Amós 1.1).
            Ele era um criador de gado e colhedor de sicômoros e não era da linhagem profética tradicional (Amós 7.14-15). Isso é assegurado pelo uso da expressão “filho de profeta” [בֶן־נָבִ֖יא (ben-nabi’)], isto não tem “a ver com a sua filiação” isto era uma forma de “idiomatismo hebraico para designar alguém que fosse membro de uma corporação profética”, e com o uso do advérbio de negação (לֹ֥א (lo)) indicava que Amós “não pertencia a nenhuma “Ordem dos Profetas”.[3]


O próprio profeta parece fornecer “a data precisa de sua profecia ou, mais precisamente, o ponto inicial de sua carreira como profeta”.[4] Nos parece que as referências existentes “no próprio livro apontam para uma data próxima do final do reinado de Jeroboão II, que ocupou o trono de Samaria como regente ao lado de seu pai, Jeoás, e como governante único durante 41 anos (793-753 a.C)”[5].
Vale salientar que “Jeroboão II e Uzias reinaram simultaneamente de 767 a 752” e que o grande “terremoto de 1.1 foi evidentemente acompanhado de um eclipse solar, conforme está sugerido em 8.8-10”. Isto pra nós é importante porque segundo “os astrônomos, esse eclipse ocorreu em 15 de junho de 763 a.C. A profecia sobre Israel foi proferida dois anos antes em 765, e escrita algum tempo depois do terremoto”.[6]


A finalidade desta profecia ou da composição do livro é ser um “exemplo da bondade de Deus para com uma  nação indigna. Os israelitas do norte haviam rejeitado o concerto davídico e, portanto, haviam perdido o direito de qualquer reivindicação às promessas de Jeová.”[7] Mas de forma bem lacônica podemos dizer que o propósito do livro também é “soar a trombeta, avisando à liderança e à aristocracia de Israel do eminente julgamento de Deus sobre a nação.”[8] Israel estava deploravelmente idólatra, havia uma crise social terrível, os ricos desprezando os pobres; então, a profecia de Amós vem combater essas práticas de forma perene e incisiva.

            Durante o período que engloba essa profecia havia uma grande prosperidade para os dois reinos (Norte e Sul) conforme parece indicar-nos o texto de Amós 6.1-6:

Ai dos que andam à vontade em Sião e dos que vivem sem receio no monte de Samaria, homens notáveis da principal das nações, aos quais vem a casa de Israel!2 Passai a Calné e vede; e, dali, ide à grande Hamate; depois, descei a Gate dos filisteus; sois melhores que estes reinos? Ou será maior o seu território do que o vosso território? 3 Vós que imaginais estar longe o dia mau e fazeis chegar o trono da violência;4 que dormis em camas de marfim, e vos espreguiçais sobre o vosso leito, e comeis os cordeiros do rebanho e os bezerros do cevadouro;  5 que cantais à toa ao som da lira e inventais, como Davi, instrumentos músicos para vós mesmos; 6 que bebeis vinho em taças e vos ungis com o mais excelente óleo, mas não vos afligis com a ruína de José.

            E o mais notável que o texto nos apresenta é que “junto com o crescimento” veio um “grande desprezo pelos pobres”.[9] Entretanto, essa prosperidade áurea em dez anos corridos chegaria ao fim, pois, os recursos de uma economia fluente estavam agora concentrados nas mãos de alguns. Um escritor nos lembra algo interessante:
A mensagem que Javé ordenou que fosse transmitida  por seu profeta a Israel pode ser resumida nas seguintes palavras: ‘chegou o fim para o meu povo de Israel’ (8.1-2). Tudo o mais não passa de interpretação e explicação deste veredito. Javé  comunica esta decisão ao profeta através de cinco visões, que encontramos em 7.1-8; 8.1-2 e 9.1-4. O profeta se torna, pois, co-sabedor daquilo que está por vir. [10]

            Conforme sabemos o Reino do Norte foi estabelecido sob a idolatria. O rei Jeroboão I não querendo perder seus súditos para o Sul (Judá), onde ficava o Templo de Jerusalém “criou dois bezerros de ouro, um em Betel e outro em Dã”[11] (1º Reis 12.26-29) observemos o mapa para observarmos esta situação:









