segunda-feira, 7 de abril de 2014

O CÂNON DO NOVO TESTAMENTO – UMA INTRODUÇÃO

AULA 06: O CÂNON DO NOVO TESTAMENTO – UMA INTRODUÇÃO
Rev. João Ricardo Ferreira de França.*
INTRODUÇÃO.

            A nossa sociedade hoje já não acredita na Bíblia como sendo a revelação de Deus aos homens. O que fazer diante de tamanho ceticismo? O conhecer a Deus hoje por meio das Escrituras é totalmente desclassificado e tido como algo ingênuo e antiquado para o homem da pós-modernidade.
            A erudição atual tem sugerido que a Bíblia é um livro produzido para coibir a evolução intelectual dos homens, e tornar o poder da Igreja absoluto aos elementos científicos da atualidade. Os livros da Bíblia são visto como uma farsa sem precedentes e que os chamados apócrifos foram os livros que a Igreja excluiu do Cânon porque tais livros questionavam os dogmas da Igreja.
            Estamos vivendo uma época de apocrifamento dos livros canônicos e a canonização dos livros apócrifos – a inversão de valores, tão comum em nossa época, chegou até a Bíblia. Isso é percebido na mídia, radiofônica, televisiva e escrita. As escrituras são abertamente atacadas, pois, a nossa cultura ocidental tem aberto espaço para a quebra de absolutos; verdade e não-verdade são relativos. Depende de o leitor determinar a sua própria verdade.
            Ainda vivemos fortes incerteza quanto a validade do Antigo Testamento, pois, existem grupos evangélicos que defendem que o Antigo Testamento não é para hoje. O nosso trabalho visa oferecer uma visão, ainda que de forma geral e concisa, do que entendemos por Novo Testamento; e apresentamos como o “Cânon do Novo Testamento” foi formado, mostrando que todas as conclusões modernas sobre esta questão estão equivocadas; e, apresentamos como tudo foi processado.
            Que este trabalho ajude aqueles que desejam defender a Palavra de Deus como regra canônica para a vida da Igreja de Cristo.

Teresina, 26 de fevereiro de 2014.
             


I – O CÂNON DO NOVO TESTAMENTO – DEFINIÇÃO.

            Quando empreendemos um estudo pormenorizado concernente ao cânon  sagrado, encontramos muitas dificuldades no que diz respeito às questões textuais e históricas, e assim, começa uma tarefa laboriosa. O que é  o Cânon do Novo Testamento? Esta é a pergunta que é feita  por todo aquele que busca compreender mais a Palavra de Deus; e para se ter uma resposta é plausível se faz necessário entendermos o uso desta palavra em nosso círculo teológico e confessional.
            Sabemos que há uma singularidade no uso da palavra “Cânon” em relação ao Novo Testamento, isto porque o “Cânon” é muito discutido na crítica moderna. Reconhecemos a grande dificuldade que existe em tratar-se dessas questões. O nosso trabalho busca expor a importância do “Cânon” para a nossa fé cristã. Nós iremos iniciar a nossa exposição mostrando a origem da palavra “Cânon”, pois, é a partir da origem desta palavra que teremos uma visão ampla do “Cânon”, pois, o uso filológico e semântico desta palavra nos ajudará a compreender a formação na literatura secular, e por último, analisaremos o uso desta palavra  na visão eclesiástica.

  1. A Origem da Palavra Cânon.

Qual é a origem da palavra “Cânon”? Para compreendermos a formação canônica do Novo Testamento, é necessário, compreendemos a origem da palavra “Cânon”. Essa palavra traz um amplo significado em sua origem etimológica, mas no transcurso dos tempos essa palavra foi tendo um sentido mais restrito; e, é neste aspecto que nos deteremos no presente ponto.
“Etmologicamente, kanw,n (Kanôn, Canôn) é o empréstimo semítico de uma palavra que originalmente significativa ‘junco’ mas passou a significar ‘vara de medir e, por conseguinte, ‘regra’ ou ‘padrão’ ou ‘norma’.”[1]
Este empréstimo semítico tem a sua origem da palavra hebraica  “qâneh” (hn.Q;)) , algo muito interessante precisa ser observado, no que diz respeito a essa palavra, é que no Antigo Testamento esta palavra ocorre 61 vezes sendo empregado em seu sentido literal ( 1 Rs.14.15, Jó. 40.21; Is.36.6; 42.3; Ez.40.3,5-7); também encontramos esta palavra “significando ‘cana’ (planta que era usada medir e pautar), ‘balança’ (Is.46.6) e, também, “a cana  para traçar cestos, ou bastão reto”;[2] quando estudamos  bem afundo esta palavra chegamos à conclusão que a palavra “Cânon” tem uma significação singular.
A ideia transmitida por essa palavra não é uma simples vara de medir algo, mas tem a ideia de precisão, algo exato, algo que nada pode se acrescentar, o padrão a ser seguido, a norma, a regra final. Esta palavra tem também a ideia de centralização, como indicando que toda a atenção deve ser dada  à obra escrita. A palavra “cânon” descreve um senso de exatidão, de fixação e finalidade.
Em nosso entendimento esta palavra descreve o valor que devemos dar à Escritura; esta palavra  descreve a questão da suficiência da Bíblia, a palavra  “cânon” não permite acréscimo ao que está escrito. Quanto a essa verdade a Confissão de Fé de Westminster diz: “... à Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens”.[3] Esta declaração dos teólogos de Westminster, está de comum acordo com o significado da palavra “cânon” quando aplicado à Escritura Sagrada. É preciso entender isso, pois, o cânon do Novo Testamento precisa ser encarado como sendo uma regra, um padrão, uma norma autoritativa que a ele nada pode ser acrescentado.

