domingo, 29 de março de 2015

BREVE ENSAIO EXEGÉTICO NO NOVO TESTAMENTO: UM ESTUDO DE CASO EM 1ª João 2.12-14

BREVE ENSAIO EXEGÉTICO NO NOVO TESTAMENTO: UM ESTUDO DE CASO EM 1ª João 2.12-14
Rev. João Ricardo Ferreira de França*
Filhinhos, eu vos escrevo, porque os vossos pecados são perdoados, por causa do seu nome.
 13 Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno.
 14 Filhinhos, eu vos escrevi, porque conheceis o Pai. Pais, eu vos escrevi, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.
 Introdução:
            Sabemos que o apóstolo João escreve as suas cartas com a finalidade de rebater o gnosticismo incipiente promovido pelos falsos mestres[1] nas comunidades cristãs as quais ele escreve as suas cartas. No trecho de abertura desta cara (1.1-4) o autor procura mostrar, em termos gerais, que tenciona ressaltar a temática da encarnação do verbo.[2]
            Vale salientar que carta é marcada por dois objetivos específicos que precisam ser considerados antes de qualquer análise exegética: “O conteúdo desse escrito tem dois objetivos: o combate a heresias cristãs (2.18-27; 4.1-6) e a confirmação dos cristãos aos quais ele se dirige na verdadeira fé e na verdadeira vivência em face da ameaça pela heresia.”[3] Certamente este segundo objetivo permeia o bloco que será alvo de nossa análise exegética.
VS. 12:                                                
Γράφω ὑμῖν, τεκνία, ὅτι ἀφέωνται ὑμῖν αἱ ἁμαρτίαι διὰ τὸ ὄνομα αὐτοῦ.” – o verbo escrever aqui no nosso texto “Γράφω” aponta provavelmente para o documento em curso de sua escrita, o tempo presente usado no verbo parece reforçar essa ideia.
O vocábulo “τεκνία” indica crianças pequenas, aqui o sentido é figurado, e ainda inclui todas as classes de pessoas. John Stott sugere que o apóstolo esteja se referindo a três classes de pessoas “filhinhos, jovens e pais”[4] Stott parece ignorar que no primeiro verso João usa o mesmo termo e o sentido é a todos os crentes, pois, não se refere apenas aos novos convertidos, mas todos os crentes em Cristo.
Calvino indica que este termo grego abarca “uma declaração geral, para que ele não aborda apenas os de tenra idade , mas por crianças pequenas , ele quer dizer homens de todas as idades , como no primeiro verso , e também como nos versos posteriores.” Calvino assegura que diz isso porque as pessoas tomam a palavra Teknia como uma referência as crianças, quando a palavra seria παιδία, mas aqui o apóstolo usa o apalavra τεκνία para se referir tanto a jovens como a idosos, pois, ele se coloca como pai espiritual da igreja.[5]
João informa que escreve estas palavras “porque os vossos pecados estão perdoados”. O uso da conjunção “ὅτι ” aponta para o que ocasionou a escrita de tas palavras. A certeza do perdão dos pecados. O verbo “perdoar” conforme aparece aqui no texto “ἀφέωνται o uso do tempo perfeito indica uma ação contínua[6], vale ressaltar que o tempo perfeito “não é usado para indicar uma ação passada, mas o estado presente e resultante da ação passada”[7].
O Apóstolo escreve porque esses crentes foram perdoados no passado e continuam sendo perdoados, a implicação de uma ação passada, mas com resultados permanentes[8]. Ao que parece João deseja assegurar aos crentes a certeza de sua redenção apontando para a plena certeza do perdão dos pecados obtidos por Cristo na cruz do calvário.
O apóstolo continua agora nos apresentando a causa material para a certeza deste perdão dos pecados: “por causa do seu nome. (1Jo 2:12 ARA)”. A nossa versão traduzir a preposição “διὰ” com o sentido de “por causa de”. Na versão Corrigida o texto foi traduzido como segue: “Filhinhos, escrevo-vos porque, pelo seu nome, vos são perdoados os pecados”.( 1Jo 2.12 ARC) a explicação para esta distinção está na gramática grega. A preposição quando está governando um substantivo no caso genitivo ela terá o sentido “através de” e quando a mesma governa um substantivo no caso acusativo terá o sentido de “por causa de” – o substantivo “ὄνομα” está no caso acusativo. Então, por causa do nome de Cristo e seu sacrifício no calvário aqueles irmãos tem o segurança do perdão dos pecados.
Vs: 13 – “γράφω ὑμῖν, πατέρες, ὅτι ἐγνώκατε τὸν ἀπ᾽ ἀρχῆς. γράφω ὑμῖν, νεανίσκοι, ὅτι νενικήκατε τὸν πονηρόν.
            João se dirige aos pais que no verso anterior estavam incluídos na categoria de “filhinhos”, ele diz: “Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno.  (1Jo 2:13 ARA)”. É necessário entender que João escreve deste modo para individualizar as idades presentes na igreja, ou como alguém já disse que o apóstolo passa a  “enumerar diferentes idades , para que pudesse mostrar que o que ele ensinou era adequado para cada um deles.”[9] Ou seja, João sai do campo geral e vai para o particular, se dirige aos pais com a finalidade de relembrar-lhe que eles conhecem aquele que existe pelo séculos dos séculos.
O verbo conhecer aqui “ἐγνώκατε está no tempo verbal que aponta para a continuidade dos resultados do conhecimento obtido sobre o verbo eterno. Os jovens são descritos como vitoriosos. Na verdade o que João tem dito é que o eles tem dominado o maligno, pois, no grego o verbo “νενικήκατε” tem o sentido de conquistar e não de meramente vencer, a ideia é que eles têm avançado sobre o maligno (πονηρόν). Parece-nos que a perspectiva de João é bem otimista!
Vs. 14:
ἔγραψα ὑμῖν, παιδία, ὅτι ἐγνώκατε τὸν πατέρα. ἔγραψα ὑμῖν, πατέρες, ὅτι ἐγνώκατε τὸν ἀπ᾽ ἀρχῆς. ἔγραψα ὑμῖν, νεανίσκοι, ὅτι ἰσχυροί ἐστε καὶ ὁ λόγος τοῦ θεοῦ ἐν ὑμῖν μένει καὶ νενικήκατε τὸν πονηρόν.
            Neste verso João começa com um aoristo epistolar “ἔγραψα” focalizando na mensagem da presente carta, e novamente se dirige aos filhos e usa a palavra “παιδία” que possuem alguma noção do que está sendo dito, de modo particular, ele diz que os mesmos conhecem “ἐγνώκατε” ao pai “πατέρες”.
            Qual é a razão de João escrever a eles? Porque eles são fortes (ἰσχυροί ἐστε), e a palavra de Deus permanece neles. A expressão “palavra de Deus ” [ὁ λόγος τοῦ θεου] revela-nos que o verbo de Deus é suficiente para garantir a fortaleza espiritual que os jovens precisam. Eles têm a certeza do perdão dos pecados em Cristo e plena fortaleza na fé por causa da Palavra de Deus que habita neles. E como esta palavra permanece a implicação é que eles têm como vencer o maligno.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1.      CALVINO, John. Commentaries on the Catholic Epistles, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library.
2.      CARSON, D.A.; MOO, Douglas. MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997.
3.      CHAMBERLAIN, William Douglas. Gramática Exegética do Grego Neo-Testamentário. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989.
4.      KISTEMAER, Simon. Tiago e Epístolas de João – São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.
5.      MARSHALL, I.HOWARD. Teologia do Novo Testamento – Diversos Testemunhos, Um só Evangelho. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007.
6.      STOTT, John R. W. I, II e III João – Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982.
7.      VIELHAUER, Phlipp. História da Literatura Cristã Primitiva – Introdução ao Novo Testamento aos Apócrifos e aos Pais Apostólicos. Santo André, SP: Editora Academia Cristã, 2005.
8.      WALLACE, Daniel B. Gramática Grega – Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009.