            O redator do livro dos Reis declara que esta atitude tornou-se um canal de grande pecado diante de Yahweh; pois, havia um grande esforço do povo para ir adorar o ídolo (1º Reis 12.30). Dentro desse contexto, Jeroboão I, além de estabelecer um culto idólatra também criou novos sacerdotes que não eram da linhagem levítica (1º Reis 12.31), criou festas religiosas (1º Reis 12.32,33).
            A nação estava mergulhada na idolatria por uns longos 170 anos desde o reinado de Joreoboão I até Jeroboão II. Havia muita religiosidade neste tempo, conforme aprendemos na passagem do capítulo  5.21-23:
21 Aborreço, desprezo as vossas festas e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer. 22 E, ainda que me ofereçais holocaustos e vossas ofertas de manjares, não me agradarei deles, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados.  23 Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras.
            Era uma religiosidade que não agradava a Deus, pois, ele não recebia esse culto essa adoração corrompida. E o profeta é chamado a se colocar contra essa postura de uma falsa piedade, de uma adoração de lábios não do coração.
            No serviço litúrgico o povo queria dar a Deus aquilo que estava no coração deles, mas não o que Deu requeria em Sua Palavra. Em Amós 4.5 somos lembrado dessa faceta da adoração quando é corrompida; porque aquilo que “agrada o povo” é odiado por Deus (Amós 5.21). O escritor Bonora declara: “Deus afirma, com desprezo, que esses são os ‘vossos’ sacrifícios e as ‘vossas’ oferendas: ele não quer mais tomar conhecimento deles”.[12]
            Essa era trágica situação da religião do povo da aliança, era peso para Yahweh tal prática religiosa:
Ainda que os grandes santuários estavam em plena atividade, repletos de adoradores e  magnificamente providos, a religião não se conservava em sua pureza. Muitos santuários eram abertamente pagãos, fomentando os cultos de fertilidade e a prostituição sagrada. Outros, a maioria, ainda que se apresentassem como santuários de Yahweh, cumpriam una função totalmente negativa: apaziguar a divindade com ritos e sacrifícios que garantiam a tranqüilidade de consciência e o bem-estar  do país.[13]
Podemos perceber que Deus “investe contra uma religião institucionalizada, fechada em sim mesma, segura de si  e confiante num culto mágico”[14], e as vezes somos cada um de nós pensamos que podemos aplacar a ira de Deus cumprindo meros rituais, vamos ao culto como se ele fosse a solução mágica pra todas as adversidades que enfrentamos; e ignoramos completamente que o Culto é a obrigação de um coração que verdadeiramente adora a Yahweh.
            O profeta Amós expressa bem o que Deus pensava do povo que lhe oferecia este tipo de culto e ritual sem vida quando fala  no capítulo 4.4-5:
4 Vinde a Betel e transgredi, a Gilgal, e multiplicai as transgressões; e, cada manhã, trazei os vossos sacrifícios e, de três em três dias, os vossos dízimos; 5 e oferecei sacrifício de louvores do que é levedado, e apregoai ofertas voluntárias, e publicai-as, porque disso gostais, ó filhos de Israel, disse o SENHOR Deus.
            Cada culto prestado “na realidade, era um pecado contra Deus”[15],por isso, Deus se pronunciava de forma imperativa contra tais demandas injustas do povo que era resultado desta idolatria e desprezo para com Deus.
[Amós] Dirigiu uma palavra forte às mães e matronas que exigiam o melhor dos alimentos e mobiliário, com sacrifício dos pobres (4.1). De modo semelhante, fala aos pais que levam seus filhos à flagrante idolatria (2.7b), aos fazendeiros (4.7-9, 5.16b,17), aos soldados (5.3), aos juízes (5.7), aos homens de negócios (5.11, 8.4-6), aos adoradores (5.2123), aos líderes de Samaria (6.1-7), a Amazias, o sacerdote em Betel (7,14-17), a homens e mulheres jovens (8.13). A última interpelação direta é a todo o povo de Deus, quando por sua boca Yahwéh diz: "Vós, israelitas, sois para mim o mesmo que os cusitas...os filisteus e os arameus" (9.7 NIV). Amós torna muito claro que a nação inteira está sob julgamento; acentua que cada dimensão de sua vida está corruptamente afetada pelo pecado. Eles, o povo eleito (3.1,2; cf.6.8, 8.7),7 quebraram seu pacto com Yahwéh, seu Redentor, Senhor e Protetor.[16]
            O escritor Luis Alonso Schökel nos lembra que os “profetas anteriores a Amós eram ‘reformistas’; conscientes dos falhos de seus contemporâneos, pensavam que tais erros podiam se solucionar dentro das estruturas em vigor”.[17]
            As palavras proféticas de Amós são dirigidas as nações pagãs tais como Gaza (Amós 1.6-8), Tiro (Amós 1.9-10), Edom (Amós 1.11-12), Amom (Amós 1.13-15) e Moabe (Amós 2.1-3). Aqui nitidamente vemos o profeta levantar o oráculo de juízo contra os inimigos políticos de Israel. E certamente é aplaudido pelos seus compatriotas  por uma mensagem contra tais nações.
            Entretanto, o problema surge quando a voz do profeta levanta-se contra Judá, o Reino do Sul (Amós 2.4-5), e alguns dos israelitas devem ter gostado de ouvir que o profeta repreendera os habitantes de Judá, era como se povo disse: “Muito bem, Profeta Amós pode lapiar as costas de povo, esse grupo do Reino do Sul merece”. Mas, Amós também se volta para Israel (o Reino do Norte) conforme vemos no capítulo 2.6. E, assim a profecia se ocupa em tratar com Israel.