2. O Uso da Palavra na Literatura Secular.

Passaremos a considerar agora o uso da palavra “Cânon” na literatura secular. Esta palavra kanw,n é suavemente usada desde os dias de Homero, isto é, desde o século IX a.C; e isto , significando “qualquer coisa que pode ser segurada contra uma outra coisa a fim de esticá-la, enrolá-la ou medi-la”.[4]
O nosso interesse em mostrar a estrutura da palavra  “Cânon” na literatura secular, tem como objetivo mostrar o que o sentido semântico desta palavra  não mudou nos transcursos dos anos, mas que foi apenas tomando formas mais específicas. Estas formas específicas, foi se tornando mais estrita até chegar ao uso neotestamentário do termo. E , assim, formar o Novo Testamento com a valorização deste vocábulo.
Na literatura secular essa palavra quando era aplicada à gramática, significativa uma regra, regra como padrão absoluto para ser seguido; em outras disciplinas  a palavra “Cânon” tomou conotações bem semelhantes à matemática, história e astronomia, tinha um sentido de tabela, ou melhor, catalogação; à arte tinha um sentido de pauta, à arquitetura, tinha o sentido de haste ou mastro. E na literatura e, se considerada como disciplina,  a palavra tinha como significação  a lista de obras de um determinado autor. “Assim, o Cânon de Platão refere-se à lista de tratados  que podem ser atribuídos a Platão como genuinamente de sua autoria”.[5]
Se mergulharmos mais profundamente em busca do sentido da palavra  “Cânon” iremos fazer um lista infindável de conceitos, e este não é o nosso propósito; “Como  podemos ver nestas breves considerações, a palavra ‘Cânon’ foi usada em vários sentidos em diversas áreas, contudo, preservou o conceito de ‘regra’, ‘padrão’, ‘tabela’ e ‘modelo’”.[6]
3. A Palavra Cânon na Concepção Eclesiástica.

Depois de tratarmos do uso da palavra “Cânon” na literatura secular, agora se veja o uso desta palavra  na visão eclesiástica; ou seja, como a igreja contemplava e sempre entendeu a palavra “Cânon”? Esta é a pergunta mais importante a ser respondida, é preciso dizer que a expressão “visão eclesiástica” deve ser compreendida como a “visão religiosa cristã” da palavra em questão.
3.1 – A Palavra  Cânon no Novo Testamento.

Iremos considerar o uso desta palavra em todo o Novo Testamento, a palavra “Cânon” ocorre quatro vezes  em todo o Novo Testamento. E é apenas encontrada nos escritos paulinos. Consideremos estes textos:

           

2 Coríntios 10.13,15-16.

Texto Grego

Texto no Português.
h`mei/j de. ouvk eivj ta. a;metra kauchso,meqa avlla. kata. to. me,tron tou/ kano,noj ou- evme,risen h`mi/n o` qeo.j me,trou evfike,sqai a;cri kai. u`mw/n 15  ouvk eivj ta. a;metra kaucw,menoi evn avllotri,oij ko,poij evlpi,da de. e;contej auvxanome,nhj th/j pi,stewj u`mw/n evn u`mi/n megalunqh/nai kata. to.n kano,na h`mw/n eivj perissei,an  16  eivj ta. u`pere,keina u`mw/n euvaggeli,sasqai ouvk evn avllotri,w| kano,ni eivj ta. e[toima kauch,sasqai
“Nós, porém não nos gloriaremos sem medida , mas respeitamos os limites da esfera de ação que Deus nos demarcou e que se estende até vós... não nos gloriando fora de medida nos trabalhos alheios e tendo esperança de que, crescendo a vossa fé, seremos engrandecidos sobremaneira entre vós , dentro da nossa esfera de ação, a fim de anunciar o evangelho para além das vossas fronteiras, sem com isto nos gloriarmos de coisas já realizadas em campo alheio”
     
Neste trecho Paulo de Paulo nós encontramos a palavra “cânon”, no original  grego, sendo usadas três vezes  indicando “a sua regra de procedimento de não trabalhar em campo alheio”.[7]A Quarta vez em que  a palavra “Cânon” é aplicada  é em Galátas  6.16, onde o apóstolo Paulo diz :

Texto Grego

Texto em Português.
   kai. o[soi tw/| kano,ni tou,tw| stoich,sousin eivrh,nh evp auvtou.j kai. e;leoj kai. Evpi. to.n VIsrah.l tou/ qeou/
“E,  a  todos quantos andarem  de acordo com esta regra, paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus”

Aqui neste texto nós vemos Paulo usando a palavra “Cânon” como significando “uma regra de vida”; é algo indiscutível  que a palavra deve-se ser entendida como um padrão, como uma regra, como um modelo.

3.2 – A Palavra Cânon nos Pais da Igreja.

Uma abordagem que precisamos fazer é como os chamados pais da Igreja  usaram o vocábulo “Cânon” em seus escritos, isso nos ajudará a compreender a formação do Novo Testamento. Os pais apostólicos têm uma grande importância para a nossa abordagem, pois, eles viveram bem próximos aos apóstolos, e o uso que eles fizeram do termo nos ajudarão em nossa visão sobre o “Cânon”.
Os pais apostólicos usaram a palavra “Cânon” para significar uma regra de vida, e isto diz respeito  à santidade de vida da Igreja em contraste com a forte onda de heresias existentes  na época deles. O primeiro Pai da Igreja que desejamos citar é o Clemente de Roma, ele viveu aproximadamente no ano 95 d.C, e chegou a dizer: “prossigamos para a gloriosa e venerável regra (kanw,n) de nossa tradição”. Isto ele disse no que diz respeito a alguns jovens que não estavam obedecendo a autoridade dos presbíteros da igreja em Corinto.
Outro Pai da Igreja foi o Clemente de Alexandria que viveu aproximadamente entre os anos 150 – 215 d.C, ele chegou a dizer que a “harmonia entre o Antigo e o Novo Testamentos é de um Cânon para a Igreja”.[8]
Temos outro Pai da Igreja que se chama Irineu de Leão ele chega a chamar o credo como sendo o “Cânon” da verdade que deve ser guardado no coração sem nenhuma modificação. Outro grande líder da patrística é Policarpo que viveu aproximadamente em 70 – 155 d.C chegou a referir-se ao evangelho como “O Cânon da Fé”. Eusébio, outro Pai da Igreja, e historiador, chega a dizer que o evangelho  é o “Cânon da verdade”, “Cânon da Igreja” e também o “Cânon São” da pregação do Salvador”.[9]
O grande pregador João Crisóstomo[10]que viveu em 354-407 fala da Bíblia como “exata balança (zugoj - zygos ), padrão (gnw,mwn - gnômôn) e regra (kanw,n) de todas as coisas.”[11]
A visão de que as Escrituras do Novo Testamento era uma regra ou um “Cânon” para ser obedecido pode ser visto nas decisões dos Sínodos e Concílios da Igreja. Um exemplo disso está no caso de Paulo de Samosata  que ensinava que Jesus era um mero homem e que se tornou o Cristo mediante o batismo, porém, a Igreja no ano 268 d.C. condenou o seu ensino e conduta sendo considerados como “uma apostasia do Cânon.”[12] (aposta.j tou kanonoj – apostas tou kanonos) descrevendo que Samosata havia se afastado da fé ortodoxa.
Como pudemos ver o uso da palavra “Cânon” – na visão patrística – era uma palavra que descrevia uma regra e um padrão ligados aos documentos religiosos da Igreja Antiga. E de forma bem particular vemos a mesma significação sendo aplicada às Escrituras.

3.3 – A Palavra Cânon nos Escritos Sagrados.

Iremos considerar agora, a palavra “Cânon” nos escritos sagrados, pois, o uso da Palavra em tais escritos nos ajudará  na compreensão necessária concernente a esta questão fundamental. É bom salientar , que os escritos sagrados devem ser entendidos como o reconhecimento dos escritores sacros das obras sagradas do uso “peculiar” da palavra “Cânon” no que concerne ao Novo Testamento conforme o temos hoje.
Comecemos por Orígenes o qual viveu aproximadamente em 185 – 254 d.C. Ao que nos parece ele foi o primeiro a empregar a palavra “Cânon” como um termo técnico  aplicado à lista ou catálogo de livros normativos para a fé e o ensino.
Sabemos pela história da Igreja que o primeiro Pai da Igreja  que o usou o termo “Cânon” para o Novo Testamento foi o grande homem de Deus Atanásio que viveu entre 295-373 d.C. É bom lembrar que quando Orígenes formou seu “Cânon” das Escrituras Sagradas, seguiu alguns critérios, criados por ele, e que a maioria dos escritores seguiram, tais critérios foram os seguintes:

a.              Livros Homologoúmenos: São os livros classificados como “incontestáveis” na Igreja de Deus aqui na terra. Neste grupo Orígenes incluiu os seguintes livros: Os evangelhos, as treze epístolas de Paulo, 1 Pedro, 1 João, Atos dos Apóstolos e Apocalipse.
b.              Livro Amphiballómenas: Conhecidos como escritos duvidosos e não aceitos em todas as igrajas. Neste grupo Orígenes incluiu os seguintes livros: 2 Pedro, 2 e 3 João, Tiago, Judas e Hebreus.
c.             Livros Pseudé: Os chamados livros que deveriam ser rejeitados como “falsificações heréticas”. Neste grupo, obviamente distinto do Novo Testamento, ele incluiu os seguintes: O  Evangelho dos Egípicios, o evangelho de Tomé, o Evanglho de Basilidas e de Matias.[13]

