sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

COMO LER AS PROFECIAS


COMO LER AS PROFECIAS.
Por: Rev. David Chilton
Tradução: Rev. João Ricardo Ferreira de França
            Iniciei minha viagem pessoal até a escatologia do domínio em uma noite na igreja faz doze anos. O pastor, um pregador famoso por seu método expositivo em seu ensino bíblico, acabava de iniciar uma série de conferências sobre profecia. Enquanto ele defendia eloqüentemente sua escatologia da derrota, me impressionou o fato de que parecia completamente incapaz de desenvolver seus pontos de vista a respeito da Bíblia organicamente. Oh, citava alguns textos – um versículo aqui, outra acolá. Porém nunca conseguiu demonstrar que sua explicação do futuro encaixava no padrão geral da Bíblia. Em outras palavras, era muito hábil sobrepondo as suas visões da realidade sobre o texto bíblico, assegurando-se de que seus versículos fossem organizados na ordem correta. Entretanto, não pode mostrar como suas doutrinas fluíam da Escritura; sua escatologia não parecia ser uma parte orgânica daquilo que o relato da Bíblia conta. Daí eu comecei a perceber naquela noite que o caminho para recuperar a escatologia bíblica deve ser a compreensão da narrativa bíblica. Em vez de tentar fazer o ajuste da Bíblia em um molde previamente combinado, devemos tentar descobrir os moldes que já estão lá. Devemos permitir que a estrutura da própria Bíblia surja do próprio texto, quer colocar nossa própria interpretação. Devemos nos acostumar ao vocabulário bíblico e aos modos de expressões bíblicas, buscando conformar nossos próprios pensamentos aos termos das categorias bíblicas.
            Essa perspectiva lança luz inestimável na velha discussão sobre a interpretação da interpretação "literal" versus "simbólica". Em grau elevado, esse debate está fora de lugar, porque o fato é que todos intérpretes são "literalistas" em alguns lugares e "simbólicos" em outros. Por exemplo, estou examinando um recente comentário sobre Apocalipse, escrito por um bem conhecido erudito evangélico. A contracapa proclama ousadamente: “Esta é provavelmente a exposição mais literal do Apocalipse que você jamais tenha lido”! Contudo, olhando mais de perto, o comentário na realidade ensina uma interpretação altamente simbólica de muitos pontos da profecia. Eis aqui alguns deles:
1. As “vestiduras manchadas” dos cristãos de Sardis (Apocalipse 3.4)
2. A promessa de que os cristãos se converterão em “colunas” do templo (3.12)
3. A temperatura “morna” dos laodicenses (3.15-16)
4. Oferta de Jesus para vender "ouro", "vestes brancas" e "Colírio" (3.18)
5. Jesus “batendo” a “porta” (3.20)
6. O “Leão da Tribo de Judá” (5.5)
7. O “Cordeiro” que tinha “sete olhos” (5.6)
8. As “oliveiras” e os “candeeiros” (11.4)
9. A “mulher vestida de sol” (12.1)
10. O “grande dragão vermelho” (12.3)
11. A “besta” de sete cabeças (13.1)
12. A “grande meretriz que está sentada sobre muitas águas” (17.1)
            Poucos “literalistas” não concordariam com a ideia de que estas imagens de Apocalipse se deve entender simbolicamente. Contudo, o que temos de reconhecer é que também se usam símbolos em todo o resto da Escritura, bem próximo da linguagem literal. Isto ocorre porque a Bíblia é literatura: literatura divinamente inspirada e infalível, mas ainda literatura. Isto significa que temos que lê-la como literatura. Algumas partes tem o propósito de se entendidas literalmente e, em conseqüência, tem sido escritas assim – como história, ou proposições teológicas, o que seja. Porém, ninguém esperaria ler os Salmos ou Cantares de Salomão com os mesmos moldes literários usados para o livro de Romanos. Seria como ler o solilóquio de Hamelet “literalmente”: "As pedras e flechas da ofensiva fortuna... pegar em armas contra um mar de problemas ... ".
            Veja você, não podemos entender o que Bíblia realmente significa (literalmente) a menos que apreciamos a maneira em que usa os estilos literários.  Entenderíamos corretamente o Salmo 23 se o tomarmos “literalmente”? Se o fizermos, não soa um pouco tolo? Na verdade, se tomado literalmente, não seria verdadeiro: Porque me atrevo a dizer que o Senhor não faz com que cada cristão repouse em pastos verdejantes literais. Porém, de modo geral, não cometemos esses toscos erros ao ler a poesia bíblica. Sabemos que está escrita em um estilo que muitas vezes usa a linguagem simbólica. Porém, temos que levar em conta que o mesmo ocorre com os profetas: eles também falavam em poesia, em figuras e símbolos, utilizando a rica herança de imagens bíblicas que, como veremos, na realidade começaram no paraíso original – o Jardim do Éden.
            E, certamente, é ali onde começa a profecia. E vale a pena observar que a primeira promessa do Redentor vindouro se expressou em termos altamente simbólicos. Deus disso a serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. (Gênesis 3.15).