[1]FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.83.
[2]ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. Tradução: Emma Anders de Souza Lima.São Paulo: Editora Vida, 1991, p.286
[3]FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.84
[4] PINTO, Carlos Osvaldo. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 425
[5] HUBBARD, David Allan. Joel e Amós: introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996.    

[6] ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. Tradução: Emma Anders de Souza Lima.São Paulo: Editora Vida, 1991, p.287
[7] YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1964, p. 221
[8] ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. Tradução: Emma Anders de Souza Lima.São Paulo: Editora Vida, 1991, p.287
[9] FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.86.
[10] KIRST, Nelson. Amós – Textos Selecionados, I. São Leopoldo: Comissão de Publicações da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, 1983, p.19.
[11] FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.87
[12] BONORA, Antonio. Amós, O Profeta da Justiça. São Paulo: Edições Paulinas, 1983, p.39.
[13] SCHOKEL, Luis Alonso.; DIAZ, J. L. SICRE, Profetas - Introducciones y comentario, Volume II Madrid: Ediciones Cristiandad, 1980, p.951, p.952.
[14] BONORA, Antonio. Amós, O Profeta da Justiça. São Paulo: Edições Paulinas, 1983, p.39
[15] FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.89
[16] GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Tradução: Cláudio Wagner. Campinas: Luz para o Caminho, 1995,p 426
[17] SCHOKEL, Luis Alonso.; DIAZ, J. L. SICRE, Profetas - Introducciones y comentario, Volume II Madrid: Ediciones Cristiandad, 1980, p.951.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O PROFETA JOEL


JOEL

Pr. João Ricardo Ferreira de França*

I – QUESTÕES INTRODUTÓRIAS

            O nome deste profeta na língua original é “יוֹאֵ֖ל (yoe’l)” cujo sentido é “eu sou Deus”[1] ou “Yahweh é Deus” temos poucas informações sobre ele. Somos informados que  o nome  de seu pai é “פְּתוּאֵֽל  (pethuel)” nome que tem o sentido de “persuadido por Deus”[2] (Joel 1.1). Ele morou e profetizou para Judá (Reino do Sul). Alguns comentaristas sugerem que ele tenha sido sacerdote ou que tinha “um vínculo oficial com o templo”[3]Isto porque no seu livro há muitas referências ao “ofício Sacerdotal”[4]
            O erudito Judeu Ibn Ezra “considerava impossível saber quando foi escrita esta obra”[5] Calvino é de opinião similar ao declarar que “o tempo no qual ele [Joel] profetizou é incerto”[6] outro escritor informa que “as datas propostas para o ministério de Joel e para a redação de seu livro variam desde o início do nono século a.C.”[7] As datas para a escrita do livro variam de 830 a.C até 325 a.C. E o período adequado para situar a profecia é no reinado de Joás.[8]