* O autor é Ministro da Palavra pela Igreja Presbiteriana do brasil. Formou-se em Teologia no Seminário Presbiteriano do Norte (SPN) Recife – PE. Foi professor de línguas bíblicas (Grego e Hebraico) no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil (SPFB) – Recife – PE. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana de Piripiri – PI.
[1] CARSON, D.A.; MOO, Douglas.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997, p.501.
[2] MARSHALL, I.HOWARD. Teologia do Novo Testamento – Diversos Testemunhos, Um só Evangelho. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007, p.460.
[3] VIELHAUER, Phlipp. História da Literatura Cristã Primitiva – Introdução ao Novo Testamento aos Apócrifos e aos Pais Apostólicos. Santo André, SP: Editora Academia Cristã, 2005, p. 489.
[4] STOTT, John R. W. I, II e III João – Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982, p.83.  Simon Kistemaker partilha da mesma ideia de Stott Cf. KISTEMAER, Simon. Tiago e Epístolas de João – São Paulo: Editora Cultura Cristã, p. 352-358.
[5] CALVINO, John. Commentaries on the Catholic Epistles , Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library,p. 159
[6] STOTT, John R. W. I, II e III João – Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982, p.84.
[7] WALLACE, Daniel B. Gramática Grega – Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009, p. 573.
[8] CHAMBERLAIN, William Douglas. Gramática Exegética do Grego Neo-Testamentário. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989, p.98.
[9] CALVINO, John. Commentaries on the Catholic Epistles , Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library,p. 160.

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