            Por conseqüência, a verdadeira pergunta com a que temos que começar não é algum debate artificial entre simbolismo e literalismo, mas um ponto muito mais básico: Deve nossa interpretação ser bíblica ou especulativa? Em outras palavras, quando trato de entender ou explicar algo da Bíblia, devo ir a própria Bíblia para encontrar as respostas, ou devo inventar algo “criativo” por minha própria conta? Formular a pergunta desta forma é mais exato, e produzirá resultados mais frutíferos. Permita-me usar um exemplo extremo para explicar o que quero dizer. O livro de Apocalipse descreve a uma mulher vestida de sol, com a lua nos pés, e em dores de parto, enquanto um dragão fica ao redor para devorar seu filho. Provavelmente, um intérprete especulativo se voltaria primeiro para as noticiais sobre os experimentos genéticos mais recentes para estabelecer se o tamanho e a composição química da mulher poderiam alterar-se o suficiente para vestir-se de sol; também averiguaria se o mostro do Lago Ness tinha saído para a superfície recentemente. Por outro lado, um intérprete bíblico começaria por se perguntar: de qual parte da Bíblia vem esta imagem? A onde a Bíblia fala de uma mulher em dores de parto, qual é a sua importância nestes contextos? Onde a Bíblia fala de um dragão? Onde a Bíblia fala de alguém que tratar de assassinar um bebê? Se vamos procurar entender a mensagem da Bíblia, temos que adquirir o hábito de fazer perguntas como estas. Por conseguinte, cada enfoque tem seus inconvenientes. Os principais inconvenientes do método bíblico é que, de modo geral, requer mais trabalho, e necessita-se estar mais familiarizado com a Bíblia. O principal inconveniente do método especulativo, com todo o seu sensacionalismo, é que simplesmente não é bíblico.
A Linguagem dos Profetas
Como mencionei acima, grande parte da Bíblia foi escrita em símbolos. Uma forma útil de entender isto, talvez, seria falar destes símbolos  como uma série de moldes e associações. Com isto quero dizer que o simbolismo bíbilico não é um código. Em vez disso, é uma forma de ver, uma perspectiva. Por exemplo, quando Jesus fala de “água da vida” (João 4.10), reconhecemos corretamente que está usando a água como símbolo. Entendemos que, quando ele falou para a mulher junto ao poço, não estava lhe oferecendo somente “água”. Estava-lhe oferecendo a vida eterna. Porém, a chamou “água”. Imediatamente, devemos perguntar:  Por que fez isso? Poderia haver dito simplesmente “vida eterna”. Por que falou em metáforas? Por que queria que ela pensasse em água?
Pois bem, aqui é onde podemos cometer um grave erro, e este é o principal erro de alguns intérpretes que tratam de utilizar um enfoque “simbólico”. É crer que o simbolismo bíblico é principalmente um quebra-cabeça que temos que resolver. E de imediato temos que decidir: “Ah! Água é uma palavra chave especial que significa vida eterna. Isso significa que, cada vez que a Bíblia fala de água simbolicamente, na realidade está falando de vida eterna; cada vez que alguém bebe algo, na realidade está se convertendo em cristão”. Simplesmente, não funciona assim (como você o verá se trata de aplicar isto em toda a Bíblia).Também, que sentido teria que a Bíblia simplesmente colocasse tudo no centro? A Bíblia não é um livro para espias nem sociedades secretas; é a revelação de Deus acerca de Si mesmo para o seu povo do pacto. A interpretação mística, como de resolver um enigma, tenda ser especulativa; não presta suficiente atenção para a maneira em que a própria Bíblia fala.
Quando Jesus ofereceu “água” para a mulher, queria que ela pensasse nas múltiplas imagens relacionadas com a água na Bíblia. Claro que, em sentido geral, sabemos que a água está associada com o refrigério espiritual e a sustentação da vida que vem com a salvação. Porém, as associações bíblicas com a água são muito mais complexas do isso. Isto é porque entender o simbolismo bíblico não significa decifrar um código. Se parece mais com ler um boa poesia.
O simbolismo da Bíblia não está estruturado com um estilo cheio, de isto significa aquilo. Em seu lugar, se tem de ler visualmente. Devemos ver as imagens surgir diante de nós em sucessão, página após página, permitindo-lhes que evoquem uma resposta em nossas mentes e nossos corações. Os profetas não escreveram para criar exercícios intelectuais estimulantes. Escreveram para ensinar. Escreveram em símbolos visuais dramáticos; e se queremos entender plenamente sua mensagem, nós temos que apreciar seu vocabulário. Temos que ler a Bíblia visualmente. Os próprios símbolos visuais, e o que a Bíblia diz a respeito deles, são aspectos importantes do que Deus quer que aprendamos; do contrário, não haveria falado desta maneira.