A terceira verdade a ser estudada é a questão “qual é a finalidade da profecia de Joel?”  resposta “advertir a nação sobre a necessidade de humildade e arrependimento, bem como sobre a certeza do julgamento vindouro.”[9]

II – O CONTEXTO DE JOEL

            Vimos no estudo sobre Oséias que Samaria / Efraim (reino do Norte) havia se corrompido com a idolatria aos bezerros de outros[10] e que Judá ainda mantinha fidelidade na adoração a Yahweh; entretanto, Judá caiu no mesmo pecado que Samaria. Como isso ocorreu? Existiu um rei em Judá cujo nome era Acazias considerado um total fracasso político e religioso (2º Crônicas 22.1-2) sua mãe chamava-se Atalia que era uma nortista (do reino do Norte) idólatra e orientara o Rei Acazias para o mal (22.3).[11] Acazias em uma aliança desesperada com o Norte decide ir à guerra contra a Síria o cronista informa que esta era a “vontade de Deus” (2º Crônicas 22.7), mas o Rei acabou morto e não deixou descendente para ascender ao trono. Sua mãe de modo maquiavélico aniquilou toda extirpe real de Judá (2º Crônicas 22.10) e assim, ela usurpou o trono de Judá (2º Crônicas 22.12).
            Na matança que a mãe de Acazias havia promovido em Judá a filha do rei Jeosabeate esposa do sacerdote Jeoiada salvou a vida de um bebê chamado Joás. (2º Crônicas 22.11).
O golpe de estado fez com que uma nortista (do reino do norte) reinasse sobre Judá (reino do sul), e uma situação irônica uma mulher se sentou no trono de Jerusalém, e não era da descendência de Davi.
            O reinado de Atalia durou sete anos (2º Crônicas 23.1) e o menino Joás passou a reinar com sete anos, mas claro que ele não reinava e sim o sacerdote Jeoiada e quando este morreu foi sepultado como um rei (2º Crônicas 24.16), mas lamentavelmente, após a morte de Jeoiada, os príncipes de Judá, já infectados pelo mal da idolatria, levaram o rei Joás para a idolatria. (2º Crônicas 24.17,18).
 Somos informados pelo redator do livro de Reis que Joás era um bom rei, enquanto o sacerdote estava vivo, entretanto, ele não conseguira remover completamente a idolatria da nação (2º Reis 12.1-3), mas acabou sendo assassinado pelos seus servos (2º Reis 12.20,21). E foi um homem que não inspirou seus súditos a tributar-lhe honra, pois não foi sepultado como rei (2º Crônicas 24.25). Lembremos que Joás de maneira maquiavélica mandara matar Zacarias, filho do sacerdote Jeoiada, a quem o rei devia muito do que possuía. (2º Crônicas 24.20-22).
            O reino do Sul estava enfrentando uma grande crise econômica devido a dois grandes problemas: a seca e a praga de gafanhotos. A seca é descrita no capítulo 1.20 e a praga dos gafanhotos apresentada no capítulo 1.4, para aquela comunidade que vivia da agricultura e da criação de ovelhas e gados, era sinal de uma grande calamidade.
            A praga de gafanhotos é bastante discutida pelos eruditos em Antigo Testamento, isto porque parece que o capítulo 1.4 indica que foi algo incomum, diante deste fato surgiram uma variação de interpretação para o fenômeno entre os hermeneutas da profecia de Joel um comentarista sobre os livros proféticos aborda este tema tecendo os seguintes comentários:
Qual é a interpretação do gafanhoto, em 2.1-11? Três interpretações são oferecidas: (1) a interpretação alegórica – conforme esta ideia, os gafanhotos se referem a exércitos inimigos que constantemente invadiam Judá para despojá-lo de seus bens; (2) A interpretação apocalíptica – segundo esta, os gafanhotos simbolizavam os exércitos terrenos que lutarão na última batalha, como se vê em Apocalipse 9 (3) A interpretação atual ou histórica – segundo ela, os gafanhotos foram reais, literais, Joel os viu descer numa nuvem sobre a vegetação da terra para devorá-la. Sem dúvidas esta interpretação é a mais correta e satisfatória.[12]
Houve uma grande seca aponto da vegetação que estava seca arder em fogo (Joel 1.19-20). E o resultado disso era a grande fome reinando em Judá. (Joel 1.10-12, 17). Entretanto, estes dois eventos calamitosos foram resultados da desobediência à Lei de Deus; pois, Yahweh já havia pronunciado antes um juízo dessa natureza àqueles que abandonam seus mandamentos e estatutos (Deuteronômio 28.15,23-24). O pastor Isaltino nos lembra que “a idolatria de tantos anos e que recebeu estímulos de Joás, recebia sua paga”[13]
O profeta Joel via nessas ações ecológicas a ação de Deus produzindo a escassez sobre a nação. Deus não tolera o pecado do seu povo e age contra o mal da idolatria reinando em Judá. Isso revela-nos que Deus é Senhor de todas as esferas da existência humana.[14]

