sexta-feira, 5 de maio de 2017

História da Teologia Bíblica do Antigo Testamento (I)

 CENTRO DE ESTUDOS PRESBITERIANO
CURSO DE TEOLOGIA BÍBLICA.
AULA 01: História da Teologia Bíblica do Antigo Testamento (I)
Prof.  Rev. João Ricardo Ferreira de França

INTRODUÇÃO:

            A Teologia Bíblica é uma disciplina que hoje tem gozado de uma certa dose de descobrimento nos centros acadêmicos, temos visto o surgimento de novos teólogos bíblicos na atualidade; o nosso curso aqui vai se concentrar em compreender esta disciplina e sua atualidade na vida da igreja de hoje.
                                                                                                         
I – DEFINIÇÃO DE TEOLOGIA BÍBLICA:

Podemos definir esta disciplina como “aquele ramo da teologia exegética que lida com o processo da autorevelação de Deus registrada na Bíblia.”[1] . Outro erudito nos apresenta uma visão basilar sobre a Teologia Bíblica: A teologia bíblica é basicamente uma disciplina descritiva .[2] .

Outro escritor, sendo mais positivo, nos diz que

A Teologia Bíblica define-se basicamente a partir de sua distinção em relação à Teologia Sistemática e à História das Religiões. A proposta fundamental da Teologia Bíblica é construir uma teologia a partir das Escrituras, de modo indutivo, sem depender das categorias definidas pela Sistemática ou pela dogmática.[3].

Hasel nos lembra que “o termo ‘teologia bíblica’ tem duplo sentido: (1) pode caracterizar a teologia que está arraigada no ensinamento das Escrituras e nelas fundamentada ou (2) pode caracterizar a teologia inerente a própria Bíblia”[4]

II – A HISTÓRIA DA TEOLOGIA BÍBLICA:
            A história da Teologia Bíblica é bem complexa. Esta complexidade decorre de como a disciplina se desenvolveu dentro da história.

2. 1 – Teologia Bíblica: Uma Disciplina em Crise?
           
            Gehard F. Hasel inicia a sua obra descritiva e histórica sobre a Teologia do Antigo Testamento declarando que a mesma “encontra-se, inegavelmente, em crise”[5] e a razão para esta declaração está no fato da proliferação de obras de Teologia do Antigo Testamento que oferecem uma pluralidade temática sem chegar ao consenso. Em outras palavras para Hasel a crise da Teologia Bíblica veterotestamentária está no fato de não haver entre os teólogos um Mitte comum a todos.
            A suposta crise evocada por Hasel provém da guerra contra a unidade das Escrituras. Como bem nos lembra Kaiser: “A ênfase na diversidade dentro da Escritura é de tal modo generalizada hoje em dia que, para a maior parte dos estudiosos da Bíblia, qualquer outra perspectiva não condiz com o estado atual de desenvolvimento dessa disciplina”.[6]
            Brevard Childs apresenta-nos que a Teologia Bíblica tem os seus progressos bem como os seus fracassos em seu tom pessimista alega que o movimento de Teologia Bíblica estava chegando ao fim[7], sua obra é bem sugestiva Biblical Theology in Crisis [Teologia Bíblica em Crise] declara que pela multiplicade de centros unificadores é impossível chegar a um consenso quanto ao Mitte da Teologia Bíblica do Antigo Testamento.
            Poderíamos concordar com a proposição enunciada por Hasel, mas devemos rejeitá-la completamente, pois, a advogada crise se instala quando não se sustenta a unidade das escrituras. Vale salientar que tal crise na disciplina deve-se aos eruditos de orientação liberal[8] que não creem nas Escrituras como revelação de Deus daí a multiplicidade de ideias sobre a Teologia do Antigo Testamento. Lembremos que “A teologia bíblica lida com a revelação como sendo atividade divina, não o produto final dessa atividade. ”[9] A discussão pelo centro unificador é evidente, mas isso não legitima a ideia de que a Teologia Bíblica esteja em crise. Também devemos levar em consideração que essa “disciplina foi criada recentemente”[10] como bem nos lembra Von Rad ao dizer que trata-se de “uma ciência jovem, uma das mais jovens dentre as ciências bíblicas”.[11]e, por isso, há esse ar de incerteza quanto a mesma.

2.2 – Breve Cronologia das Principais Teologias Bíblicas:

1930-1990[12]
A Primeira Onda
1933                Ernst Sellin, Old Testament Theology on a History-of-Religion Basis Theology
1933-39          Walther Eichrodt, Theology of the Old Testament
1935                Ludwig Kohler, Old Testament Theology
1938                Wilhelm Moller and Hans Moller, Biblical Theology of the Old Testament in Its Development of Salvation History
1940                Paul Heinisch, Theology of the Old Testament
1946                Millar Burrows, An Outline of Biblical Theology
1948                Albert Gelin, The Key Concepts of the Old Testament
1948                Geerhardus Vos, Biblical Theology
A Segunda Onda
1949                Otto Baab, The Theology of the Old Testament
1949                Theodorus C. Vriezen, An Outline of Old Testament Theology
1950                Robert C. Dentan, Preface of Old Testament Theology
1950                Otto Procksch, Theology of the Old Testament
1952                George Ernest Wright, O Deus que Age
1954-56          Paul van Imschoot, Theology of the Old Testament
1955                Edmond Jacob, Theology of the Old Testament
1956                H. H. Rowley, A Fé de Israel (Em Português)
1957-61          Gerhard von Rad, Teologia do Antigo Testamento
1959                George Knight, A Christian Theology of the Old Testament
1961                James Muilenburg, The Way of Israel
1962                J. Barton Payne, The Theology of the Older Testament
1962-65          Abraham J. Heschel, Theology of Ancient Judaism
1968                Werner H. Schmidt, The Faith of the Old Testament: A History
A Terceira Onda
1970                Maximiliano Garcia Cordero, Theology of the Bible: Old Testament
1971                Chester K Lehman, Biblical Theology: Old Testament
1972                Alfons Deissler, O Anúncio Do Antigo Testamento
1972                Georg Fohrer, Estruturas Fundamentais do Antigo Testamento, Paulus, 1982
1972                Walther Zimmerli, Old Testament Theology in Outline
1974                John L. McKenzie, A Theology of the Old Testament
1976                David Hinson, Theology of the Old Testament
1978                Ronald E. Clements, Old Testament Theology: A Fresh Approach
1978                Walter C. Kaiser Jr., Teologia do Antigo Testamento
1978                Samuel L. Terrien, The Elusive Presence: Toward a New Biblical Theology
1978                Claus Westermann, Elements of Old Testament Theology (Em port.)
1979                William A. Dyrness, Themes in Old Testament Theology
1981                Elmer A. Martens, God 's Design: A Focus on Old Testament Theology
1986                Brevard S. Childs, Old Testament Theology in a Canonical Context
1986                Paul D. Hanson, The People Called: The Growth of Community in the Bible[13]
III – OS PRIMÓRDIOS DA TEOLOGIA BÍBLICA:

            Quais são os passos embrionários de uma Teologia Bíblica? Precisamos saber onde iniciou-se o estudo da Teologia Bíblica. Os eruditos datam no período da Reforma como sendo o princípio da Teologia Bíblica; entretanto, outros advogam que tenha sido no famoso discurso de J. Gabler em 1797 no qual ele faz uma nítida distinção entre a Teologia Dogmática / sistemática e a Teologia derivada do arranjo natural da Bíblia.[14]
3.1 – Da Reforma ao Iluminismo:
            O desenvolvimento do lema da Reforma Protestante “Sola Scriptura” preparou “terreno para o desenvolvimento subsequente da teologia bíblica”[15] Na verdade muitos estudiosos advogam que este princípio “lançou a semente para uma teologia exegética, buscando livrar-se da dogmática eclesiástica”.[16]mas não foram os reformadores que criaram o termo “Teologia Bíblica” e nem deram o sentido que foi aplicado posteriormente; entretanto, a abordagem exegética seguida do método histórico-gramatical, aprimorada pelos reformadores tornou-se uma força propulsora à Teologia Bíblica. Lembremos que “os comentários de Calvino são os primeiros exemplos de uma exegese bíblica histórico-gramatical, que estabelecia os primórdios da futura Teologia Bíblica”[17]
            Lutero não conseguiu desenvolveu uma Teologia Bíblica que permeasse todo o escopo da revelação divina.[18] Hasel ainda nos lembra que os primórdios de uma teologia bíblica aproximada daquilo conhecemos hoje pode ser encontrada em dois representantes da Reforma Radical[19]. Neste período a Teologia Bíblica era tida como auxiliar da “teologia dogmática” ou sistemática sendo meramente uma disciplina para os “dicta probantia”[textos provas] para os enunciados da dogmática.[20]Mas, foi no pietismo alemão que a Bíblia voltou a dominar o cenário dando um novo rumo a Teologia Bíblica[21]. Isto porque Jacob Spencer procura combater “o escolasticismo protestante munido da teologia bíblica”.[22] Sendo em 1745 o início da libertação desta disciplina em relação à Teologia Sistemática.
3.2 – O Período do Iluminismo
            Neste período houve um novo ímpeto nos estudos bíblicos. Pois, foi precisamente neste período em que a razão dominou os estudos bíblicos[23], assim, o racionalismo se levantou contra tudo aquilo que era sobrenatural e contrário a razão. Esta perspectiva dominou os estudos bíblicos. Aliado a esta proposição surgiu o novo método de interpretação conhecido como Método Histórico-Crítico.
            Este método é abrigado dentro do Liberalismo Teológico e das correntes dele derivado. A abordagem deste método é de rejeição das intervenções sobrenaturais[24] divinas conforme apresentada nas Escrituras.
            Barton nos lembra que o “criticismo histórico, também conhecido como método histórico-crítico foi dominante no estudo acadêmico da bíblia desde a metade do século dezenove até a geração passada”.[25] Hasel ressalta que neste período “A razão humana tornou-se o padrão definitivo e a fonte principal de conhecimento, isto e, a autoridade da Bíblia como registro infalível de revelação divina fora rejeitada.”[26]
            Sabemos que é a partir desta perspectiva que a Teologa Bíblica entra em crise posteriormente, pois, a pressuposição básica dos eruditos liberais é que não nada de sobrenatural, e por fim, o eixo unificador das Escrituras é abandonado. Os “liberais apontam para uma pluralidade de teologias em oposição e perguntam se algum dia será possível afirmar que chegamos a um conjunto definitivo de verdades doutrinárias”[27].
            Mas, é precisamente neste período em que a Teologia Bíblica se distancia da Teologia sistemática significativamente mediante o discurso proferido por J.Gabler, conforme já mencionamos. Essa distinção deu-se no dia 30 de Março de 1787 na universidade Altdorf. “Esse ano marcou para a teologia bíblica o início de seu papel de disciplina exclusivamente histórica, totalmente independente da dogmática. ”[28]
3.3 – Do Período do Iluminismo até a Dialética:
            A teologia bíblica sucumbiu as filosofias existentes neste período. Aqui nasce o “método da história das religiões” o qual denomina a Teologia Bíblica de forma marcante neste período. A Teologia Bíblica moderna foi profundamente influenciada pelas perspectivas filosóficas de Hegel (1770-1831)[29], o qual acreditava que o progresso histórico trazia unidade para toda a criação. A história continha a chave para a compreensão de toda a realidade.[30]









REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
  1. ALEXANDER, T. Desmond; ROSNER, Brian S. Novo Dicionário de Teologia Bíblica. Tradução: William Lane, São Paulo: Vida, 2009.
  2. ANGLADA, Paulo. Introdução à Hermenêutica Reforma – Correntes Históricas, Pressuposições, princípios e Métodos Linguísticos. Ananindeua: Knox Publicações, 2006.
  3. ARRUDA, Sebastião. Teologia Bíbica – Apostila do Seminário Presbiteriano Conservador. São Paulo: 2006.
  4. BARTON, John. Historical-Critical approaches. In: BARTON, John (ed) Biblical Interpretation. New York: Cambridge Press, 1998.
  5. CARSON, Donald A. Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática? – Unidade e Diversidade no Novo Testamento, Tradutor: Carlos Osvaldo Pinto, São Paulo: Vida Nova, 2001.
  6. CHILDS, Brevard. Biblical Theology in Crisis (Filadelfia, 1970).
  7. GRONINGEN, Gerard Van. Criação e Consumação – Reino, Aliança e o Mediador. Tradução: Denise Maister. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
  8. HASEL, Gehard F. Teologia do Antigo Testamento – Questões Fundamentais no debate Atual. Rio de Janeiro: JUERP, 1987.
  9. KAISER JR, Walter C. O Plano Promessa de Deus – Teologia Bíblica do Antigo e Novo Testamento. Tradução: Gordon Chown; A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2011.
  10. OSBORNE, Grent. 3 Perguntas Cruciais sobre a Bíblia. Tradução: Caio Peres. São Paulo: Vida Nova, 2014.
  11. OSBORNE, Grent. A Espiral Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, - traducao Daniel de Oliveira, Robinson N. Malkomes, Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2009.
  12. RAD. G. Von. Teologia do Antigo Testamento – volumes 1e 2. Tradutor: Francisco Catão. São Paulo: ASTE & Targumim, 2006.
  13. SAYÃO, Luiz. Comentário Rota 66 – Novo Testamento: Manual de Apoio do comentário Bíblico em Áudio. São Paulo: Rádio Trans Mundial, 2010, p.11
  14. VOS, Geehardus. Teologia do Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.




[1]VOS, Geehardus. Teologia do Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p.16.
[2] LADD, Georg Eldon. Teologia do Novo Testamento. Tradução: Dagmar Ribas Júnior. São Paulo: Vida Nova, Hagnos,2003, p.38
[3] SAYÃO, Luiz In: CARSON, Donald A. Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática? – Unidade e Diversidade no Novo Testamento, Tradutor: Carlos Osvaldo Pinto, São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 7
[4] HASEL, Gehard F. Teologia do Antigo Testamento – Questões Fundamentais no debate Atual. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p.13
[5] HASEL, Gehard F. Teologia do Antigo Testamento – Questões Fundamentais no debate Atual. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p.5.
[6] KAISER JR, Walter C. O Plano Promessa de Deus – Teologia Bíblica do Antigo e Novo Testamento. Tradução: Gordon Chown; A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2011,  p.13
[7] CHILDS, Brevard. Biblical Theology in Crisis (Filadelfia, 1970), p. 85 e 91
[8]GRONINGEN, Gerard Van. Criação e Consumação – Reino, Aliança e o Mediador. Tradução: Denise Maister. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 9 ver a nota 2.
[9] VOS, Geehardus. Teologia do Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p.16.