Assim que, quando a Bíblia nos conta uma história sobre água “na realidade” não nos está falando de nada mais; está-nos falando de água. Mas, ao mesmo tempo, se espera que vejamos a água e que pensemos nas associações bíblicas com respeito à água. O sistema de interpretação oferecido aqui não é nem “literalista” e nem “simbólico”; toma  a “água” de forma real e literalmente, porém também toma de modo real o que a Palavra de Deus associa com a água através de toda a história da revelação bíblica.
Quais são algumas da associações bíblicas que poderiam haver ocorrido à mulher junto ao poço, e aos discípulos? Eis aqui algumas delas:
  1. A massa aquosa, fluída, que era a natureza original da terra na criação, e da qual Deus toda a terra (Gênesis 1);
  2. O grande rio do Éden que regava toda a terra (Gênesis 2);
  3. A Salvação de Noé e de sua família por meio das águas do dilúvio (Gênesis 6-9);
  4. As revelações de Deus por graça a Hagar ao lado de uma fonte (Gênesis 16) e de um poço (Gênesis 21);
  5. O poço chamado Reobote, onde Deus deu domínio a Isaque (Gênesis 26);
  6. O rio do qual o bebê Moisés, o futuro libertador de Israel, foi tirado e se converteu em príncipe (Êxodo 2);
  7. A atravessia redentora do Mar vermelho, onde Deus novamente salvou a seu povo por meio da água (Êxodo 14);
  8. A água que fluiu da Rocha ferida no Sinaí, dando vida ao povo (Êxodo 17);
  9. As várias cerimônias rituais do Antigo Testamento, significando a remoção da sujeira, a contaminação, a enfermidade e a morte, a imposição do Espírito Santo aos sacerdotes (por exemplo, Levítico 14; Números 8);
  10. A atravessia do rio Jordão (Josué 3)
  11. O som estrondoso de águas causados pela coluna de nuvem (Ezequiel 1)
  12.  O rio da vida que fluía desde to templo e limpava o Mar Morto (Ezequiel 47)
Assim que, quando a Bíblia fala de água, se supõe que tenhamos em mente uma vasta hoste de conceitos associativos, uma complexidade de imagens bíblicas que afeta nossos pensamentos sobre a água. Para dizer de uma forma diferente, se supõe que a água seja como um “murmúrio”, um termo que evoca muitas associações e conotações. Quando lemos a palavra água, deve lembrar-nos os atos salvadores e as revelações redentoras de Deus por meio dá água através da Escritura. A Bíblia usa muitos destes “murmúrios”, e o número deles aumenta a medida que se avança até que, para quando chegamos ao apocalipse (a cabeça angular da profecia), todas elas vem de uma só vez até nós em grande velocidade, em uma ventania de referências associativas, algumas as quais são óbvias, outras obscuras. Para aquele que realmente conhece sua Bíblia e tem observados os padrões literários e as imagens literárias, grande parte do livro lhe parecerá familiar; para o resto de nós, é confuso. Em Apocalipse somos confrontados por todas as conotações bíblicas de numerosas imagens: não somente de água, mas também de luz, fogo, nuvens, anjos, estrelas, lâmpadas, alimentos, rochas, espadas, tronos, arco-íris, vestiduras, tronos, vozes, animais alados, aves de rapina, olhos, chaves, trombetas, pragas, montanhas, ventos, mares, altares, sangue, lagostas, árvores, cabeças, chifres, e coroas.
O Apocalipse também nos apresenta imagens de uma mulher, um dragão, um deserto, uma marca na fronte, uma foice, pérolas, um lagar, um cálice de vinho, uma rameira, um rio, Sodoma, Egito, Babilônia, ressurreição, um casamento, uma ceia de casamento, o Esposo, a cidade / esposa em forma de uma pirâmide. E prontamente está o uso de números simbólicos: dois, três, quatro, sete, dez, doze, e múltiplos deles – 24, 42,144, 666, 1000, 1260, 7000, 12000 e 144000.
Por isso, é necessário entender a Bíblia e o uso que ela faz de símbolos e padrões se é que alguma vez vamos entender o livro de Apocalipse. Os seguintes capítulos sobre o tema do Paraíso na Escritura estão desenhados para introduzir  ao leitor no uso que a Bíblia faz de imagens. Essencialmente, isto é um exercício em Teologia Bíblica, o termo técnico para designar o estudo da revelação progressiva de Deus sobre a salvação. No principio, toda a história da redenção se ensina nos primeiros capítulos da Bíblia: o resto  simplesmente se constrói sobre o fundamento lançado ali. Por isso, como veremos mais adiante, as revelações posteriores dependem em grande parte do Jardim do Éden.
Ao iniciar este estudo das imagens bíblicas, revisemos as regras básicas:
1.      Leia visualmente; trate de representar-se o que a Bíblia está dizendo.
2.      Leia Biblicamente, não especule nem faça abstrações, mas preste muita atenção ao que a própria Bíblia diz sobre seus próprios símbolos.
3.      Leia o relato; trate de pensar em como contribui cada elemento da Bíblia a sua mensagem de salvação como um todo.     

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