III – ASPECTOS TEOLÓGICOS DA PROFECIA DE JOEL.

3.1 – O dia do Senhor [Joel 1.15; 2.1,11; 3.14]

O conceito predominante na profecia de Joel é “o dia do Senhor” a expressão hebraica “יוֹם־יְהוָ֖ה ” [Yom-Yahweh] é necessário esclarecer que aqui não se trata do dia de adoração. Para os judeus este dia seria o dia em que Israel seria vitorioso na terra, um dia em que haveria uma intervenção divina em seu benefício; entretanto, este não era o sentido do uso do termo nos dias de Joel.
O conceito encerrado na expressão hebraica surge inicialmente na profecia de Amós 5.18-20. Percebe-se que o dia do Senhor na profecia dos profetas menores tem um aspecto escatológico significativo de julgamento divino. Mas, há profetas que usam o termo na estrutura escatológica positiva como é o caso de Isaías no capítulo 2.1- 4 onde a expressão indica claramente uma referência aos dias do Messias; entretanto, o dia do Senhor em Isaías assume uma tônica negativa no capítulo 13 descrevendo o juízo divino contra a Babilônia.
Agora em Joel a expressão “o dia do Senhor” tem sempre uma evocação negativa apontando para o juízo divino sobre o povo. Este dia, segundo a profecia de Joel, é um dia de trevas (Joel 2.1-2). A expressão um “povo grande e poderoso” é uma referência as nuvens de gafanhotos e a narrativa segue apresentando a marcha dos gafanhotos devastando tudo. Um comentarista oferece uma exposição interessante deste ponto:
A descrição da praga segue, mas há uma mudança dramática: com imagens poéticas vivas, o profeta compara os gafanhotos a um exército invasor. Esse ataque é tão terrível que de alguma forma deve relacionar-se com o Dia do Senhor (vv. 1, 11), já anunciado (1.15). O exército de gafanhotos é a linha de frente, e a revelação plena da ira de Deus seguirá em comboio. Os gafanhotos são reais, não figurados. Mas a própria realidade e tão surpreendente que traz insinuações de uma realidade ainda maior: o exercício divino do juizo universal.[15]
            E este juízo torna-se mais emblemático na linguagem dramática em forma poética em relação aos elementos cósmicos descritos no capítulo 2.31, a linguagem empregada aqui “ transmite as imagens e os odores da batalha, enquanto o Senhor faz guerra contra Seus inimigos, deixando tropas ensangüentadas, cidades queimadas e destroços fumegantes em Seu rastro (cf. Is 34.5-10; Ez 32.6,7; 38.22, onde a destruição de Edom, Egito e Gogue e descrita em termos de sangue e fogo)”[16].
            Vale salientar que “O sol escurecido e a lua em cor de sangue fazem lembrar os efeitos das nuvens de gafanhotos descritas em 2.10.”[17], mas na passagem aqui refere-se a um evento escatológico a cumprir-se indicando os fins dos tempos. Entretanto, deve-se ressaltar que o sentido pretendido deve ser encarado “como descrições dramáticas de uma batalha que provoque uma fumaça tão espessa que os próprios luzeiros celestes fiquem obscurecidos.”[18]

