sábado, 25 de março de 2017

ATOS DOS APÓSTOLOS - Questões Introdutórias ao Livro.

Módulo I – O Pano de Fundo  de Atos dos Apóstolos
Aula 01 – Questões Introdutórias ao Livro.

ATOS DOS APÓSTOLOS
Rev. João França

INTRODUÇÃO:

            O livro de Atos dos Apóstolos narra os primeiros trinta anos após a ascensão de Jesus ao Pai. Um livro riquíssimo no qual devemos mergulhar para o entendermos.  Este é um capítulo inspirador da História da Igreja. Na verdade, o Livro que nos propomos estudar neste curso é a primeira história eclesiástica neotestamentária[1].
            Este livro trata de modo particular como viveu a Igreja logo após a entronização[2] de Cristo! O título atribuído ao livro já suscitou na vida da igreja algum certo debate, os que preferem o título conforme se encontra em nossas bíblias “PRAXEIS APOSTOLWN” (Praxeis Apostolon) ou “Práticas dos Apóstolos” tem um apoio na Igreja Primitiva[3], outros tem sugerido que o título do livro é infeliz e que por isso deveria chamar-se Atos do Espírito Santo.[4]Mas, certamente falta evidências suficientes para isto. Devemos considerar Atos como a continuação da obra de Cristo Jesus por meio dos apóstolos como o verso de abertura deste livro parece nos indicar: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar” e prossegue no verso seguinte apoiando essa pressuposição básica “até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas.”.

I – QUESTÕES INTRODUTÓRIAS (AUTORIA):
            O livro de Atos dos Apóstolos é resultado da inspiração do Espírito Santo sobre a vida de seu autor. É claro que o autor primeiro deste livro bíblico é Deus. Mas, sua inspiração divina não deve distrair a nossa atenção do autor humano. A tradição eclesiástica (a tradição da igreja) tem atribuído a autoria deste livro a Lucas.
Mas, será que tal tradição se sustenta? Será que podemos provar que Lucas tenha escrito o livro de Atos? Para isso faremos três importantes procedimentos: 1. Faremos uma comparação entre Atos e o Evangelho; 2. Analisaremos a História da Igreja Primitiva; e por fim, 3. Olharemos para o restante do Novo Testamento para ver se existe alguma evidência da autoria lucana deste livro.
  1. O EVANGELHO DE LUCAS COMPARADO COM ATOS:
Nosso trabalho se ocupará agora de uma comparação entre os dois livros neotestamentários. E quando procedemos com a comparação surgem dois tipos de evidências importantes que sugerem com muita força que uma só pessoa escreveu ambos os livros. Tais evidências são classificas de 1. Explícita (aquela que está claramente indicando que é o mesmo autor); 2. Implícita (aquela que sugere a autoria comum dentro do corpo textual), vejamos:
  1. Evidências Explícitas:
Em Atos 1.1 nós lemos as seguintes palavras: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar”
Aqui o escritor do livro fala de “seu primeiro livro”, dando a entender que Atos é faz parte de uma obra em dois volumes. Também somos informados que ele escreveu o livro destinado a uma pessoa de nome Teófilo. Agora vejamos o prólogo de Lucas 1.1-4:
Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído.

            Então, nesta simples comparação podemos observar que o livro de Atos dos Apóstolos trata-se de um segundo tomo de uma obra única. Kistemaker mais uma vez é elucidativo neste aspecto:
O Evangelho de Lucas e Atos estão estreitamente relacionados devido à dedicatória desses dois livros a Teófilo (Lc 1.3; At 1.1). Casualmente, o tratamento excelentíssimo Teófilo parece inferir que este pertencia a uma alta classe social (comparem-se 23.26; 24.3; 26.25). E ainda, o versículo introdutório de Atos (1.1) revela que esse é o segundo volume que Lucas escreveu e uma continuação do primeiro (o Evangelho).[5]

Vale salientar que tanto “Lucas quanto Atos são anônimos, no sentido estrito da palavra”[6], por isso, se faz necessário determinarmos o autor de ambas as obras, mas pelo que as evidências nos apresentam apenas um autor escreveu estes dois livros.

  1. Evidências Implícitas:
Além das evidências explícitas da autoria de Lucas para Atos dos Apóstolos encontramos muitos escritores que reconhecem essa similaridade na obra Atos-Lucas. Conforme nós percebemos em Lucas 1.1-4 o autor se esforçou em apresentar um relato ordenado das coisas como ocorreram. O livro de Atos também segue basicamente a mesma estrutura. Há semelhanças entre os livros, entre as quais destacamos:
a.       Eles se desenvolvem em estilo episódio.
b.      Há temas paralelos em ambos os livros.
c.       Também há expectativas no livro de Lucas que só se cumprem em Atos: “porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos: luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel.” Lucas 2.30-32.
O ministério de Jesus, segundo o evangelho de Lucas, explica a salvação e a promessa à Israel. Mas só em Atos vemos a salvação de Deus que serve em formas significativas como uma luz para revelação aos gentios.
  1. O TESTEMUNHO DA IGREJA PRIMITIVA DA AUTORIA LUCANA:
Desde o quarto século a igreja tem sempre reconhecido que Lucas é o autor de Atos-Lucas. Analisaremos isso observando os manuscritos neotestamentários; bem como, o testemunho epistolar dos pais da igreja.
  1. Os Manuscritos:

Nos anos de 1952 foi encontrado o famoso manuscrito conhecido como p75 (Papiro 75) ele é datado do ano 175-200 d.C. Este manuscrito possui o escrito que conhecemos como o Evangelho de Lucas e no final deste escrito encontramos a seguinte expressão: EUAGGELION KATA LOUKAN (EUANGELION KATA LOUKAN – O Evangelho Segundo Lucas) este manuscrito certamente nos indica que o terceiro evangelho foi escrito por Lucas e que por consequência também ele é o autor do livro de Atos.
  1. Os Escritos pós-apostólicos:
As evidencias externas apontam para que Lucas tenha escrito Lucas-Atos é bastante forte, conforme vemos nos informa Carson[7]; pois, o fragmento Muratoriano datado por volta de 170 a 190 d.C. coloca na sua lista dos livros do Novo Testamento Lucas como autor de Atos dos Apóstolos; Irineu na sua obra contra as heresias documenta este fato da autoria de Lucas para Atos. E as palavras do manuscrito antimarcionistas em 160-180 são esclarecedoras:

            “Lucas é sírio, natural de Antioquia, por profissão um médico. Foi discípulo dos apóstolos e mais tarde acompanhou Paulo até o seu martírio. Serviu ao Senhor sem distrações, sem esposa, sem filhos. À idade de 84 anos adormeceu na Beócia, cheio do Espírito Santo”[8]


            Outro personagem da História da Igreja que confirma ser Lucas o autor de Atos é Eusébio de Cesárea em sua História Eclesiástica: “Lucas[...]fez menção dos censos em Atos”.

  1. O NOVO TESTAMENTO E BUSCA DO AUTOR DE ATOS DOS APÓSTOLOS.

Agora precisamos olhar para o Novo Testamento e investigar se o mesmo apresenta alguma indicação de que o Autor de Atos seja Lucas.
  1. Pistas da autoria no Novo Testamento:
Vale salientar mais uma vez que tanto o Evangelho de Lucas quanto o livro de Atos são anônimos e que não tem indicação alguma de sua autoria. Notamos no capítulo 1.3 do Evangelho Lucano a seguinte declaração:
igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem,”
Vemos aqui que ele não cita seu próprio nome. Mas, uma coisa é certa Teófilo certamente o conhecia muito bem. Esta questão da identificação da autoria não foi um problema para Teófilo, mas tem suscitado um debate longo para nós. Mas, o Novo Testamento nos fala mais sobre o nosso autor:
1º Ele não é um apóstolo:
“Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram,  2 conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares
            Quando o autor diz “conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas” está informando que ele não fora uma testemunha ocular de tais fatos, logo não era um apóstolo.
2º Tanto Atos quanto o Evangelho partilham de “semelhanças no estilo e na linguagem e compartilham de preferências teológicas”[9] F.F. Bruce nos apresenta algumas dessas preferências: “Sentimentos católicos (i.e. universais), interesse pelos gentios, importância às mulheres, tendências apologéticas semelhantes, aparições do Cristo ressurreto limitadas à Judéia e o julgamento de Cristo perante Herodes Antipas[10]
  1. Lucas e as Informações sobre ele:
 O autor é alguém muito bem-educado o teólogo Barclay nos lembra:
Embora o Livro não diga, desde os primeiros tempos se sustentou que Lucas é seu autor. Sabemos muito pouco a respeito de Lucas; só há três referências a ele no Novo Testamento (Colossenses 4:14; Filemom 24; 2 Timóteo 4:11). Estas referências nos permitem assegurar duas coisas sobre ele. Em primeiro lugar, Lucas era médico; segundo, era um dos colaboradores mais apreciados por Paulo e um de seus amigos mais fiéis, porque foi seu companheiro em sua última prisão. Podemos deduzir uma coisa: Lucas era um gentio. Colossenses 4:11 inclui uma lista de menções e saudações àqueles que estão circuncidados, quer dizer os judeus; e o versículo 12 começa com uma nova lista, e concluímos naturalmente que sou tráfico de gentios. portanto nos encontramos ante o interessante feito de que Lucas é o único autor gentil no Novo Testamento. Poderíamos ter adivinhado que Lucas era um médico, porque instintivamente utiliza termos médicos. No Lucas 4:35, quando fala do homem que tinha o espírito de um demônio imundo, Lucas utiliza a frase: "derrubando-o em meio deles", e a palavra que utiliza é o termo médico correto para convulsões. No Lucas 9:38 descreve ao homem que pede a Jesus: "Rogo-te que veja meu filho". A palavra que utiliza é o termo convencional para a visita de um médico a um paciente. O exemplo mais interessante da preferência do Lucas por termos médicos é um dito sobre o camelo e o buraco da agulha. Três autores do Evangelho nos dão esse dito (Mateus 19: 24; Marcos 10:25; Lucas 18:25). Para a palavra agulha tanto Marcos como Mateus utilizam o termo grego raphis que se refere à agulha de um alfaiate ou caseira; somente Lucas utiliza o termo belone que é o nome técnico da agulha de um cirurgião. Lucas era médico, e os termos médicos fluíam naturalmente de sua pluma.[11]

Conclusão:
Conforme temos visto podemos aprender que o Autor de Atos é alguém cujo nome é Lucas. Não há grandes contestações em ralação a posição tradicional da igreja em identificar este escrito como vindo da pluma de Lucas o autor do Evangelho.
Descobrimos que este livro é a segunda parte de um outro, ou seja, do terceiro Evangelho, portanto, é uma continuação do primeiro. O título do Livro tem sido motivo de especulações e de sugestões para a alteração do foco de estudo, pois, alguns sugerem que este Livro deveria se chamar Atos do Espírito Santo e outros preferem chamar o livro Atos de Jesus Cristo , já que parece indicar que tratar-se da continuação da obra de Cristo pelo que se pode perceber dos versos iniciais deste livro; entretanto, a igreja sempre entendeu que Livro trata da ação de  Cristo em benefício da Igreja  por meio do ministério apostólico.





[1] Ainda que MARSHALL considere essa avaliação como algo de um leitor mediano, essa pressuposição histórica básica é evidente (MARSHALL, I. Howard. Atos – Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova, 1983, p.14).
[2] Aqui referimo-nos ao fato da ascensão, pois, sabemos que Cristo reina desde os dias da eternidade, e que quando ressuscitou Deus, O Pai lhe assegurou todo poder (Mateus 28.18-19)
[3]Irineu, Against Heresies 3.13.3; Clemente de Alexandria Stromata 5.82; Tertuliano, Fasting 10. Os Códices Sinaiticus, Vaticanus e Bezae trazem essa tradução. Manuscritos minúsculos fornecem extensões: “Atos dos Santos Apóstolos” e “Atos dos Santos Apóstolos de Lucas o Evangelista”.
[4] Veja-Se KISTEMAKER, Simon. Comentário a Atos – volume 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.17 – no qual ele contesta também essa tentativa de colocar tal título no livro.
[5] KISTEMAKER, Simon. Comentário a Atos – volume 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 40
[6] CARSON, D.A; MOO, Douglas; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p.208
[7] Ibid, p. 209
[8] Apud, KISTEMAKER, Simon. Comentário a Atos – volume 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 39

[9] PINTO, Carlos Osvaldo. Foco e Desenvolvimento no Novo Testamento. São Paulo: Editora Hagnos, 2008, p.109
[10] BRUCE, F.F. The Acts of the Apostles, p. 2
[11] BARCLAY, William. Atos. Tradução: Carlos Biagini. Disponível em: http://www.iprichmond.com/atos acessado em 07/03/2017.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A TRADIÇÃO REFORMADA E A POLÍTICA

A TRADIÇÃO REFORMADA E A POLÍTICA
Rev. João Ricardo Ferreira de França.

Introdução:
            Atualmente estamos vivendo em uma época no qual a política tem sido desacreditada, mas que o estado tem sido valorizado; há outra sintomática muito curiosa é que somos ensinados de que o cristão não deve se envolver em política. Esta é a concepção do mundo evangelical como todo.
            Entretanto, como herdeiros da Tradição Reformada ou Calvinista possuímos um pensamento distinto quanto a este particular. Entendemos que a força propulsora das principais estruturas governamentais em nosso mundo ocidental deve muito ao pensamento e a influência de João Calvino. B.B. Warfield nos lembra que “ as raízes do calvinismo estão plantadas em uma atitude religiosa específica...desta emana, uma organização eclesiástica especial [...] envolvendo uma ordem política específica”.[1] E esta concepção garante as liberdades individuais conforme aprendemos com Biéler: “Denis de Rougemont ponderou que nenhuma ditadura moderna se estabeleceu em país influenciado pela Reforma calvinista.”[2]

I – A CONCEPÇÃO CALVINISTA / REFORMADA DE POLÍTICA.

            Para compreendermos a ideia de política desenvolvida pela concepção calvinista, devemos levar em consideração o que significa Magistrados? A CFW (Confissão de Fé de Westminster) possui um capítulo que aborda esta temática. Primeiro, assegurando que o papel do Magistrado Civil é fazer com a que a lei seja implantada de forma correta e seja cumprida de forma correta (defesa dos justos e castigos dos mauas); em segundo lugar, assegura que qualquer cristão que for vocacionado deve exercer o magistrado civil.
            Os anabatistas (rebatizadores) olham para todo o governo político como algo carnal, e por isso, o cristão não deve se engajar neste processo. Entretanto, para a concepção reformada e para o próprio Calvino os magistrados são como representantes de Deus neste mundo:
No que respeita à função dos magistrados, não só é aprovada e aceitável ao Senhor, mas também ele a honrou com títulos mui eminentes, além de no-la recomendar com cumulada dignidade. Para lembrar apenas uns poucos títulos: o fato de que são chamados deuses todos quantos exercem a função de magistrados, não deve levar ninguém a pensar que nessa designação reside leve importância, pois com ela significa que possuem um mandato de Deus, que foram providos de divina autoridade e representam inteiramente a pessoa de Deus, cujas vezes de certo modo desempenham.[3]
Vimos que os magistrados são colocados como se fossem representantes de Deus neste mundo. Mas, a pergunta seguinte é interessante: Como devemos agir em relação aqueles que não governam de modo que não refletem as leis de Deus?
Calvino responde a esta questão de três  formas importantes:
1)      Devemos ser submissos as autoridades constituídas (Tito 3.1):
Calvino nos diz comentando este texto que o apóstolo Paulo tinha muita “dificuldade em manter o povo comum em sujeição à autoridade dos magistrados e príncipes. Por natureza, todos nós somos desejosos de poder, de sorte que ninguém tem disposição para submeter-se a otutrem.[...] Paulo agora se volta para eles e os admoesta em termos gerais no sentido em que tranquilamente respeitassem a ordem do governo civil. Obedecem às leis e se submetessem aos magistrados. Pois a sujeição aos príncipes e a obediência aos magistrados que o apóstolo requer se estende também aos éditos e leis bem como a outros deveres cívicos.[4]

            Em seu comentário aos Romanos sobre o capítulo 13.1 ele assegura a mesa verdade quando comenta a expressão “autoridades superiores” declara: “Os magistrados, pois, são assim chamados em relação aos que se acham a eles sujeitos...” e ainda continua dizendo: “A razão porque devemos estar sujeitos aos magistrados é que eles foram designados pela ordenação divina.”[5]

2)      Oração pelos Magistrados é um dever do calvinista:
Calvino ensina isso de forma muito clara quando ele comenta o texto de Jeremais 29.7. O próprio reformador nos lembra que Jeremias exorta o povo do pacto a fazer isso:
Jeremias vai ainda mais longe, mesmo que os judeus tenham sido levados para a Babilônia, com a condição de prestar obediência voluntária à autoridade do rei Nabucodonosor, e a forma de testemunhar isso era  por suas orações. Ele não só lhes ordena pacientemente para aguentar o castigo que cai sobre eles, mas também para fossem fiéis súditos de seu conquistador; ele não só proíbe que eles sejam sediciosos, mas incitá-os a  obedecer a partir do coração, para que Deus seja um testemunho da sua sujeição e obediência.[6]

3)      O Dever de Resistir a um estado tirânico e totalitário:
O terceiro elemento da concepção calvinista de política é a legitimidade de resistir a um estado ou governo déspota, tirânico ou totalitário. A chamada desobediência civil é possível e legítima quando o governo se mostra totalitário.  O próprio Calvino assegura este fato ao comentar:
Mas, se agora alguns são constituídos magistrados do povo para moderar-se a prepotência dos reis, como eram outrora os éforos que foram contrapostos aos reis lacedemônios; ou os tribunos da plebe aos cônsules romanos; ou os demarcas ao senado dos atenienses; e, como estão as coisas agora, talvez também de qualquer poder que em cada reino exercem as três ordens representativas quando realizam [7]suas assembléias gerais; a tal ponto não os proíbo de, em função de seu ofício, resistir ao estuante desbragamento dos reis que, se se façam coniventes aos reis a oprimirem e assolarem violentamente ao populacho humilde. Eu afirmaria que tão nefária perfídia não carece de sua dissimulação, visto que estão a trair fraudulentamente a liberdade do povo, da qual devem saber que foram postos por guardiães pela ordenação de Deus.

II – O ATIVISMO POLÍTICO E A CONCEPÇÃO CALVINISTA:

            A segunda questão que devemos encarar com uma pergunta pertinente. Devem os cristãos se envolver no ativismo político? Esta pergunta é importante porque ainda paira dúvidas nos corações dos crentes piedosos sobre este assunto. O cristão e a política em nosso contexto parece ser excludentes. Mas, será mesmo?
2.1 – Considerando aspectos negativos do ativismo político:
            Um famoso teólogo conhecido com John Marcarthur Jr. Oferece quatro razões pelas quais os crentes não deveriam se envolver com o ativismo político:
1.      Denigre a soberania de Deus na História humana.
2.      Promove valores bíblicos na cultura usando meios carnais e egoísta.
3.      Apresenta um falso senso de moralidade.
4.      Um risco de alienar os incrédulos e vê-los apenas como políticos.
Para Marcarthur Jr. A igreja é quem podem mudar as estruturas sociais da sociedade por meio da pregação do evangelho.

2.2 – Aspectos positivos do envolvimento com o ativismo político:
            Apresentemos agora algumas das razões porque os crentes deveriam se envolver no ativismo político de forma sábia, justa e piedosa:

1.      Compreendendo que os reformadores sempre foram incentivadores disto. Pois, olhavam o Magistrado Civil como sendo uma forma de melhorar a vida do povo.
2.      Porque a CFW apresenta como alguém plausível aos que tem o dom para tal:
II. Aos cristãos é licito aceitar e exercer o ofício de magistrado, sendo para ele chamado; e em sua administração, como devem especialmente manter a piedade, a justiça, e a paz segundo as leis salutares de cada Estado, eles, sob a dispensação do Novo Testamento e para conseguir esse fim, podem licitamente fazer guerra, havendo ocasiões justas e necessárias.

Ref. Prov. 8:15-16; Sal. 82:3-4; II Sam. 23:3; Luc. 3:14; Mat. 8:9-10; Rom. 13:4.[8]

3.    Porque faz parte do mandato cultural:

Quando ignorando a nossa vocação política nos esquecemos de que Deus ao homem o dever de construir uma sociedade. Conformes aprendemos em Gênesis 1.26-28. Uma escritora nos lembra:

Em Gênesis, Deus dá o que chamaríamos de a primeira descrição de cargo:"Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a..." (Gn 1.28) A primeira frase —"Frutificai, e multiplicai-vos" — significa desenvolver o mundo social: formar famílias, igrejas, escolas, cidades, governos, leis. A segunda frase —"enchei a terra, e sujeitai-a" — significa subordinar o mundo natural: fazer colheitas, construir pontes, projetar computadores, compor músicas. Esta passagem é chamada de o mandato cultural, porque nos fala que nosso propósito original era criar culturas, construir civilizações — nada mais.[9]

As implicações disso é que o homem é chamado para governar o mundo, ou seja, para exercer um ativismo político governamental como um mandato de Deus.

III – ESTADO LAICO? O SISTEMA CALVINISTA E A RELAÇÃO ENTRE IGREJA E ESTADO.
            Atualmente tornou-se muito comum pensar que Estado Laico significa Estado sem religioso, ou areligioso ou ateu. Será que isso procede? A laicidade do estado indica que se deve ser um estado sem religião ou uma nação sem noções religiosas?

