terça-feira, 29 de dezembro de 2015

AMÓS - PARTE 1

AMÓS
Pr. João Ricardo Ferreira de França.

O nome de nosso personagem evoca muito bem a sua missão profética de forma singular. “עָמ֔וֹס  ”  [‘amos] o significado de seu nome é “carregador de fardos” os “fardos de julgamento que ele transmitiu contra Israel, o reino do Norte”.[1] Amós nasceu em Tecoa “uma pequena aldeia 8km ao sul de Belém”[2](Amós 1.1).
            Ele era um criador de gado e colhedor de sicômoros e não era da linhagem profética tradicional (Amós 7.14-15). Isso é assegurado pelo uso da expressão “filho de profeta” [בֶן־נָבִ֖יא (ben-nabi’)], isto não tem “a ver com a sua filiação” isto era uma forma de “idiomatismo hebraico para designar alguém que fosse membro de uma corporação profética”, e com o uso do advérbio de negação (לֹ֥א (lo)) indicava que Amós “não pertencia a nenhuma “Ordem dos Profetas”.[3]


O próprio profeta parece fornecer “a data precisa de sua profecia ou, mais precisamente, o ponto inicial de sua carreira como profeta”.[4] Nos parece que as referências existentes “no próprio livro apontam para uma data próxima do final do reinado de Jeroboão II, que ocupou o trono de Samaria como regente ao lado de seu pai, Jeoás, e como governante único durante 41 anos (793-753 a.C)”[5].
Vale salientar que “Jeroboão II e Uzias reinaram simultaneamente de 767 a 752” e que o grande “terremoto de 1.1 foi evidentemente acompanhado de um eclipse solar, conforme está sugerido em 8.8-10”. Isto pra nós é importante porque segundo “os astrônomos, esse eclipse ocorreu em 15 de junho de 763 a.C. A profecia sobre Israel foi proferida dois anos antes em 765, e escrita algum tempo depois do terremoto”.[6]


A finalidade desta profecia ou da composição do livro é ser um “exemplo da bondade de Deus para com uma  nação indigna. Os israelitas do norte haviam rejeitado o concerto davídico e, portanto, haviam perdido o direito de qualquer reivindicação às promessas de Jeová.”[7] Mas de forma bem lacônica podemos dizer que o propósito do livro também é “soar a trombeta, avisando à liderança e à aristocracia de Israel do eminente julgamento de Deus sobre a nação.”[8] Israel estava deploravelmente idólatra, havia uma crise social terrível, os ricos desprezando os pobres; então, a profecia de Amós vem combater essas práticas de forma perene e incisiva.

            Durante o período que engloba essa profecia havia uma grande prosperidade para os dois reinos (Norte e Sul) conforme parece indicar-nos o texto de Amós 6.1-6:

Ai dos que andam à vontade em Sião e dos que vivem sem receio no monte de Samaria, homens notáveis da principal das nações, aos quais vem a casa de Israel!2 Passai a Calné e vede; e, dali, ide à grande Hamate; depois, descei a Gate dos filisteus; sois melhores que estes reinos? Ou será maior o seu território do que o vosso território? 3 Vós que imaginais estar longe o dia mau e fazeis chegar o trono da violência;4 que dormis em camas de marfim, e vos espreguiçais sobre o vosso leito, e comeis os cordeiros do rebanho e os bezerros do cevadouro;  5 que cantais à toa ao som da lira e inventais, como Davi, instrumentos músicos para vós mesmos; 6 que bebeis vinho em taças e vos ungis com o mais excelente óleo, mas não vos afligis com a ruína de José.

