CENTRO DE ESTUDOS PRESBITERIANO
SEMINÁRIO PRESBITERIANO FUNDAMENTALISTA DO
BRASIL
TURMA:
EAD – PATOS PB.
DISCIPLINA:
HERMENÊUTICA
Prof.
Rev. João França.
AULA – 03: BREVE HISTÓRIA DA HERMENÊUTICA ( I ).
INTRODUÇÃO:
No estudo da Hermenêutica Bíblica
é necessário compreendermos os caminhos percorridos pelos primeiros intérpretes
da Palavra de Deus para a condição da hermenêutica atual.
Neste estudo observaremos uma
breve história da Interpretação com vista à compreensão dos processos e métodos
hermenêuticos existentes na atualidade; pois, somente uma caminhada na história
da interpretação poderá nos auxiliar no caminho a seguir para uma interpretação
segura da Palavra de Deus.
I – A INTERPRETAÇÃO
DO ANTIGO TESTAMENTO.
O Antigo Testamento é o primeiro
documento da Escritura Sagrada a exigir uma interpretação. Quando lemos Neemias
8. Neste trecho vemos que o povo que regressara do exílio babilônico não
compreendiam o que linha na Bíblia, por isso, Neemias e Esdras providenciaram
os
Targums que significa aqueles que
explicam o texto.
E
assim temos o primeiro processo interpretativo para a comunidade pectual.
1.
A
Interpretação judaica no inicio da era Cristã:
Nos primórdios da era Cristã os
rabinos judeus tendiam a seguir duas abordagens básicas para se detectar o
sentido do texto sagrado.
a)
O Peshar:
É conhecido como o sentido “claro”
ou “simples” que deriva a ideia de sentido literal ou sentido histórico do
texto.
b)
O Remaz: Conhecido
como sentido oculto da lei mosaica
,
dentro desse conglomerado. Havia também o sentido conhecido como
derush termo geralmente usado para
descrever o processo da exegese. O termo pode ser compreendido a partir da
língua hebraica, no uso da palavra
vr:*d< (derash)
que tem uma gama de significados entre os quais temos: “tirar informações,
indagar, procurar, buscar, preocupar-se, examinar, inquirir, pesquisar, exigir;
ansiar”
e aqui denota “o estudo intenso, ou exame do sentido de uma passagem”.
2. A Interpretação Rabínica
Na interpretação rabínica
desenvolveu-se grandes coleções de escritos interpretativos que no período
cristão passou a ser conhecidos como o
Mishnah,
o
Gemara e o Talmude.
Para nossos propósitos didáticos iremos apresentar apenas as regras de
interpretação do famoso rabino Hillel:
Regra 1: Inferência do
sentido mais brando para o mais forte.
Isto seria basicamente o que fazemos em filosofia dentro do silogismo. Partimos da premissa menor (o
sentido mais brando) para uma premissa maior (sentido mais forte). O principio
hermenêutico estabelecido é que aquilo que é verdade sobre o menor é igualmente
verdade para o sentido maior.
P.e. Levando em consideração que o Sábado é mais
importante do que outros dias festivos,
e aquilo que possa ser restrito no dia de Sábado era ainda singularmente mais
aplicável ao dia de Sábado.
Regra 2: Analogia de
expressões: As ambiguidades de passagens bíblicas eram superadas quando se
fazia referências às expressões semelhantes dentro do corpo canônico.
P.e – A passagem de Levítico 16.29 diz que os judeus deveria
afligir a alma no dia da expiação e
forma desse “afligireis a vossa alma” foi interpretada como um abster-se
da comida com base na analogia da passagem de Deuteronômio 8.3 que usa a mesma
expressão em referência ao estar com fome.
Regra 3: Aplicação por
analogia com uma cláusula ou a extensão do específico para o geral.
Um principia geral era construído sobre a base de um
ensinamento contido num versículo.
P.e. O caso de um homicídio culposo (sem a intenção)
conforme descrito em Deuteronômio 19.
Regra 4: Aplicação por analogia com duas cláusulas.
Isto significa que duas cláusulas
bíblicas servem de base para um principio geral. Por exemplo, vemos em Êxodo
21.26-27. Nesta passagem lemos que se um escravo viesse a ter um “dente” ou um
“olho destruído” este mesmo princípio deverá ser aplicado as outras partes do
corpo.
Regra 5: Inferência de
um princípio geral par um caso ou exemplo específico. Essa regra pode ser
usada de duas maneiras – do geral para o específico ou vice-versa.
P.e O que é dito em Êxodo 22.9 – “qualquer coisa” pode ser
aplicado a qualquer coisa que foi tomada por empréstimo e perdida e que deve
ser reembolsada.
Regra 6: Explicação de
outra passagem
O uso de
outra passagem para explicar a primeira passagem com vista a elucidação. Por
exemplo, se o cordeiro pascoal deveria ser abatido caso o dia da páscoa caísse
em sábado? Segundo esse princípio Números 28.10 fala de “sacrifícios diários” e
por isso, o cordeiro deveria se sacrificado para a páscoa não importando o dia
para isso.