[10] OSBORNE, Grent. A Espiral Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, - traducao Daniel de Oliveira, Robinson N. Malkomes, Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 443
[11] RAD, Gerhard Von. Teologia do Antigo Testamento. Tradução: Francisco Catão. São Paulo: Aste; Targumin, 2006, p.13.
[12] Ollenburger, Martens & Hasel, The Flowering,  56, com acréscimos.
[13] ARRUDA, Sebastião. Teologia Bíbica – Apostila do Seminário Presbiteriano Conservador. São Paulo: 2006, p. 13 [obra não pubicada]
[14] ALEXANDER, T. Desmond; ROSNER, Brian S. Novo Dicionário de Teologia Bíblica. Tradução: William Lane, São Paulo: Vida, 2009, p.15
[15] HASEL, Gehard F. Teologia do Antigo Testamento – Questões Fundamentais no debate Atual. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p.13
[16] SAYÃO, Luiz. Comentário Rota 66 – Novo Testamento: Manual de Apoio do comentário Bíblico em Áudio. São Paulo: Rádio Trans Mundial, 2010, p.11
[17] Ibid, p.12.
[18]HASEL, Gehard F. Teologia do Antigo Testamento – Questões Fundamentais no debate Atual. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p.14
[19] Idem
[20] Idem
[21] Idem
[22] Ibid, p.15
[23] Idem
[24] ANGLADA, Paulo. Introdução à Hermenêutica Reforma – Correntes Históricas, Pressuposições, princípios e Métodos Linguísticos. Ananindeua: Knox Publicações, 2006, p. 58.
[25] BARTON, John. Historical-Critical approaches. In: BARTON, John (ed) Biblical Interpretation. New York: Cambridge Press, 1998, p. 9.
[26] HASEL, Gehard F. Teologia do Antigo Testamento – Questões Fundamentais no debate Atual. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p.15
[27] OSBORNE, Grent. 3 Perguntas Cruciais sobre a Bíblia. Tradução: Caio Peres. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 118
[28] Ibid, p.16
[29] Apesar de ser possível traçar as origens do movimento moderno da Teologia Bíblica até o discurso de Gabler em Altdorf no ano de 1787, seu desenvolvimento foi grandemente influenciado pela filosofia de Hegel. Ver W.Kümmel, The New History of the Investigation of its Problems (traduzido por S.Gilmour e H.Kee; Nova York: Abingdon, 1972), 98,120,132; E.P.Clowney, Preaching and Biblical Theology (Grand Rapids: Eerdmans,1961),11; Interpreter’s Dictionary of the Bible s.v. “Biblical Criticism, History of”.
[30] Nas palavras de Hegel : “O espírito e o transcorrer de seu desenvolvimento são a verdadeira substância da história”. G.W.F. Hegel, Lectures of the Philosophical of World History (traduzido por H.B. Nisbet; Londres: New York, 1975), p 44.

sábado, 25 de março de 2017

ATOS DOS APÓSTOLOS - Questões Introdutórias ao Livro.

Módulo I – O Pano de Fundo  de Atos dos Apóstolos
Aula 01 – Questões Introdutórias ao Livro.

ATOS DOS APÓSTOLOS
Rev. João França

INTRODUÇÃO:

            O livro de Atos dos Apóstolos narra os primeiros trinta anos após a ascensão de Jesus ao Pai. Um livro riquíssimo no qual devemos mergulhar para o entendermos.  Este é um capítulo inspirador da História da Igreja. Na verdade, o Livro que nos propomos estudar neste curso é a primeira história eclesiástica neotestamentária[1].
            Este livro trata de modo particular como viveu a Igreja logo após a entronização[2] de Cristo! O título atribuído ao livro já suscitou na vida da igreja algum certo debate, os que preferem o título conforme se encontra em nossas bíblias “PRAXEIS APOSTOLWN” (Praxeis Apostolon) ou “Práticas dos Apóstolos” tem um apoio na Igreja Primitiva[3], outros tem sugerido que o título do livro é infeliz e que por isso deveria chamar-se Atos do Espírito Santo.[4]Mas, certamente falta evidências suficientes para isto. Devemos considerar Atos como a continuação da obra de Cristo Jesus por meio dos apóstolos como o verso de abertura deste livro parece nos indicar: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar” e prossegue no verso seguinte apoiando essa pressuposição básica “até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas.”.