  1. O que é laicidade do Estado
            A concepção reformada ou calvinista nos ensina que a Igreja e o Estado têm responsabilidades diferentes ou separadas. No pensamento calvinista a igreja trata das questões espirituais e o estado trata das questões temporais.
            Mas, a grande questão é a seguinte: Qual é a relação do estado com a primeira tábua da lei de Deus? Ou seja, qual é o papel do Estado em relação a Igreja? A tradição calvinista e reformada expressa na Confissão de Fé de Westminster em seu capítulo 23 responde-nos:
III - Os magistrados civis não podem tomar sobre si a administração da palavra e dos sacramentos ou o poder das chaves do Reino do Céu, nem de modo algum intervir em matéria de fé; contudo, como pais solícitos, devem proteger a Igreja do nosso comum Senhor, sem dar preferência a qualquer denominação cristã sobre as outras, para que todos os eclesiásticos sem distinção gozem plena, livre e indisputada liberdade de cumprir todas as partes das suas sagradas funções, sem violência ou perigo. Como Jesus Cristo constituiu em sua Igreja um governo regular e uma disciplina, nenhuma  lei de qualquer Estado deve proibir, impedir ou embaraçar o seu devido exercício entre os membros voluntários de qualquer denominação cristã, segundo a profissão e crença de cada uma. E é dever dos magistrados civis proteger a pessoa e o bom nome de cada um dos seus jurisdicionados, de modo que a ninguém seja permitido, sob pretexto de religião ou de incredulidade, ofender, perseguir, maltratar ou injuriar qualquer outra pessoa; e bem assim providenciar para que todas as assembléias religiosas e eclesiásticas possam reunir-se sem ser perturbadas ou molestadas.

Ref. Heb. 5:4; II Cron. 26:18; Mat. 16:19; I Cor. 4:1-2; João 15:36; At. 5:29; Ef. 4:11-12; Isa. 49:23; Sal. 105:15; 11 Sam.23:3.

            O dever do Estado é a defesa da Igreja, isto também é expresso na nossa Constituição Federal no Título 2 – capítulo 1, no artigo 5 incisos 6 e 7.
  1. A Negação da Laicidade do Estado nas concepções políticas atuais
Nas estruturas políticas atuais vemos partidos políticos e indivíduos públicos sustentaram ideologias anticristã, em nome da laicidade do estado e tais concepções se mostram nas seguintes áreas:
a)      A negação da religião:
A Religião ficou de fora nas discussões políticas, pois, é tratada como mera opinião e não como conhecimento verdadeiro; na falsa concepção de que para que o estado mantenha sua laicidade é necessário impedir que discursos religiosos ou homem que se declaram abertamente cristãos assumam a liderança do estado. Pearcy nos lembra que no pensamento atual “A religião não é considerada uma verdade objetiva à qual nos submetemos, mas trata-se de mera questão de gosto pessoal que escolhemos.[10] Por isso, há tanto empenho de uma parcela da política moderna em varrer toda noção religiosa ou cristã de nossa sociedade.
b)      A queda dos valores morais:
O relativismo tornou-se o padrão no joguete político de nossos dias. O relativismo é aquela postura de que não há mais valores absolutos. Nós assistimos todos os dias notícias de corrupção, de desvio de verbas para enriquecimento ilícitos, vemos que os líderes partidários dizem: “é ele (a) roubou, mas foi por uma causa nobre (pagar o bolsa família, o pronatec, a merenda escolar) e assim, vivemos uma onda onde se é lícito roubar – não há mais valores morais em nossa sociedade e especialmente na classe política atual, mas essa queda e quebra dos valores morais se vê na defesa específicas de alguns assuntos que são lemas e metas a serem alcanças nos planos de governo:
  1. Abordo: o infatícidio tem sido apoiado e defendido por partidos políticos em nosso país e que nós, como cristãos temos oferecido defesa deliberada quando votamos e apoiamos o plano de governo apresentado, ou mesmo, quando sabemos que nas coligações há partidos que tem esse projeto para a população. A Bíblia é claramente contra o Aborto em Êxodo 20.13. O mandamento de não matar é claro a este respeito.
  2. A promoção do Homossexualismo: Em nossos tempos atuais a laicidade do estado tem servido de base para rejeitar o cristianismo e juntamente com ele os valores morais judaico-cristão do mundo do ocidente. E se tem advogado a defesa do homossexualismo criando leis tais como a “homofobia” dizendo que devemos aceitar e até procurando impor à cultura gay na nossa sociedade, por exemplo, o quite gay que é um projeto educacional para as escolas do estado. O projeto é remover a noção da hetornomatividade e implanta a ideia de homoafetividade.
  3. A remoção da legítima defesa: Os partidos políticos (especialmente os de esquerda), baseados na falsa concepção, da relação entre Igreja e Estado, asseguram que apenas o estado pode proteger e tem o direito de proteger o cidadão. Então, removeu-se o direito de defesa do brasileiro, contra a vontade do mesmo, e hoje vivemos o caos da insegurança.
c. A desintegração Familiar:
A terceira trincheira da batalha cultural e política que como reformados temos travado, e que parece que estamos perdendo, é a desintegração familiar. Cada dia que passa vivemos e vemos a queda da família no cenário político de nosso país. Como vemos a família ser desintegrada?
1.      A criação da lei da palmada: Os pais são proibidos de disciplinar seus filhos
2.      A doutrinação na escola pública: Hoje vemos as nossas crianças sendo transformadas em defensoras do sistema socialista e comunista, eles são expostos a doutrinação marxista ensinadas a dependerem do estado cada vez mais (a criação da escola de tempo integral é um exemplo claro) hoje há mais a ideia de mais estado e menos família.
3.      A ideologia de gênero: Na prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) tivemos uma questão afirmando que ninguém nasce homem ou mulher.
É isso que encontramos no nosso dia-a-dia no cenário político de nosso País. O povo escolhe seus políticos sem considerar estas coisas; nós pensamos que o nosso voto (sem contar que as urnas eletrônicas são fraudadas) não significa nada. Entretanto, se nós olharmos os nossos candidatos pelos pressupostos que eles sustentam será que teríamos a coragem de votar neles?







[1] WARFIELD, Benjamin B. The Works of Benjamin B. Warfield, vol. 5, Grand Rapis: Baker,2003, p. 354.
[2] BIÉLER, André. A força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Cultura Cristã, 1990, p.19.
[3] CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. [4.20.4] São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.454.
[4] CALVINO, João. As Pastorais. São Paulo: Editora Fiel, 2002, p.346.
[5] CALVINO, João. Romanos. São Paulo: Editora Parakletos, 2001, p.460.
[7] CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. [4.20.31] São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.480.
[8] CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, São Paulo: Editora cultura Cristã. Capítulo 23.
[9] PEARCY, Nancy. A Verdade Absoluta: Rio de Janeiro, CPAD, P. 34
[10] PEARCY, Nancy. A Verdade Absoluta: Rio de Janeiro, CPAD, P. 25.

terça-feira, 31 de maio de 2016

NOSSA INIMIGA, A ESCOLA DO ESTADO

NOSSA INIMIGA, A ESCOLA DO ESTADO*
John Cobin, Ph.D.
Não conhecer o nosso inimigo é algo precário, para dizer o mínimo. Achamo-nos em grave perigo quando nosso inimigo se encontra estabelecido de forma incógnita em nosso meio. Nosso inimigo usa, de forma efetiva, artifícios para se disfarçar como algo inofensivo ou mesmo benigno em um dado momento no tempo. Contudo, o terrível pesadelo social que é gerado é algo que se pode avaliar a longo prazo. Porque teríamos que esperar logo menos sagaz das forças que conduzem a escravidão?
Qual instituição brasileira, acima das demais, que tem feito muito para minar a liberdade e moralidade em nossa sociedade? Alguém poderia pensar nos grupos de ativistas gay, os meios de comunicações mais influentes, os grupos feministas de ação, a indústria da pornografia, ou inclusive a própria Receita Federal ou o Banco Central com sua taxa de juros. No entanto, apesar de mau que são essas instituições, não há instituição que por si mesma tenha produzido tanto dano generalizado e de larga duração para a sociedade brasileira como a escola do estado. Tokugawa Ieyasu (1526-1549) do Japão disse uma vez, “para chegar a conhecer o teu inimigo, primeiro deves tornar-te seu amigo, e uma vez que tenhas chegado a ser seu amigo, todas as suas defesas caem. Em seguida podes escolher o método mais adequado para realizar o seu desejo”. E este é precisamente o meio pelo qual nosso inimigo tem uma mão de ferro sobre nossa sociedade – bem em baixo de nossos narizes. Por outro lado, o estrategista militar e filósofo Chino Sun-Tzu (500 a.C) disse, “se conheces teu inimigo e te e conheces a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas”(A Arte da Guerra). Tomemos o seu conselho e nos demos a tarefa de conhecer o nosso inimigo, a escola do estado.
Desde seu inicio, o projeto da escola estatal tem utilizado extraordinárias táticas de subterfúgios para tratar de ocultar sua verdadeira agenda. Sob a aparência de prover uma educação tradicional as crianças são condicionadas a aceitar ideias erradas. O gasto com educação “pública” tem alcançado níveis record, porém os resultados acadêmicos em áreas como a leitura, a escrita e a aritmética (matemática) são péssimos. Mas, tem fracassado a escola do governo? Como tem apontado com profundidade meu companheiro colunista do Times Examiner Ben Braydon em duas colunas recentes a escola do estado tem sido, de fato, incrivelmente bem-sucedida. O ponto da “educação pública” não é meramente dar-lhes aos estudantes as ferramentas e o conhecimento básico que realmente necessitam para ter sucesso na vida. É doutrinar as crianças nos caminhos que se opõe a Deus e a liberdade. E quanto a este fim tem sido maravilhosamente bem-sucedida. Como apontou o Dr. Steven Yates em sua coluna desta semana do Times Examiner, o objetivo principal de uma escola do governo é doutrinar as crianças com princípios estadistas. Contrário a visão dos Fundadores Americanos, os estudantes aprendem que o estado em seu caráter  de estado tem de ser reverenciado e apreciado. Devem aprender a lutar por ele e a respeitar e defender seu nobre fundamento. Os estudantes também são inundados com princípios do Darwianismo, estilos “alternativos” de vida, duvidosas ideologias ambientalistas, socialismo e humanismo secular. Biblicamente falando o Dr. Yates está correto ao dizer que os pais têm que possuir o domínio sobre a educação de seus filhos – não o estado – e que os pais pecam ao submeter seus filhos à educação “pública”. Da mesma forma, nas últimas duas colunas no Times Examiner, Alan Melton opina que alguns pais enviam seus filhos à escola pública com o propósito de que “socializem”. Porém, esta atividade tem sido um fracasso abismal ao extremo de que uns 85% das crianças que estudam na escola pública e que provem de famílias cristãs terminam abandonando a fé. (Além de televisão e filmes, onde mais obter mais ideias ruins para seus filhos?) Na verdade, que grande tragédia! E não é nada menos pecaminoso que está envolvido na escola pública.
Os inimigos da liberdade têm imposto espalhando e disseminando seu programa escolar governamental. Ainda que muitas famílias cristãs têm sido afligidas por ela, muita gente ainda (de maneira surpreendente) não vê a escola pública como uma amaça. Em vez disso, e vista como um campo “missionário”, um lugar seguro para conseguir emprego, útil para a socialização das crianças, e uma alternativa acessível de educação (incluindo vantagens adicionais como equipes de esportes). O apóstolo Paulo encarrega aos cristãos a tarefa de “derrubar argumento e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus” (2ª Coríntios 10.5). De modo que, é apropriado que os Cristãos devam estar derrubando a escola do estado. Contudo, continuam apoiando-a. Satanás está atacando a Igreja e a liberdade em geral, porém, muitos cristãos ignoram qual é seu inimigo ou onde ele se encontra. Cristo advertiu que “mas, enquanto dormiam os homens, veio seu inimigo e semeou o joio entre o trigo, e se foi” (Mateus 13.25). Assim acontece com o mal da escola do estado, que tem semeado justamente embaixo de nossos narizes, e que agora floresce junto conosco. Que fúnebres são as possiblidades para a liberdade quando os cristãos defendem a escola pública cujo caminho é tão claramente instável! Trabalham para sua própria predição sem dar-se conta disto. De fato, pode ser que alguns nem sequer tenham se dado conta onde se tem sido travada a verdadeira batalha até o Dia do Juízo e o programa da escola estatal encontre seu lugar de descanso final no lago de fogo.
É triste que aqueles que dizem a verdade acerca da natureza e as consequências do sistema escolar do governo (os “críticos”) geralmente chegam a se tornar leviano nos círculos evangélicos. São proibidos de serem personalidade de rádio ou apenas são confinados ao ostracismo pelos seus amigos como “extremistas”, causa-se dano à igreja e a causa da liberdade quando tais campeões da verdade são silenciados ou desprezados, que vergonha! O povo de Deus rejeitando os mensageiros que lhes são enviados é um tema recorrente na história. Que Deus nos ajude a conhecer nosso inimigo!
Copyright © Maio - 2016
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* Tradutor: Rev. João Ricardo Ferreira de França. Ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Presbiteriana do Brasil. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana de Riachão do Jacuípe – BA. Leia o artigo original:  

quarta-feira, 27 de abril de 2016

A EFICÁCIA DO BATISMO

III – A EFICÁCIA DO BATISMO.
Pr. João Ricardo Ferreira de França.
            Compete-nos tratar também deste tema que se relaciona com o Batismo Cristão que é o assunto da eficácia deste sacramento. Isto é importante porque na tradição romanista o sacramento do Batismo possui conotações regeneradoras, ou seja, para o catolicismo romano o batismo opera a salvação.
            Outra preocupação que nos faz ocupar deste assunto é fato de que na tradição evangélica-protestante há uma tendência ao rebatismo como padrão doutrinário ou mesmo como uma distinção entre os que seguem a doutrina ortodoxa e os que são heterodoxos ou até mesmo os que são tidos como heréticos.
3.1 – A Eficácia dos Sacramentos e a Confissão de Fé de Westminster:
            Qual é a validade dos sacramentos na vida cristã? Qualquer pessoa que ministrar os sacramentos deve ser aceito como válido? Geralmente a resposta que nós oferecemos a estas duas questões é que a validade do batismo e a sua eficácia depende de quem realizou o sacramento; entretanto a Confissão de Fé de Westmister apresenta uma resposta interessante:
III. A graça significada nos sacramentos ou por meio deles, quando devidamente usados, não é conferida por qualquer, poder neles existentes; nem a eficácia deles depende da piedade ou intenção de quem os administra, mas da obra do Espírito e da palavra da instituição, a qual, juntamente com o preceito que autoriza o uso deles, contém uma promessa de benefício aos que dignamente o recebem.[1]
            A declaração da Confissão de fé neste particular assegura que a validade dos sacramentos não é dependente da piedade (santidade) ou da intenção (pressuposto teológico) daquele que o administra. Isto se aplica aos dois sacramentos ordenados e estabelecidos pelo Senhor.

3.2 – A Validade e Eficácia do Batismo:

            A doutrina da comunhão dos santos é expressa no credo apostólico “Creio na Comunhão dos Santos” – geralmente se entende aqui uma comunhão mística e também a santa ceia como sendo a forma visível desta comunhão, pois, ela expressa a unidade da Igreja.
            Mas, quando estudamos a Carta de Paulo aos Efésios encontramos Paulo dizendo: “Há uma só fé, um só batismo” (Efésios 4.8). Será que a doutrina do sacramento do Batismo expressa exatamente a unidade? A unidade da fé expressa pelo Batismo tem deixado de ser analisado; e tem-se colocado para a Igreja uma postura de sermos negligente a este particular.
            Quando lemos esta expressão Paulina nos vem a mente a prática do rebatismo dentro da tradição evangélica-protestante. Está correto a prática do rebatismo? Quando presbiterianos, congregacionais, luteranos, anglicanos e reformados são recebidos em outras comunidades evangélicas são automaticamente constrangidos a rebatizar-se. Será que isso é válido?
            A Confissão de fé de Westminster quando toca nesta temática nos traz a lume uma resposta importante: “VII. O sacramento do batismo deve ser administrado uma só vez a uma mesma pessoa[2]
            A Confissão de Fé assegura-nos que o sacramento do Batismo deve ser administrado uma só vez sobre a mesma pessoa. Esta posição adotada é uma forma de combater os anabatistas que não aceitavam o pedobatismo[3]; bem como aqueles que julgavam o modo de batizar por aspersão errado e procuravam rebatizar por imersão. A Confissão de fé usa o texto de Tito 3.5 como fundamento para a sua posição.
            Mas, a grande questão é: Quanto aos que são oriundos do Catolicismo Romano, eles devem ser rebatizados? O tema em si mesmo é melindroso, polêmico e incômodo, pois, o presbiterianismo brasileiro é um dos poucos no mundo a rebatizar católicos quando estes se convertem ao protestantismo.

3.3 – Os Reformadores e a Validade do Batismo na tradição cristã:
            Devemos considerar a posição dos principais reformadores quanto a questão da validade do Batismo, como eles de fato encaravam o sacramento para entendermos a problemática a respeito deste polêmico assunto.
            Qual era a concepção dos primeiros reformadores a respeito da validade eficácia do Batismo como sacramento estabelecido por Cristo Jesus na Igreja? A sabedoria da igreja (ou ignorância como alguns poderão alegar) deve ser sempre ouvida quanto a este assunto, a catolicidade da Igreja reclama ser ouvida neste particular, inclusive na tradição Reformada.
3.3.1 – Martinho Lutero:

            Há muitos que asseguram que a validade do batismo está vinculado a quem administra: por exemplo, se for o batismo efetivado pelo pastor (evangélico ou protestante) este batismo deve ser aceito como válido, mas se for realizado por um sacerdote católico romano deve ser rejeitado.
Curioso é que este pensamento nunca esteve presente na mente dos primeiros reformadores, incluindo Matinho Lutero que afirma que o ser humano batiza e não batiza, então ele explica: “batiza, porque efetua a obra ao submergir o batizando. Não batiza, já que nesta obra não age por sua própria autoridade, mas representa Deus[...]” e ainda informa que “o batismo que recebemos por mãos de um ser humano, não é do ser humano, mas de Cristo e de Deus”.[4]
            A validade e eficácia do sacramento batismal não se vincula a intenção ou a pessoa quem o administra. Uma vez que este sacramento é outorgado por Deus à igreja por meio de um mandato divino, e o que o torna válido é invocação do Deus trino para isso, então, não demérito no sacramente por causa de quem o administra.
3.3.2 – Ulrich Zwínglio:
            Um dos reformadores pouco conhecido no Brasil chama-se Zwínglio ou Zuínglio foi reformador na cidade de Zurique na Suiça, ele sustentara que o batismo e a santa ceia não eram meios de graça, para ele estes sacramentos nada carregavam de redentivo.[5]. Para este reformador o sacramento do Batismo era símbolo da unidade, por isso, admite um só batismo.[6]   
3.3.3 – João Calvino:
            O reformador francês que residiu em Genebra e naquela cidade desenvolveu o ministério da Palavra. Elaborou uma teologia dos sacramentos que se faz presente em todas as confissões de fé reformadas incluindo os Padrões de Westminster (padrões doutrinários na Igreja Presbiteriana).
            Calvino segue a definição agostiniana para os sacramentos “uma forma visível de uma graça invisível”[7]O reformador de Genebra chama o sacramento do Batismo de uma “marca de nosso cristianismo” e do “sinal no qual somos recebidos na Igreja, para que enxertados em Cristo sejamos contados entre os filhos de Deus”.[8]
            Quanto ao tema da validade e eficácia do Batismo Calvino revela que tanto um quanto o outro não depende de quem celebra o sacramento, porque devemos receber o batismo como “se o recebêssemos das mãos do próprio Deus[...] pode-se deduzir daqui de que nem se tira, nem se acrescenta nada ao Sacramento a causa da dignidade de quem o administra [...] quando se envia uma carta não se importe quem seja o portador”.[9]
A tradição cristã Reformada nos deixa o legado de que o batismo tem a sua validade eficácia não por causa da intenção de quem administra. Isto também é assegurado na Confissão de Fé de Westmisnter quando trata dos sacramentos: “[...]; nem a eficácia deles depende da piedade ou intenção de quem os administra, mas da obra do Espírito e da palavra da instituição, a qual, juntamente com o preceito que autoriza o uso deles, contém uma promessa de benefício aos que dignamente o recebem. Ref. Rom. 2:28-29; I Ped. 3:21; Mat. 3:11; I Cor. 12:13; Luc. 22:19-20; I Cor. 11:26.”
O que nós aprendemos aqui sobre a validade e a eficácia do sacramento do Batismo? Que para “a validade do sacramento é essencial que seja ministrado ‘em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’”.[10] Ou seja, quando lemos Mateus 28.19 temos alí o designativo de Deus que dá sentido e validade ao Bastismo.



[1] Confissão de Fé Capítulo XVII seção IIII.
[2] Confissão de Fé Capítulo XVIII seção 7
[3] Pedobatismo = ao batismo dos filhos dos crentes recém-nascidos.
[4] LUTERO, Matinho.  Do Cativeiro Babilônico da Igreja In: Obras Selecionadas, Volume II, p. 379.
[5] TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão, 1998, p.237.
[6] Apud, KLEIN, Carlos Jeremias. Batismo e Rebatismo  nas mais Diversas Tradições Cristãs. São Paulo: fonte Editorial, 2010, p.43-44.
[7] CALVINO, Juan. Institución de la Religón Cristiana. Barcelona: Felire, 1999, p. 1007-1008
[8] Ibid, p. 1028.
[9] Ibid, p. 1037.                                   
[10] HODGE, A.A. Esboços de Teológia. Tradução: F.J.C.S - Lisboa. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (PES), 2001, p.846