De modo semelhante o historiador Eusébio nos anos de 260-340 d.C. apresentou a sua lista do que julgava o ser o “Cânon” do Novo Testamento, e usou os mesmos critérios de Orígenes, todavia, sugeriu que deveria fazer algumas diferenças quanto a lista apresentada pelo seu amigo:

a.              Homologoúmena: Aqui Eusébio classificou os quatro evangelhos, atos, quartoze epístolas paulinas – isso porque colocava Hebreus nesta lista -, [14]1 João, 1 Pedro e Apocalipse.
b.              Antilegómena: Estes são os livros que, segundo Eusébio, deveriam ser classificados como os controvertidos – e muitos deles eram reconhecidos como autênticos pela maioria dos cristãos; então, entre eles os seguintes: Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João. Todavia, ele criou dentro desta categoria sub-grupos:

1.              Nótha: Estes são os livros conhecidos como espúrios e entre os tais encontram-se: Atos de Paulo, Pastor Hermas, Apocalipse de Pedro, Carta de Barnabé, o Didaquê, Apocalipse de João, Evangelho de Hebreus.
2.             Pseudonímia: Os livros heréticos que deveriam ser rejeitados pela Igreja. Entre eles estão: O Evangelho de Pedro, de Tomé, de Matias e Atos de André e de João. Segundo Eusébio estes livros deveriam ser “considerados como absurdos e ímpios.[15]

E tais livros jamais deveriam ser aceitos como “Canônicos”. Isso nos lembra que “Apesar da palavra “Cânon” ser usada com certa frequência pelos Pais e Concílios da Igreja  para referirem-se a sã doutrina, somente mais de um século depois de Orígenes é que a palavra tornou-se comum para aludir aos livros da Bíblia. O responsável poer este incremento foi Atanásio (295 –373 d.C), bispo de Alexandria (328-373), o qual na sua 39ª Carta Festiva, enviada na Páscoa de 367 às igrejas de sua responsabilidade, empregou a expressão : “livros incluídos no Cânon” e, igualmente, estabeleceu pela primeira vez uma lista de 27 livros do Novo Testamento como temos hoje”.[16] Esta declaração de Atanásio foi importante para o reconhecimento do “Cânon” do Novo Testamento como o temos hoje.

II – A NECESSIDADE DO RECONHECIMENTO CANÔNICO DOS ESCRITOS SAGRADOS DO NOVO TESTAMENTO.

Qual é a importância do Cânon do Novo Testamento? Haveria alguma necessidade no que diz respeito a um reconhecimento de algum Cânon para a Igreja? Que razões justificaria tal empreendimento? Bem, sugerimos que há pelo menos duas razões para que houvesse, por parte da Igreja, um reconhecimento de um padrão canônico no que toca ao Novo Testamento.

1.      A Necessidade de se Preservar os Escritos da Corrupção.

È bom salientar que nos primeiros séculos da Igreja cristã havia uma forte tendência de se adicionar coisas não ditas por Cristo e seus apóstolos, o gnosticismo estava emergente no primeiro momento na história da Igreja. O inimigo mais perigoso para a vida da Igreja foi de fato o gnosticismo, este ensino era muito perigoso visto que a maioria dos escritos do primeiro século eram de fato copiados à mão, e erros doutrinários poderiam ser inseridos de forma não intencional como ser algo deliberadamente intencional.
A Igreja precisava de um corpo de doutrina definida e tendo um livro reconhecido como canônica não correria tal risco de a doutrina ser corrompida, e assim, seguramente poderia proclamar a fé. É notável como a nossa Confissão de Fé reconhece isso de forma clara, afirmando que Deus decidiu escrever a sua revelação com o propósito de preservar a mesma da corrupção[17] que é promovida pela pecaminosidade humana, e pela malícia de satanás; esta preservação gera conforto para a Igreja e a sua pregação.


2.      A Necessidade de Prevenir a Igreja do Erro.

No período pós-apostólico começou circular várias obras literárias de ordem religiosa; essas obras faziam apologia às heresias existentes no primeiro e segundo século da Igreja, dentro dessa tensão estavam os cristãos sendo de alguma forma influenciados por tais ensinamentos, e por que estavam sendo influenciados? A resposta é bem simples. Tais escritos circulavam com os nomes dos apóstolos, mas eram de autoria pseudo-cristã ; então, tais ensinos encontravam abrigo no seio da Igreja.
Podemos citar pelo alguns destes escritos que circulavam nos meados do segundo século; entre, os tais citamos o Evangelho de Pedro, vejam o que ele ensina:
Eu disse: ‘Que vejo, Senhor? É a ti mesmo que eles aprisionam, ainda que te estejas entretendo comigo? Quem é aquele que, sereno e sorridente, se encontra sobre a árvore? É outro aquele quem eles ferem as mãos e os pés? O Salvador  respondeu-me:  ‘Aquele que tu viste sereno e sorridente sobre a árvore, esse é o Jesus em Vida. Mas aquele a quem traspassam mão e pés com pregos,  essa é a sua parte corpórea, isto é, são mãos com pregos, essa é a sua parte corpórea, isto é, o seu substituto exposto à vergonha[18]