3.2 – Chamada ao Arrependimento [ Joel 2.12-17]

            A doutrina do arrependimento é evocada na profecia de Joel. Aqui nós ficamos cientes de que “se o povo se convertesse, talvez Deus se arrependesse, diz Joel”.[19] Schökel lembra-nos que “a catástrofe nacional incita a una atitude de conversão profunda, interior, manifestada externamente na jornada de jejum e arrependimento para suplicar a compaixão divina”.[20] O texto fala de um “arrependimento de Deus” o que isso significa? Aqui se trata de uma antropopatia (atribuir sentimentos humanos a Deus) a palavra hebraica usada aqui para este arrependimento é “נִחָ֖ם ”[naham] esta palavra tem dois sentidos básicos: (1) “Conforto e consolo” o verbo é usado para “ser confortado na pederda” (2) “sentir muito arrepender, mudar de mente” e “em muitos casos, a “a mudança” de opinião do Senhor é uma reação graciosa a fatores humanos” e por outras vezes a palavra nos levar a inferir que a “mudança se deva a sentimentos de compaixão por uma pessoa ou povo.”[21] A ideia aqui é “de respirar profundamente”,  com o foco de um profundo sentimento de tristeza. E, aqui é uma promessa em resposta a reação do povo em relação à conversão.
            A chamada ao arrependimento era em tom da mais extrema urgência as trombetas tinham que ser tocadas (Joel 2.15) e sua necessidade era dramática conforme lemos que até as crianças de peito deveriam está presentes na convocação solene para esta necessidade (Joel 2.16) todo o povo é chamado a arrepender-se. No verso 17 vemos que os pastores do povo (os sacerdotes) deveriam orar e lamentar pelo pecado da Igreja do Antigo Testamento e clamar perdão perante Yahweh. No capítulo 1.13-14 esse clamor já fora exigido em termos dramáticos, deveria ser uma oração sincera demonstrando genuíno arrependimento.
            Na cultura hebraica os lutos e arrependimentos eram demonstrados publicamente por meio do rasgar as vestes e no humilhar-se no pó e na cinza, entretanto, a atitude exigida na profecia de Joel não é externa, mas interna (Joel 2.13). O vocábulo “coração” que é usado pelo profeta nesta passagem é “לֵבָב”[lebab] não refere-se aos sentimentos como nós da cultura ocidentais pensamos, ela “abrange tudo o que atribuímos à cabeça e ao cérebro: a faculdade cognoscitiva, a razão, a compreensão, o entendimento, a consciência”[22] e tudo relacionado a este campo.

3.3 –  O Cumprimento da Promessa divina de restauração [Joel 2.18-27]