            E o mais notável que o texto nos apresenta é que “junto com o crescimento” veio um “grande desprezo pelos pobres”.[9] Entretanto, essa prosperidade áurea em dez anos corridos chegaria ao fim, pois, os recursos de uma economia fluente estavam agora concentrados nas mãos de alguns. Um escritor nos lembra algo interessante:
A mensagem que Javé ordenou que fosse transmitida  por seu profeta a Israel pode ser resumida nas seguintes palavras: ‘chegou o fim para o meu povo de Israel’ (8.1-2). Tudo o mais não passa de interpretação e explicação deste veredito. Javé  comunica esta decisão ao profeta através de cinco visões, que encontramos em 7.1-8; 8.1-2 e 9.1-4. O profeta se torna, pois, co-sabedor daquilo que está por vir. [10]

            Conforme sabemos o Reino do Norte foi estabelecido sob a idolatria. O rei Jeroboão I não querendo perder seus súditos para o Sul (Judá), onde ficava o Templo de Jerusalém “criou dois bezerros de ouro, um em Betel e outro em Dã”[11] (1º Reis 12.26-29) observemos o mapa para observarmos esta situação:









            O redator do livro dos Reis declara que esta atitude tornou-se um canal de grande pecado diante de Yahweh; pois, havia um grande esforço do povo para ir adorar o ídolo (1º Reis 12.30). Dentro desse contexto, Jeroboão I, além de estabelecer um culto idólatra também criou novos sacerdotes que não eram da linhagem levítica (1º Reis 12.31), criou festas religiosas (1º Reis 12.32,33).
            A nação estava mergulhada na idolatria por uns longos 170 anos desde o reinado de Joreoboão I até Jeroboão II. Havia muita religiosidade neste tempo, conforme aprendemos na passagem do capítulo  5.21-23:
21 Aborreço, desprezo as vossas festas e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer. 22 E, ainda que me ofereçais holocaustos e vossas ofertas de manjares, não me agradarei deles, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados.  23 Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras.
            Era uma religiosidade que não agradava a Deus, pois, ele não recebia esse culto essa adoração corrompida. E o profeta é chamado a se colocar contra essa postura de uma falsa piedade, de uma adoração de lábios não do coração.
            No serviço litúrgico o povo queria dar a Deus aquilo que estava no coração deles, mas não o que Deu requeria em Sua Palavra. Em Amós 4.5 somos lembrado dessa faceta da adoração quando é corrompida; porque aquilo que “agrada o povo” é odiado por Deus (Amós 5.21). O escritor Bonora declara: “Deus afirma, com desprezo, que esses são os ‘vossos’ sacrifícios e as ‘vossas’ oferendas: ele não quer mais tomar conhecimento deles”.[12]
            Essa era trágica situação da religião do povo da aliança, era peso para Yahweh tal prática religiosa:
Ainda que os grandes santuários estavam em plena atividade, repletos de adoradores e  magnificamente providos, a religião não se conservava em sua pureza. Muitos santuários eram abertamente pagãos, fomentando os cultos de fertilidade e a prostituição sagrada. Outros, a maioria, ainda que se apresentassem como santuários de Yahweh, cumpriam una função totalmente negativa: apaziguar a divindade com ritos e sacrifícios que garantiam a tranqüilidade de consciência e o bem-estar  do país.[13]
Podemos perceber que Deus “investe contra uma religião institucionalizada, fechada em sim mesma, segura de si  e confiante num culto mágico”[14], e as vezes somos cada um de nós pensamos que podemos aplacar a ira de Deus cumprindo meros rituais, vamos ao culto como se ele fosse a solução mágica pra todas as adversidades que enfrentamos; e ignoramos completamente que o Culto é a obrigação de um coração que verdadeiramente adora a Yahweh.
            O profeta Amós expressa bem o que Deus pensava do povo que lhe oferecia este tipo de culto e ritual sem vida quando fala  no capítulo 4.4-5:
4 Vinde a Betel e transgredi, a Gilgal, e multiplicai as transgressões; e, cada manhã, trazei os vossos sacrifícios e, de três em três dias, os vossos dízimos; 5 e oferecei sacrifício de louvores do que é levedado, e apregoai ofertas voluntárias, e publicai-as, porque disso gostais, ó filhos de Israel, disse o SENHOR Deus.
            Cada culto prestado “na realidade, era um pecado contra Deus”[15],por isso, Deus se pronunciava de forma imperativa contra tais demandas injustas do povo que era resultado desta idolatria e desprezo para com Deus.
[Amós] Dirigiu uma palavra forte às mães e matronas que exigiam o melhor dos alimentos e mobiliário, com sacrifício dos pobres (4.1). De modo semelhante, fala aos pais que levam seus filhos à flagrante idolatria (2.7b), aos fazendeiros (4.7-9, 5.16b,17), aos soldados (5.3), aos juízes (5.7), aos homens de negócios (5.11, 8.4-6), aos adoradores (5.2123), aos líderes de Samaria (6.1-7), a Amazias, o sacerdote em Betel (7,14-17), a homens e mulheres jovens (8.13). A última interpelação direta é a todo o povo de Deus, quando por sua boca Yahwéh diz: "Vós, israelitas, sois para mim o mesmo que os cusitas...os filisteus e os arameus" (9.7 NIV). Amós torna muito claro que a nação inteira está sob julgamento; acentua que cada dimensão de sua vida está corruptamente afetada pelo pecado. Eles, o povo eleito (3.1,2; cf.6.8, 8.7),7 quebraram seu pacto com Yahwéh, seu Redentor, Senhor e Protetor.[16]
            O escritor Luis Alonso Schökel nos lembra que os “profetas anteriores a Amós eram ‘reformistas’; conscientes dos falhos de seus contemporâneos, pensavam que tais erros podiam se solucionar dentro das estruturas em vigor”.[17]
            As palavras proféticas de Amós são dirigidas as nações pagãs tais como Gaza (Amós 1.6-8), Tiro (Amós 1.9-10), Edom (Amós 1.11-12), Amom (Amós 1.13-15) e Moabe (Amós 2.1-3). Aqui nitidamente vemos o profeta levantar o oráculo de juízo contra os inimigos políticos de Israel. E certamente é aplaudido pelos seus compatriotas  por uma mensagem contra tais nações.
            Entretanto, o problema surge quando a voz do profeta levanta-se contra Judá, o Reino do Sul (Amós 2.4-5), e alguns dos israelitas devem ter gostado de ouvir que o profeta repreendera os habitantes de Judá, era como se povo disse: “Muito bem, Profeta Amós pode lapiar as costas de povo, esse grupo do Reino do Sul merece”. Mas, Amós também se volta para Israel (o Reino do Norte) conforme vemos no capítulo 2.6. E, assim a profecia se ocupa em tratar com Israel.



[1]FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.83.
[2]ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. Tradução: Emma Anders de Souza Lima.São Paulo: Editora Vida, 1991, p.286
[3]FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.84
[4] PINTO, Carlos Osvaldo. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 425
[5] HUBBARD, David Allan. Joel e Amós: introdução e comentário, Tradução: Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Edições Vida Nova, 1996.    

[6] ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. Tradução: Emma Anders de Souza Lima.São Paulo: Editora Vida, 1991, p.287
[7] YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1964, p. 221
[8] ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. Tradução: Emma Anders de Souza Lima.São Paulo: Editora Vida, 1991, p.287
[9] FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.86.
[10] KIRST, Nelson. Amós – Textos Selecionados, I. São Leopoldo: Comissão de Publicações da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, 1983, p.19.
[11] FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.87
[12] BONORA, Antonio. Amós, O Profeta da Justiça. São Paulo: Edições Paulinas, 1983, p.39.
[13] SCHOKEL, Luis Alonso.; DIAZ, J. L. SICRE, Profetas - Introducciones y comentario, Volume II Madrid: Ediciones Cristiandad, 1980, p.951, p.952.
[14] BONORA, Antonio. Amós, O Profeta da Justiça. São Paulo: Edições Paulinas, 1983, p.39
[15] FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Os Profetas Menores I – Oséias, Joel, Amós, Obadias e Jonas. Rio de Janeiro: JUERP, 2009, p.89
[16] GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Tradução: Cláudio Wagner. Campinas: Luz para o Caminho, 1995,p 426
[17] SCHOKEL, Luis Alonso.; DIAZ, J. L. SICRE, Profetas - Introducciones y comentario, Volume II Madrid: Ediciones Cristiandad, 1980, p.951.

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