I – QUESTÕES INTRODUTÓRIAS (AUTORIA):
            O livro de Atos dos Apóstolos é resultado da inspiração do Espírito Santo sobre a vida de seu autor. É claro que o autor primeiro deste livro bíblico é Deus. Mas, sua inspiração divina não deve distrair a nossa atenção do autor humano. A tradição eclesiástica (a tradição da igreja) tem atribuído a autoria deste livro a Lucas.
Mas, será que tal tradição se sustenta? Será que podemos provar que Lucas tenha escrito o livro de Atos? Para isso faremos três importantes procedimentos: 1. Faremos uma comparação entre Atos e o Evangelho; 2. Analisaremos a História da Igreja Primitiva; e por fim, 3. Olharemos para o restante do Novo Testamento para ver se existe alguma evidência da autoria lucana deste livro.
  1. O EVANGELHO DE LUCAS COMPARADO COM ATOS:
Nosso trabalho se ocupará agora de uma comparação entre os dois livros neotestamentários. E quando procedemos com a comparação surgem dois tipos de evidências importantes que sugerem com muita força que uma só pessoa escreveu ambos os livros. Tais evidências são classificas de 1. Explícita (aquela que está claramente indicando que é o mesmo autor); 2. Implícita (aquela que sugere a autoria comum dentro do corpo textual), vejamos:
  1. Evidências Explícitas:
Em Atos 1.1 nós lemos as seguintes palavras: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar”
Aqui o escritor do livro fala de “seu primeiro livro”, dando a entender que Atos é faz parte de uma obra em dois volumes. Também somos informados que ele escreveu o livro destinado a uma pessoa de nome Teófilo. Agora vejamos o prólogo de Lucas 1.1-4:
Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído.

            Então, nesta simples comparação podemos observar que o livro de Atos dos Apóstolos trata-se de um segundo tomo de uma obra única. Kistemaker mais uma vez é elucidativo neste aspecto:
O Evangelho de Lucas e Atos estão estreitamente relacionados devido à dedicatória desses dois livros a Teófilo (Lc 1.3; At 1.1). Casualmente, o tratamento excelentíssimo Teófilo parece inferir que este pertencia a uma alta classe social (comparem-se 23.26; 24.3; 26.25). E ainda, o versículo introdutório de Atos (1.1) revela que esse é o segundo volume que Lucas escreveu e uma continuação do primeiro (o Evangelho).[5]

Vale salientar que tanto “Lucas quanto Atos são anônimos, no sentido estrito da palavra”[6], por isso, se faz necessário determinarmos o autor de ambas as obras, mas pelo que as evidências nos apresentam apenas um autor escreveu estes dois livros.

  1. Evidências Implícitas:
Além das evidências explícitas da autoria de Lucas para Atos dos Apóstolos encontramos muitos escritores que reconhecem essa similaridade na obra Atos-Lucas. Conforme nós percebemos em Lucas 1.1-4 o autor se esforçou em apresentar um relato ordenado das coisas como ocorreram. O livro de Atos também segue basicamente a mesma estrutura. Há semelhanças entre os livros, entre as quais destacamos:
a.       Eles se desenvolvem em estilo episódio.
b.      Há temas paralelos em ambos os livros.
c.       Também há expectativas no livro de Lucas que só se cumprem em Atos: “porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos: luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel.” Lucas 2.30-32.
O ministério de Jesus, segundo o evangelho de Lucas, explica a salvação e a promessa à Israel. Mas só em Atos vemos a salvação de Deus que serve em formas significativas como uma luz para revelação aos gentios.
  1. O TESTEMUNHO DA IGREJA PRIMITIVA DA AUTORIA LUCANA:
Desde o quarto século a igreja tem sempre reconhecido que Lucas é o autor de Atos-Lucas. Analisaremos isso observando os manuscritos neotestamentários; bem como, o testemunho epistolar dos pais da igreja.
  1. Os Manuscritos:

Nos anos de 1952 foi encontrado o famoso manuscrito conhecido como p75 (Papiro 75) ele é datado do ano 175-200 d.C. Este manuscrito possui o escrito que conhecemos como o Evangelho de Lucas e no final deste escrito encontramos a seguinte expressão: EUAGGELION KATA LOUKAN (EUANGELION KATA LOUKAN – O Evangelho Segundo Lucas) este manuscrito certamente nos indica que o terceiro evangelho foi escrito por Lucas e que por consequência também ele é o autor do livro de Atos.
  1. Os Escritos pós-apostólicos:
As evidencias externas apontam para que Lucas tenha escrito Lucas-Atos é bastante forte, conforme vemos nos informa Carson[7]; pois, o fragmento Muratoriano datado por volta de 170 a 190 d.C. coloca na sua lista dos livros do Novo Testamento Lucas como autor de Atos dos Apóstolos; Irineu na sua obra contra as heresias documenta este fato da autoria de Lucas para Atos. E as palavras do manuscrito antimarcionistas em 160-180 são esclarecedoras:

            “Lucas é sírio, natural de Antioquia, por profissão um médico. Foi discípulo dos apóstolos e mais tarde acompanhou Paulo até o seu martírio. Serviu ao Senhor sem distrações, sem esposa, sem filhos. À idade de 84 anos adormeceu na Beócia, cheio do Espírito Santo”[8]


            Outro personagem da História da Igreja que confirma ser Lucas o autor de Atos é Eusébio de Cesárea em sua História Eclesiástica: “Lucas[...]fez menção dos censos em Atos”.

  1. O NOVO TESTAMENTO E BUSCA DO AUTOR DE ATOS DOS APÓSTOLOS.

Agora precisamos olhar para o Novo Testamento e investigar se o mesmo apresenta alguma indicação de que o Autor de Atos seja Lucas.
  1. Pistas da autoria no Novo Testamento:
Vale salientar mais uma vez que tanto o Evangelho de Lucas quanto o livro de Atos são anônimos e que não tem indicação alguma de sua autoria. Notamos no capítulo 1.3 do Evangelho Lucano a seguinte declaração:
igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem,”
Vemos aqui que ele não cita seu próprio nome. Mas, uma coisa é certa Teófilo certamente o conhecia muito bem. Esta questão da identificação da autoria não foi um problema para Teófilo, mas tem suscitado um debate longo para nós. Mas, o Novo Testamento nos fala mais sobre o nosso autor:
1º Ele não é um apóstolo:
“Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram,  2 conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares
            Quando o autor diz “conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas” está informando que ele não fora uma testemunha ocular de tais fatos, logo não era um apóstolo.
2º Tanto Atos quanto o Evangelho partilham de “semelhanças no estilo e na linguagem e compartilham de preferências teológicas”[9] F.F. Bruce nos apresenta algumas dessas preferências: “Sentimentos católicos (i.e. universais), interesse pelos gentios, importância às mulheres, tendências apologéticas semelhantes, aparições do Cristo ressurreto limitadas à Judéia e o julgamento de Cristo perante Herodes Antipas[10]
  1. Lucas e as Informações sobre ele:
 O autor é alguém muito bem-educado o teólogo Barclay nos lembra:
Embora o Livro não diga, desde os primeiros tempos se sustentou que Lucas é seu autor. Sabemos muito pouco a respeito de Lucas; só há três referências a ele no Novo Testamento (Colossenses 4:14; Filemom 24; 2 Timóteo 4:11). Estas referências nos permitem assegurar duas coisas sobre ele. Em primeiro lugar, Lucas era médico; segundo, era um dos colaboradores mais apreciados por Paulo e um de seus amigos mais fiéis, porque foi seu companheiro em sua última prisão. Podemos deduzir uma coisa: Lucas era um gentio. Colossenses 4:11 inclui uma lista de menções e saudações àqueles que estão circuncidados, quer dizer os judeus; e o versículo 12 começa com uma nova lista, e concluímos naturalmente que sou tráfico de gentios. portanto nos encontramos ante o interessante feito de que Lucas é o único autor gentil no Novo Testamento. Poderíamos ter adivinhado que Lucas era um médico, porque instintivamente utiliza termos médicos. No Lucas 4:35, quando fala do homem que tinha o espírito de um demônio imundo, Lucas utiliza a frase: "derrubando-o em meio deles", e a palavra que utiliza é o termo médico correto para convulsões. No Lucas 9:38 descreve ao homem que pede a Jesus: "Rogo-te que veja meu filho". A palavra que utiliza é o termo convencional para a visita de um médico a um paciente. O exemplo mais interessante da preferência do Lucas por termos médicos é um dito sobre o camelo e o buraco da agulha. Três autores do Evangelho nos dão esse dito (Mateus 19: 24; Marcos 10:25; Lucas 18:25). Para a palavra agulha tanto Marcos como Mateus utilizam o termo grego raphis que se refere à agulha de um alfaiate ou caseira; somente Lucas utiliza o termo belone que é o nome técnico da agulha de um cirurgião. Lucas era médico, e os termos médicos fluíam naturalmente de sua pluma.[11]