            Quando o povo da aliança arrepende-se diante de Deus. Ele cumpre a sua promessa de abundância prometida na porção bíblica anterior. Este cumprimento da promessa está ligado inevitavelmente ao arrependimento do povo. O comentarista Hubbard tece os seguintes comentários:
O versículo 18 é o ponto decisivo do livro. De 1.2 a 2.11, o tema era a invasão de gafanhotos, com todas suas alarmantes insinuações do Dia do Senhor. A graça, ofertada em 2.12-17, marca a transição do juízo para a restauração. O versículo 18, a narrativa de introdução do profeta para o discurso de salvação de Javé a partir do versículo 19, começa a delinear essa restauração com suas implicações tanto locais quanto cósmicas, tanto imediatas quanto futuras. Devemos presumir que, entre os versículos 17 e 18, o convite e as ordens dos versículos 12 a 17 foram aceitos e obedecidos.[23]
Esta passagem supracitada revela-nos que o povo tendo “ouvido o chamado ao arrependimento e se convertido”[24], Yahweh mudou o destino deles.Que conseqüências reais são trazidas pelo arrependimento genuíno do povo nos dias de Joel?
a)      As lavouras voltariam a produzir (Joel 2. 19)
b)      A nação não seria alvo dos escárnios das nações vizinhas (Joel 2.19b)
c)      Os gafanhotos seriam retirados (Joel 2.20)
d)     O povo teria conhecimento de Deus ( Joel 2.27)
Isso tudo seria o resultado de um arrependimento sincero e contrito perante Deus. Nada do que foi esboçado acima havia acontecido ao povo, entretanto, havia uma promessa de que isso ocorreria em breve no momento em que o povo abandonasse seu pecado.

3.4 – O Papel do Espírito Santo na Profecia de Joel [Joel 2.28 a 3.1-5 – última porção no Texto Hebraico]

            Joel desenvolve, em sua profecia, uma teologia pneumatológica significativa que trata do derramamento universal do Espírito Santo sobre o povo do pacto. O arrependimento demonstrado pelo povo “ensejou a restauração, um trato novo de Iahweh com o povo” e o conteúdo deste novo pacto consiste no fato de que o “Espírito será derramado sobre toda a carne”.[25]
            Na pericope, que é objeto de nosso estudo neste momento, acima mencionada temos o tema da universalidade da ação do Espírito de Deus. Isso aqui é importante, pois, nos tempos do Antigo Testamento o Espírito divino era dado apenas uma elite bem seleta. E o desejo de Moisés conforme expresso em Números 11.29 encontra-se, de certo modo, manifestado aqui nesta passagem. O grande profeta do Antigo Testamento gostaria que o Espírito Santo fosse partilhado com todo o povo do pacto, isto porque, conforme afirmamos acima, naquele tempo apenas a elite religiosa tinha a ação do Espírito de Deus sobre suas vidas, por exemplo:
a)      Os Juízes (Juízes 6.34)
b)      Os Reis (1º Samuel. 10.6,10)
c)      Os profetas (Isaías 61.1; Miquéias 3.8)
d)     Eventualmente o Espírito vinha sobre outras pessoas como é caso de José onde o Faraó reconheceu nele a ação do Espírito de Deus (Gênesis 41.38).
Mas, “agora cada pessoa do povo de Deus se tornará profeta, e o desejo de Moisés será cumprido”.[26]  Aqui Joel salienta  que Deus dará o seu “espírito a todos, sem distinção”, quebrando as seguintes barreiras:
1.      A barreira da idade (velhos e jovens);
2.      A barreira social (escravos e escravas);
3.      A barreira de sexo [gênero] (filhas e filhos).[27]
O profeta encerra a sua profecia apresentando a linguagem poética da profecia sobre prodígios nos céus e na terra. Bem como “sangue e fogo, colunas de fumaça, o sol convertido em trevas e a lua em sangue”.[28]
Estes elementos cósmicos formam o corpo da mensagem profética apontando para o juízo sobre os rebeldes ao pacto e as nações inimigas. Devemos considerar que “sol”  e “lua” tem seus precedentes nas Escrituras como luzeiros que governam, ou seja,  que regem o mundo (Gênesis 1.14-16); no progresso da revelação estes elementos cosmológicos são usados para representar as autoridade e governantes terrenos.
A literatura profética do Antigo Testamento está sobeja desses exemplos, conforme vemos em Isaías 13:9-10; esta passagem trata especificamente da queda do império Babilônico. Outra passagem das escrituras que evoca o mesmo vocabulário poético-profético está em Amós. 8.9 quando profetiza a ruína de Samaria (Israel / reino do Norte). E o último exemplo é o de Ezequiel 32:7-8 quando profetiza contra o Egito.
Os eventos aqui profetizados (assombrosos  - sol em trevas, lua em sague) não se cumpriram literalmente, mas de forma poética e profética sim, porque as luzes desses reinos se apagaram, e suas vidas foram findas em sangue.
A profecia de Joel encontra lugar de predição em cumprimento no dia de Pentecoste no que tange a efusão do Espírito Santo (Atos 2); entretanto, as descrições dramáticas dos elementos cósmicos (sol em trevas, lua em sangue) faz alusão a intervenção divina para livrar Israel (no tempo de Joel) das nações inimigas; bem como tem um elemento escatológico norteador que diz respeito ao juízo de Deus sobre Israel que rejeitara o messias e não acolheram a redenção de Yahweh.



1.      CALVINO, João. Joel. Tradução: Vanderson Moura da Silva, Brasília: Editora Monergismo, 2008.
2.      FILHO, Isaltino Gomes  Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009.
3.      HUBBARD, David Allan . Joel e Amós : introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996.         
4.      KAISER, JR, Walter C. O plano da promessa de Deus : teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Gordon Chown, A. G. Mendes, São Paulo: Vida Nova, 2011.
5.      SCHOKEL, Luis Alonso.; DIAZ, J. L. SICRE, Profetas - Introducciones y comentario, Volume II Madrid: Ediciones Cristiandad, 1980.
6.      STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides Martins. Bíblia Sagrada – Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.
7.      VANGEMEREN, Willem A. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, Tradução: Afonso Teixeira Filho e outros. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011.
8.      WOLFF, Hans. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Loyola, 1975.
9.      YATES, Kyle. Predicando de los Libros Proféticos. El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, 1964.
10.  YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1964.





* O autor deste estudo é Ministro da Palavra pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Formado em Teologia Reformada pelo Seminário Presbiteriano do Norte (SPN) em Recife – PE.
[1] FILHO, Isaltino Gomes  Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.57.
[2] Idem
[3] HUBBARD, David Allan . Joel e Amós : introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996, p.32
[4] FILHO, Isaltino Gomes  Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.57.
[5] SCHOKEL, Luis Alonso.; DIAZ, J. L. SICRE, Profetas - Introducciones y comentario, Volume II Madrid: Ediciones Cristiandad, 1980, p. 924
[6] CALVINO, João. Joel. Tradução: Vanderson Moura da Silva, Brasília: Editora Monergismo, 2008, p.13
[7] HUBBARD, David Allan . Joel e Amós : introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996, p.27.
[8] KAISER, JR, Walter C. O plano da promessa de Deus : teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Gordon Chown, A. G. Mendes, São Paulo: Vida Nova, 2011,  p.167
[9] YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1964,  P. 220.
[10] Para ter acesso a este estudo solicite uma cópia via: joaoricardoferreiradefranca@hotmail.com
[11] Veja-se FILHO, Isaltino Gomes  Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.58-59
[12] YATES, Kyle. Predicando de los Libros Proféticos. El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, 1964, p.276.
[13] FILHO, Isaltino Gomes  Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.58-59
[14] idem
[15] HUBBARD, David Allan .Joel e Amós : introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996, P, 61.
[16] HUBBARD, David Allan .Joel e Amós : introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996, P, 81.
[17] Ibid, p.82
[18] Idem.                                                                
[19] FILHO, Isaltino Gomes  Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.67.
[20] SCHOKEL, Luis Alonso.; DIAZ, J. L. SICRE, Profetas - Introducciones y comentario, Volume II Madrid: Ediciones Cristiandad, 1980, p. 927
[21]VANGEMEREN, Willem A. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, Tradução: Afonso Teixeira Filho e outros. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011, p. 84-85.
[22] WOLFF, Hans. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Loyola, 1975, p.76.
[23] HUBBARD, David Allan .Joel e Amós : introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996, p. 70.
[24] FILHO, Isaltino Gomes  Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p. 71.
[25] Ibid, p.74
[26] HUBBARD, David Allan .Joel e Amós : introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996, p. 79.
[27] STORNIOLO, Ivo; BALANCIN, Euclides Martins. Bíblia Sagrada – Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990, p.1121 (comentário sobre  Joel 3.1-5)
[28] FILHO, Isaltino Gomes  Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p. 77