Regra 7: Aplicação de
uma inferência evidente por si só em um texto.
Esta regra
lembra que nenhuma declaração deve ser tomada de modo isolado, mas somente à
luz do seu contexto.
II – A INTERPRETAÇÃO
DO NOVO TESTAMENTO.
Neste momento o nosso estudo se
ocupará em lidar com as questões relacionadas com a interpretação
neotestamentária desde a forma como o Novo Testamento interpreta o Antigo até
as avaliações interpretativas deste segundo testamento.
Antes de tudo devemos lembrar que
há “224 citações diretas do Antigo Testamento dentro do Novo Testamento”.
Cristo fez bom uso do Antigo Testamento através de seus ensinos (Marcos 2.25-28
e João 7.23; João 10.34-36).
Paulo também faz bom uso no
Antigo Testamento no Novo Testamento. Vemos ele valer-se de uma alegoria para
referir-se a relação que o Cristão tem com a Lei conforme lemos em Gálatas
4.24-31.
No capítulo 10.1-6 de 1ª
Coríntios encontramos Paulo fazendo aplicação de eventos históricos-redentivos
como uma alusão à Cristo bem como referência ao novo momento que a Aliança se
aplica à igreja. E ainda em Gálatas 3.29 Paulo argumenta que Cristo é o Messias
baseando seu argumento na distinção entre singular e plural da palavra semente
– ou descendente.
III – A INTERPRETAÇÃO NA PATRÍSTICA
Uma fonte bastante
interpretativa na História da Interpretação é certamente os escritos dos pais
apostólicos. Por questões de espaço iremos apresentar, de forma lacônica, as
ideias gerais das escolas de interpretação deste período:
3.1 – A Escola de
Alexandria:
Para esta
escola de interpretação as Escrituras deveriam ser interpretadas alegoricamente.
Trata-se
de uma das escolas mais antigas de interpretação.
O pai dessa escola de interpretação foi Clemente de Alexandria, ele “acreditava
que as Escrituras ocultavam seu verdadeiro significado a fim de que fossemos
inquiridores, e também porque não é bom que todos a entendam”.
Virkler lembra-nos que Clemente de Alexandria “ desenvolveu a teoria de que
cinco sentidos estão ligados à Escritura (histórico, doutrinário, profético,
filosófico, e místico), com as mais profundas riquezas disponíveis somente aos que
entendem os sentidos mais profundos.”
O principio da alegorização se difundiu neste período que era quase impossível
um escritor deste tempo não interpretar valendo-se dessa escola.
Ressaltamos
também que o conceito “de que a verdade se encontra alegoricamente oculta além
da letra e da realidade visível”
era dominante neste escola interpretativa, ou seja, o sentido natural e simples
da passagem não era considerado a verdade clara. Vejamos um exemplo da
interpretação alegórica de Gênesis 22.1-4 em Clemente de Alexandria:
Quando, no terceiro dia, Abraão
chegou ao lugar que Deus lhe havia indicado, erguendo os olhos, viu o lugar à
distância. O primeiro dia é aquele constituído pela visão de coisas boas; o
segundo é o melhor desejo da alma; no terceiro a mente percebe coisas
espirituais, sendo os olhos do entendimento abertos pelo Mestre que ressuscitou
no terceiro dia. Os três dias podem ser o mistério do selo (batismo) no qual
cremos realmente em Deus. É, por consequência, à distância que ele percebe o
lugar. Porque o reino de Deus é difícil de atingir, o qual Platão chama de
reino de ideias, havendo aprendido de Moisés que se tratava de um lugar que
continha todas as coisas universalmente. Mas Abraão corretamente o vê à
distância, em virtude de estar ele nos domínios da geração, e ele é
imediatamente iniciado pelo anjo. Por esse motivo diz o apóstolo: "Porque
agora vemos como em espelho, obscuramente, então veremos face a face",
mediante aquelas exclusivas aplicações puras e incorpóreas do intelecto.
Entretanto, o maior expoente da
escola de interpretação alegórica foi Orígenes. Ele “é o membro mais destacado da escola Alexandrina, e é ele quem
afirma de forma mais completa e adequada os princípios da alegorização cristã”
.
Ele sustentava a ideia de que cada parte da Escritura é alegórica. Ele entendia
que o sentido literal é “valioso, mas algumas vezes obscurece o sentido
primário, que é o espiritual. O literal é para os iniciantes, mas o espiritual
é para os maduros na fé.”
Virkler nos lembra:
Orígenes acreditava que
assim como o homem se constitui de três partes — corpo, alma e espírito — da
mesma forma a Escritura possui três sentidos. O corpo é o sentido literal, a
alma o sentido moral, e o espírito o sentido alegórico ou místico. Na prática,
Orígenes tipicamente menosprezou o sentido literal, raramente se referiu ao
sentido moral, e empregou constantemente a alegoria, uma vez que só ela
produzia o verdadeiro conhecimento.