Conclusão:
Conforme temos visto podemos aprender que o Autor de Atos é alguém cujo nome é Lucas. Não há grandes contestações em ralação a posição tradicional da igreja em identificar este escrito como vindo da pluma de Lucas o autor do Evangelho.
Descobrimos que este livro é a segunda parte de um outro, ou seja, do terceiro Evangelho, portanto, é uma continuação do primeiro. O título do Livro tem sido motivo de especulações e de sugestões para a alteração do foco de estudo, pois, alguns sugerem que este Livro deveria se chamar Atos do Espírito Santo e outros preferem chamar o livro Atos de Jesus Cristo , já que parece indicar que tratar-se da continuação da obra de Cristo pelo que se pode perceber dos versos iniciais deste livro; entretanto, a igreja sempre entendeu que Livro trata da ação de  Cristo em benefício da Igreja  por meio do ministério apostólico.





[1] Ainda que MARSHALL considere essa avaliação como algo de um leitor mediano, essa pressuposição histórica básica é evidente (MARSHALL, I. Howard. Atos – Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova, 1983, p.14).
[2] Aqui referimo-nos ao fato da ascensão, pois, sabemos que Cristo reina desde os dias da eternidade, e que quando ressuscitou Deus, O Pai lhe assegurou todo poder (Mateus 28.18-19)
[3]Irineu, Against Heresies 3.13.3; Clemente de Alexandria Stromata 5.82; Tertuliano, Fasting 10. Os Códices Sinaiticus, Vaticanus e Bezae trazem essa tradução. Manuscritos minúsculos fornecem extensões: “Atos dos Santos Apóstolos” e “Atos dos Santos Apóstolos de Lucas o Evangelista”.
[4] Veja-Se KISTEMAKER, Simon. Comentário a Atos – volume 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.17 – no qual ele contesta também essa tentativa de colocar tal título no livro.
[5] KISTEMAKER, Simon. Comentário a Atos – volume 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 40
[6] CARSON, D.A; MOO, Douglas; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p.208
[7] Ibid, p. 209
[8] Apud, KISTEMAKER, Simon. Comentário a Atos – volume 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 39

[9] PINTO, Carlos Osvaldo. Foco e Desenvolvimento no Novo Testamento. São Paulo: Editora Hagnos, 2008, p.109
[10] BRUCE, F.F. The Acts of the Apostles, p. 2
[11] BARCLAY, William. Atos. Tradução: Carlos Biagini. Disponível em: http://www.iprichmond.com/atos acessado em 07/03/2017.