            O texto é certamente gnóstico, e assim, valendo-se do nome do Apóstolo Pedro, foi introduzido na Igreja  trazendo grandes consequências para a Igreja; ou seja, erros doutrinários estavam sendo inseridos dentro do contexto de ser Igreja. Então, era necessário o estabelecimento do “Cânon”.
            Tendo um “Cânon” a Igreja teria uma fonte de doutrina pura e segura de onde se poderiam extrair as suas homílias, bem como avaliar aqueles que se colocavam a frente do povo para pastorear.

III – CRITÉRIOS PARA O RECONHECIMENTO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO.

            Se havia uma necessidade para o estabelecimento do “Cânon”, então, a Igreja formou o “Cânon” de forma autoritária e arbitrária? A resposta é um ressonante não! Esta concepção é absorvida  por pura ignorância da história eclesiástica. A Igreja não estabeleceu  o valor canônico dos livros do Novo Testamento. A Igreja não determinou o que era ou não Palavra de Deus para fazer parte do “Cânon”.
            Então o que aconteceu? A Igreja humildemente reconheceu, note o que estamos falando, a Igreja reconheceu os livros canônicos; mas como a Igreja pode reconhecer isso, quais foram os critérios empregados para tal empreendimento? O dr. F.F.Bruce nos oferece uma grande explicação desta temática quando diz:

Uma coisa precisa  ser afirmada com toda ênfase: O livros do Novo Testamento não se fizeram  possuídos de autoridade pelo fato de virem a ser formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário, a igreja incluiu-os no cânon porque já os havia por divinamente inspirados, reconhecendo-lhes o valor inato e autoridade apostólica., direta ou indiretamente. Os primeiros Concílios eclesiásticos a classificar os livros canônicos se realizaram ambos na África do Norte – em Hipona Régia, em 393; em Cartago no ano 397 – mas a ação destes Concílios  de modo algum representa a imposição de algo  de novo às existentes comunidades cristãs, pelo contrário, simples codificação do que já era a prática geral , corrente nessas comunidades.[19]

Esta declaração de F.F.Bruce descreve adequadamente aquilo que realmente aconteceu para a formação do “Cânon” do Novo Testamento. Mas a questão é : Como isso aconteceu? Quais os critérios foram usados para a formação do “Cânon”? Será que a Igreja não foi tendenciosa na formação do texto que temos hoje? A escolha dos livros que iriam ou não fazer parte da coleção não foi arbitrária? Vejamos:
1.      O Critério da Apostolicidade do Livro.
A questão que se suscita é como saber se um livro era canônico ou não? Esta era um pergunta que precisava de uma resposta urgente da Igreja. A resposta oferecida pela Igreja era a identidade apostólica em relação a tal livro.
Broadus  nos diz que
“Jesus escolhera doze homens  para estarem com ele e serem os seus intérpretes após a sua ascensão. Esses homens deveriam ser os responsáveis pela instrução de novos discípulos. Seu testemunho deveria ser aceito pela igreja como possuindo a autoridade do próprio Jesus. Consequentemente, seus escritos deveriam ter um lugar  de honra dentro das igrejas”.[20]

Esta era a grande questão sobre a canonicidade de um livro tal como o Novo Testamento. Este critério não era a proposição  de que todos os livros do Novo Testamento fossem escritos. É bom que se diga que esta proposição não significava que todos os livros deveriam ter sido escrito por um apóstolo, mas a proposição vinha também “incluir aqueles que estiveram contatos direto com os apóstolos. Nesse sentido o evangelho de Marcos era entendido como ligado a Pedro; e o de Lucas estava ligado a Paulo”.[21]
O critério da Apostolicidade tem sido considerado o determinante para a formação do “Cânon” do Novo Testamento. Se um livro tivesse sido escrito por um apóstolo ou por alguém associado a ele, então, tal livro deveria ser incluído na lista canônica.
2.      O Critério da Leitura Pública nas Igrejas Locais.
Este Critério é basicamente dependente do primeiro, visto que, se uma obra literária pertencia a algum apóstolo, ou foi escrito por alguém ligado ao apostolado, tal escrito deveria ser lido publicamente, ou seja, deveria gozar de uma ampla aceitação dentro das igrejas locais. “A aceitação  e o uso litúrgico por parte das Igrejas locais constituíam-se numa evidência de canonicidade”[22]dentro da visão eclesiástica para o reconhecimento de uma regra com a qual a Igreja pudesse com todas as letras basear a sua fé dogmática.
É assim que Jerônimo insiste em que não importa quem escreveu o livro de Hebreus, pois, de qualquer forma esse livro e a obra de escritor da igreja “[...] é de qualquer forma lido constantemente nas igrejas”.[23]
O livro para ser incorporado ao “Cânon” deveria ter exercido uma forte influência nas igrejas locais com resultados proveitosos; inclinando-os a uma vida proveitosa e piedosa conforme a Lei de Deus, as igrejas usavam uma lista de livros para a manifestação da “liturgia da palavra”, tais listas serviram de respaldo para a formação canônica do Novo Testamento.
3.      O Critério da Harmonia Doutrinária.
Uma coisa precisa ser dita aqui é o fato de que o Novo Testamento não surgiu com a Igreja ditando o que era, e o que não era a Palavra de Deus, já fizemos alusão a isto. Entre os escritos deveria " haver uma conformidade entre o documento e a ortodoxia , ou seja, a verdade cristã reconhecida como normativa nas igrejas”[24].
Se algum livro não estivesse de conformidade com a doutrina cristã  tal escrito seria tido como herético; pois, cada doutrina é harmoniosa na Bíblia; a nossa Confissão de Fé nos diz que
Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço pela Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda glória) [...][25]

A harmonia entre os escritos e a ortodoxia da Igreja  critério fundamental; e somente os que sustavam a ortodoxia da Igreja foram incluídos no “Cânon” do Novo Testamento.
4.      O Critério da Inspiração.
Não menos importante é o critério da Inspiração divina. Este critério tem sido negligenciado por grandes eruditos, tais como Broadus que não o cita em seu livro, e nem Carson e seus amigos não fazem alusão a tal critério, talvez seja por sua natureza bem mais subjetiva do que objetiva; todavia, este critério é fundamental.
O único escritor que cita este critério é Tenney que afirma: “O verdadeiro critério da canonicidade é a inspiração”.[26]
Acreditamos que a afirmação de Tenney é muito boa, pois, veio de um grande conservador, mas pensamos que Carson esteja certo quando diz: “Talvez se deva mencionar que os pais não reconhecem uma obra canônica pelo fato de ser inspirada, visto que, sem maiores restrições, também aplicam o vocábulo “inspiração” e expressões correlatas a livros não-canônicos”.[27] Embora acreditamos que se um livro era de autoria apostólica e era regularmente usado na liturgia e homilia da Igreja, esta aceitabilidade, deve ser incluída na Inspiração.
Diante disso tudo, entendemos que o “Cânon” do Novo Testamento foi reconhecido como autoritativo no seio da Igreja.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

2.      BRUCE, F.F. Merece Confiança o Novo Testamento?, São Paulo: Vida Nova, 1986, p.35.
3.      CARSON, D.A, MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento .São Paulo: Vida Nova, 1997
4.      CESÁREA, Eusébio. História Eclesiática, vol. III a V.
5.      Confissão de Fé de Westminster , São Paulo: Editora Cultura Cristã..
6.      COSTA, Herminsten Maia. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva  Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
7.      GUHRT, J & LINK, H.G. Regra , In: BROW, Colin, Editor Geral. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, Volume 4, 1983.
8.      HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Rio de Janeiro: Juerp, 1989.
9.      KUMMEL, W.G. Introdução ao Novo Testamento, São Leopoldo : Sinodal, 1972.
10.  Revista Eclésia, Ano VI Número 70.
11.  STOTT, John. Eu Creio na Pregação, São Paulo: Vida , 2001.
12.  TNNEY, Merril C. O Novo Testamento – Sua Origem e Análise, São Paulo: Vida Nova, 1960..





* O autor é ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. Foi professor de línguas bíblicas [grego e Hebraico] no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil. Atualmente é pastor auxiliar na Primeira Igreja Presbiteriana de Teresina - Piauí. Contatos: jrcalvino9@hotmail.com / (86)8811-2607 [OI]  – (89) 9930-6717[TIM]
[1] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento .São Paulo: Vida Nova, 1997, p.541.
[2] COSTA, Herminsten Maia. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva  Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 1998,18-19.
[3] Confissão de Fé de Westminster , São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, Capítulo 1, Seção 7.
[4] GUHRT, J & LINK, H.G. Regra ,  In: BROW, Colin, Editor Geral. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, Volume 4, 1983.
[5] TNNEY, Merril C. O Novo Testamento – Sua Origem e Análise, São Paulo: Vida Nova, 1960,427.
[6] COSTA, Herminsten Maia. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva  Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.21.


[7]COSTA, Herminsten Maia. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva  Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.21.


[8] Apud, COSTA, Herminsten Maia. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva  Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.23.
[9] CESÁREA, Eusébio. História Eclesiástica, vol. III a V.
[10] Para se conhecer mais um pouco sobre a vida deste grande homem de Deus e a sua importância na área de Homilética leia  STOTT, John. Eu Creio na Pregação, São Paulo: Vida , 2001, p.20-21
[11] Apud, COSTA, Herminsten Maia. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva  Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.25.

[12] CESÁREA, Eusébio. História Eclesiástica, vol. VII . 29.1, 30.1.
[13] KUMMEL, W.G. Introdução ao Novo Testamento, São Leopoldo : Sinodal, 1972, p.18
[14] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento .São Paulo: Vida Nova, 1997, p.437.
[15] CESÁREA, Eusébio. História Eclesiática, vol. III – 25.7.
[16] COSTA, Herminsten Maia. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva  Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.30.

[17] Veja-se Confissão de Fé de Westminster , São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, Capítulo 1, Seção 1.

[18] Apud, Revista Eclésia, Ano VI Número 70, p.28.
[19] BRUCE, F.F. Merece Confiança o Novo Testamento?, São Paulo: Vida Nova, 1986, p.35.
[20] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, Rio de Janeiro: Juerp, 1989, p.35.
[21] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento .São Paulo: Vida Nova, 1997, p.550.

[22] COSTA, Herminsten Maia. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva  Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.40.
[23] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento .São Paulo: Vida Nova, 1997, p.550-551.
[24] Idem.

[25] Confissão de Fé de Westminster , São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, Capítulo 1, Seção V.

[26] TNNEY, Merril C. O Novo Testamento – Sua Origem e Análise, São Paulo: Vida Nova, 1960,428.
[27] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento .São Paulo: Vida Nova, 1997, p.551.

sexta-feira, 21 de março de 2014

CRISTO O SIGNIFICADO DA HISTÓRIA - INTRODUÇÃO

CRISTO O SIGNIFICADO DA HISTÓRIA
Por: Rev. Hendrikus Berkhof
Tradução: Rev. João Ricardo Ferreira de França.
INTRODUÇÃO
“Quando já não podemos encontrar significado na história significa que não entendemos a nós mesmos”
G. Van der Leeuw, De Zin der Geschiedenis, Groningen, 1935, p.5.
Constantemente alguns nos asseguram que vivemos em era apocalíptica. A pergunta é se aqueles que dizem isto sabem o que querem dizer. Se é algo mais que a afirmação de que esta era Põe diante de nós surpresa e temores que nunca se havia visto antes, então, isto deve significar que vivemos em uma época que revela mais que qualquer outra época anterior (apocalipse significar ‘manifestar, deixar descoberto’); um tempo em que as grandes forças que movem a história humana são reveladas estando assim despojadas de seu mistério; um tempo que não tem fim. De modo que, com esta segurança, estamos tratando com um dos muitos sopros de vida, expressados de uma forma tão livre, que comprovam quanto de nosso mundo Ocidental ainda vive a partir de sua herança cristã, e quanto nos orientamos inconscientemente por ela quando buscamos uma via de escape que nos livre dos eventos que nos oprimem. Provavelmente esta ultima frase seja todavia, demasiadamente afável para expressar o verdadeiro problema. Nossa  geração se encontra estrangulada pelo temor: temor ao homem, o seu futuro, à direção na que estamos sendo empurrados contra a nossa vontade e desejo. E disto surge um clamor pedindo iluminação com respeito ao significado da existência da humanidade, e com respeito ao objetivo a que estamos sendo conduzidos. É um clamor por uma resposta para a antiga pergunta do significado da história.
             A Igreja de Cristo não só está ciente de tal clamor, mas ela também sabe uma resposta divina. Deve colocar-se ao lado do mundo e deve atrever-se a apontar a direção da resposta. A questão, no entanto, é se será capaz de fazer isto. Certamente se encontra de pé ao lado do mundo, ou inclusive completamente nele, pois, ela também está presa pelo medo. Porém só pode ser ajudada sólida e real quando é capaz de apresentar uma resposta ainda em meio de seus piores temores e os de outros. Pode fazer realmente isto por seu livro, a Bíblia, está cheia de luz, precisamente para estes abismos da história. Ali se encontram compilados os matérias de construção do que podemos chamar de uma teologia da história.
            Porém, muitos séculos a Igreja e seus teólogos apenas não têm notado estes materiais. Tem-se dito poucas palavras acerca dos assim chamados ‘sinais do fim’ em uma passagem quase escondida na dogmática, em alguma parte muito próxima do final. Geralmente a passagem tem sido muito sombria e tem  tratado em sua totalidade, ou quase totalmente, com o crescente mal do homem e a chegada do anticristo. Algumas observações nessa seção somente assinalam a possibilidade de que, o que foi dito em toda a teologia, poderia tocar o coração da história do mundo, incluindo a história do presente. Porém, o caráter quase oculto da passagem, o breve tratamento que se lhe dava, e a localização dos fatos em um futuro incerto, tem resultado em uma situação na que estes “sinais do fim” tem permanecido como pedras perdidas em um campo dogmático, e os materiais da construção necessários para uma teologia da historia ficaram sem ser reunidos.
            No entanto, isso não inclui todos aqueles que se chamam a si mesmo de cristão. Ao longo de toda a história da igreja a busca de uma teologia da história tem sido um tema importante para algumas seitas e para alguns movimentos similares as seitas. Encontra-se aqui uma resposta detalhada e clara que satisfez não apenas fé, mas também a curiosidade e o intelectualismo primitivo. Isto aconteceu enquanto a igreja oficial não tinha nenhuma resposta em absoluto.
            Por esta razão, a relação entre as igrejas e as seitas também tem sido infrutífera. As seitas tem racionado contra a atitude fria da Igreja e as questões associadas com o futuro e a história, e as igrejas tem reacionado contra as fantasias, e as vezes, contra os arrebatamentos revolucionários que se tem posto em evidência entre as várias seitas. Cada resposta tem exigido uma nova resposta e as questões para uma teologia da história têm sido abordadas, quer sem qualquer aproximação, ou de  uma forma fantástica e superficial. Parece que não tem havido uma terceira possibilidade.
            Pode-se dizer, uma vez que existem apenas duas alternativas é melhor para escolher o primeiro. Porém, o não dar atenção é tão desastroso como oferecer uma atenção errada. Muitos cristãos, que, apesar dos enigmas e tristezas de sua vida pessoal não perderam por um momento a segurança do amor e orientação de Deus, se sentem tão impotentes e incapazes como crianças perdidas que sofrem a ausência do Pai, quando lêem manchetes nos jornais e periódicos. A Igreja de Cristo do século vinte [ vinte e um – NT] é espiritualmente incapaz de resistir contra todas as rápidas mudanças que sucedem ao seu redor porque não tem aprendido a ver a história desde a perspectiva do reinado de Cristo. Por esta razão, pensa em termos totalmente seculares com respeito aos eventos do seu próprio tempo. se vê invadida pelo temor de uma forma mundana trata de libertar-se do temor. Neste processo Deus como algo parecido a um benfeitor improvisado que salva a brecha tem oralmente.
            Afortunadamente, há sinais de mudança. Há somente pequenas nuvens, do tamanho de uma mão, porém são visíveis. A experiência da Segunda Guerra Mundial tem ajudado a dar um impulso nesta direção. O documento do Sínodo Reformado, Fundamenten em Perspectieven van Belijden( Fundamentos e perspectivas da fé), tem ido mais além das confissões do século XVI ao incluir um artigo acerca da história (art.14). E o Concílio Mundial de Igrejas teve como seu tema para a conferência de Evaston em 1954. ‘ Cristo – a esperança para o mundo.’ O bem conhecido relatório com respeito a este tema que foi aceito pela assembleia contém um parágrafo intitulado ‘A Esperança Cristã e o Significado da História’. Estas coisas são sintomas em sim mesmo e também motivos de contentamento, ainda assim o conteúdo em si não é tão satisfatório neste ponto, particularmente no caso do segundo documento. Porém tão somente temos começado. Será necessário que haja muita reflexão sobre este assunto. Só então, a nossa conversa sobre o reinado de Cristo na história, lentamente, começará a ter significado, porque se aproximará ainda mais  para a plenitude e certezas das quais se  fala no Novo Testamento.
            É meu desejo e esperança poder ajudar neste processo com este livro. Não espero nada menos, e minha expectativa não excede isso, como tive a forte impressão de que nós temos aqui um campo teológico não cultivado. No entanto, este é o legado da história. Posto que a dogmática se manteve sistematicamente separada dos problemas apresentados pelos livros apocalípticos da Bíblia, me vi obrigado a encontra meu próprio caminho sem a ajuda desta tradição. Por esta razão, entre outras, permaneci tão próximo como me foi possível da teologia bíblica. Isso não elimina o fato de que não se podem fazer pronunciamentos neste campo, se você não está também preparado para se aproximar de uma filosofia cristã da história. Quem teme o último não pode fazer justiça aos pronunciamentos bíblicos. Mas por isso mesmo tornou-se um maravilhoso livro em que a exegese, teologia bíblica dogma, e a filosofia mudam de lugares, e às vezes são interligadas. Para alguém como eu, que não sou um especialista em nenhum destes campos, esta tem sido uma empreitada muito perigosa. Felizmente, alguns estudiosos têm se mostrado dispostos a ler alguns capítulos e apontar algumas correções. Para eles eu  quero expressar minha sincera gratidão.

            A Teologia é uma forma de amar a Deus com a mente. Por esta razão não é uma doutrina secreta, mas um assunto público. De modo que tenho considerado como uma tarefa satisfatória e auto-imposta ao escrever de tal maneira que aqueles que não sejam teólogos com uma orientação intelectual geral possam ler este livro. Confio em que muitos deles queiram fazê-lo, pois é importante que o tema discutido neste livro comece a tomar a vida de toda a Igreja de Cristo, como um pão sumamente necessário. Pode ser que inclusive aqueles que se encontram entre as seitas possam desejar se familiarizar-se um pouco com este livro. E o acharão inadequado, e não estarão de acordo com muito do que há nele, porém talvez a este como sendo o trabalho de alguém que tenha prestado atenção para as chamadas feitas para a porta da igreja. E possa ser que haja uma ligeira possibilidade de que lhes possa conduzir a perguntar-se de onde se acham os elementos reativos ao seu próprio ensino. Pelo menos, confio que este livro possa ser uma pequena fonte através do qual a igreja e as seitas possam encontrar caminho para um novo diálogo.