Esse sistema interpretativo foi construído sobre a
doutrina da correspondência, onde um elemento natural e físico nas Escrituras
(sentido natural claro) é acompanhado de um elemento ou acontecimento análogo à
realidade espiritual.
3.2 – A Escola de Antioquia.
Havia uma escola que se
fazia oposição ao alegorismo alexandrino que ficou conhecida como Escola de
Antioquia. O verdadeiro fundador desta escola foi provavelmente Luciano de
Samosata. Outras acham que fora o Presbítero Diodoro o fundador da famosa
escola. Entretanto, há dois fundamentais representantes desta escola de
interpretação: Theodoro de Mopsuéstia e João Crisóstomo. Virkler sumariza para
nós a distinção entre as duas escolas de forma bastante lacônica:
Teodoro de Mopsuéstía (c. 350—428),
defendiam com o maior zelo o princípio da interpretação histórico-gramatical,
isto é, que um texto deve ser interpretado segundo as regras da gramática e os
fatos da história. Evitavam a exegese dogmática, asseverando que uma
interpretação deve ser justificada por um estudo de seu contexto gramático e
histórico, e não por um apelo à autoridade. Criticavam os alegoristas por
lançarem dúvida na historicidade de muita coisa do Antigo Testamento
Esta escola
rejeitou a interpretação alegórica também fez a distinção entre o gênero
alegórico e a interpretação alegórica; explicou os textos cristológicos do
Antigo Testamento por meio da interpretação tipológica baseada nos padrões
regulares das Escrituras, buscavam a intenção autoral como o sentido natural
das Escrituras.
Ressaltamos que os Reformadores se identificaram com esta escola de interpretação.
3.3 - A Escola do Ocidente.
Na
patrística temos uma escola de interpretação ocidental que é conhecida como a
mais eclética (ela vale-se tanto dos princípios dos alexandrinos quanto dos
antioquianos). Segundo Kaiser a importância desta escola se dá exatamente
porque nela se insere a autoridade da
tradição na interpretação bíblica
como algo importante a ser considerado. Os principais representantes desta
escola são Hilário, Ambrósio e, especialmente, Jerônimo e Agostinho.
Agostinho
desenvolveu princípios hermenêuticos importantes em sua obra De Doctrina Christiana. Nesta importante
obra ele ressaltou a necessidade de um sentido literal como sendo a base
essencial para o sentido alegórico. Mas, ele mesmo não hesitou em usar o método
alegórico de forma livre. Quanto uma passegem necessitava deu análise decisiva
ele apelava para a regula fidei (regra
de fé), que de acordo com o próprio Agostinho é conjunto de doutrinas da
igreja. Aqui a tradição começa a ganhar força na interpretação das Escrituras.
Vale ressaltar
que a Bíblia e a tradição (vista como o testemunho da Igreja) devem andar
juntas, nos precisamos ouvir a ambas ou como coloca sabiamente um autor reformado
presbiteriano:
A Bíblia
sozinha seria a religião dos protestantes. O problema e que a Bíblia nunca esta
sozinha. O próprio Calvino, que falou da autoridade da Bíblia nos termos mais
elevados, sempre leu-a e ouviu-a segundo as tradições. Sua revisão litúrgica
foi feita de acordo com as praticas da Igreja Antiga, o mesmo sucedendo com a
organização eclesiástica por ele desenvolvida
Agostinho fez
com que a tradição se avultasse sobre as Escrituras de forma prejudicar a interpretação da mesma. Queremos
deixar claro que podemos ler a Bíblia com as tradições, o problema encontra-se
quando as tradições estão se opondo a Bíblia. A Igreja é a coluna e baluarte da
verdade (1 Tm.3.15). E vivemos uma época em que a historia da igreja (que funciona
como testemunho para nós) tem sido negligenciada, mais uma vez Leith nos
adverte para isso:
Os protestantes
têm sido sempre tentados a crer que, de alguma forma, podem ignorar todos os séculos
da historia crista, estudando a Bíblia sem ajuda e os embaraços dos que os
antecederam. Na verdade, porem, aqueles que se recusam a ler a Bíblia a luz das
tradições da Igreja acabam sendo dominados pelas suas próprias tradições
históricas e culturais
Agostinho
também seguiu, infelizmente, o método chamado de quadriga. Que consistia em compreender que as Escrituras possuíam
um sentido quádruplo:
1. Histórico;
2. Etiológico (uma investigação da origem e das causas); 3. Analógico e 4.
Alegórico. Este método surgiu com João Cassiano sobre a cidade Jerusalém ele
ensinou: Jerusalém literalmente significa
a cidade dos Judeus; alegoricamente Jerusalém é a igreja (Salmos 46.4-5); Tropologicamente , Jerusalém é a alma
(Salmos 147.1-2,12); e, anagogicamente,
Jerusalém é nosso lar celestial (Gálatas 4.26). O próprio Cassiano reconhecer
que o sentido da quadriga não se aplicava a todos os textos das
Escrituras, e enfatizava a busca pelo sentido natural e literal do texto
sagrado.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS: